Como se escreve nos jornais

E a propósito de siglas e acrónimos

      «A marca [Bruma] nasceu em 2002, mas a história da empresa recua a 1953, quando o sogro de Baldomero [Talaia] e dois outros sócios abriram uma fábrica em Vila Nova de Famalicão, a Fermacar – o diminutivo e a junção dos três apelidos: Ferreira, Marques e Carneiro» («As torneiras que fazem correr água pelo mundo», Sónia Simões, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 34).
      Cara Sónia Simões, tem a certeza de que sabe o que é um diminutivo? Confira: palavra formada com um sufixo que expressa a ideia de pequenez ou valores afetivos (carinho, intensidade, etc.).

[Texto 1068]

Como se fala na televisão

MPAGDP

      Ontem, na RTP, falou-se novamente no projecto, já aqui referido antes, A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria. Segundo Tiago Pereira, realizador e mentor do projecto, o objectivo é «tirar as coisas de ser rural ou ser urbano e misturar tudo e aquilo chegar ao maior número de pessoas possíveis e disseminar-se por outros públicos».

[Texto 1067]

«Deve e haver»

Mais vale prevenir

      «Dois novos acessos de espirros impediram-me de chegar ao fim do retrato. Para evitar uma depressão clínica, evoquei mentalmente alguns pontos positivos neste dever e haver, que manifestamente existem, a começar pela melhoria da qualidade do ar e da água, a revolução no tratamento do lixo, a consideração vinculativa do ambiente nas decisões sobre grandes projectos» («Mapa fatídico», Ricardo Garcia, «Pública»/Público, 5.02.2012, p. 55).
      Pode ser gralha, mas quem sabe? É que há cerca de cinco anos um estudante — talvez agora doutorando — perguntava ao Ciberdúvidas se não seria mais correcto «dever e haver». Não é. A expressão, consagrada, é deve e haver.
[Texto 1066]

O gerúndio em todo o seu esplendor

Já faz parte

      «Stir vigorously, wiping drool from your chin with shirt-sleeve.» Na tradução: «Agite vigorosamente, limpando a baba do queixo com a manga da camisa.» «Agitar limpando»?! É mais uma exibição do gerúndio copulativo. Bem, o Google não traduz muito pior: «Mexa vigorosamente, limpando a baba do seu queixo com camisa de manga.»

[Texto 1065]

Ortografia: «primeira-dama»

Agora é pior

      Com a adopção das novas regras ortográficas, quase sempre a trouxe-mouxe, deu-se uma razia nos hífenes. «Michelle Obama é a responsável pelo programa Let’s Move (que em português poderá ser qualquer coisa como Toca a Mexer) ao qual a primeira dama dedica bastante do seu tempo» («Michelle Obama foi ao tapete, mas venceu Ellen», Fernanda Mira, Diário de Notícias, 3.02.2012, p. 53).
      Cara Fernanda Mira, antes e depois do Acordo Ortográfico de 1990, é «primeira-dama» que se escreve. Diga lá em casa e no emprego, se faz favor.
[Texto 1064]

Léxico: «sorumbatismo»

Está noutros

      «À aproximação da paragem seguinte, onde tudo se resolveria, a pressão sonora foi baixando, o entusiasmo cedeu e os passageiros mergulharam novamente no sorumbatismo em que antes vegetavam. A compactação tornou-se omnipresente e eu fugi logo que pude, duas paragens antes da habitual, reencontrando o oxigénio, mas sem saber o resultado do julgamento» («“Estás a brincar ou o quê?”», Ricardo Garcia, Público, 5.02.2012, p. 37).
      O substantivo «sorumbatismo» não está registado em todos os dicionários. Não está registado, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas já sugeri que o incluísse. «Agradecemos as suas sugestões/comentários, que serão merecedores da nossa análise.»

[Texto 1063]

«Culpabilizar»

Esqueça isso

      «Seria injusto culpabilizar a greve, este direito inalienável dos trabalhadores. Mas não fosse a paralisação nos transportes e o 36 não estaria tão cheio. E quando digo cheio, estou a ser modesto. O autocarro estava à cunha e os passageiros, ensardinhados, lutavam pelo seu espaço como cães a um osso» («“Estás a brincar ou o quê?”», Ricardo Garcia, Público, 5.02.2012, p. 37).
      Caro Ricardo Garcia, não precisava de usar o verbo «culpabilizar», se tem «culpar». Para os que conseguem discernir matizes, aposto até que diriam que, neste contexto, não usariam o neologismo.

[Texto 1062]

Tradução: «bacon»

Ham, bacon...

      Bacon é sempre traduzido por... bacon ou, indulgência máxima, por toucinho fumado. É o que se lê no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora, por exemplo. O Michaelis regista algo semelhante: «toicinho defumado». Então como traduziriam uma frase como a que se segue? «Fry up some bacon, and have it for breakfast.» Não quero lançar um número qualquer para o ar, mas na esmagadora maioria das vezes, bacon não é traduzido. Justificar-se-á esta opção dos tradutores?
[Texto 1061]

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