Contracções

E quando é necessário, nada

      «O advogado não pode esquecê-lo, e a sociedade não deixará de lhe o lembrar», escreveu o autor. Descontrair, como diz a «nossa especialista em língua portuguesa», para quê?
[Texto 755]

Léxico: «recuperador»

Boa noite, Zé

      «Os pescadores foram salvos pelos recuperadores-salvadores da Marinha. Esses militares descansam na Base Aérea do Montijo, onde se encontra a Sandra Claudino» (José Rodrigues dos Santos, Telejornal, 2.12.2011). A repórter entrevistou o comandante do helicóptero usado no salvamento e o recuperador. Antes, porém, disse: «Boa noite, Zé. Estamos no hangar da Base Militar aqui do Montijo, como disseste.» «Recuperador», de que já nos ocupámos aqui, continua, nesta acepção, ausente dos dicionários. Quanto a «hangar», foi alvo de uma silabada da repórter, que a pronunciou como se se tratasse de uma palavra grave, quando é aguda ou oxítona. É grave, porque é cacoépia. Cara Sandra Claudino, lembre-se, já não digo da palavra «Gibraltar», porque também é habitualmente mal pronunciada, mas de «altar».

[Texto 754]

Tradução: «padrão-ouro»

Também nesta acepção

      Gold standard tem tradução perfeita em «padrão-ouro» — mas apenas na sua acepção principal: sistema monetário que vigorou até à Primeira Guerra Mundial. Ou não será assim? Para traduzir a acepção de benchmark, há-de parecer, sobretudo porque não está registado nos dicionários gerais, que não tem correspondência. Mas tem. Na literatura médica em língua portuguesa, o termo «padrão-ouro» é empregado com alguma frequência.
[Texto 753]

Sobre «icónico»

Encaixa esta

      «A manipulação de imagens é prática comum numa era dominada pelo digital, mas na verdade remonta aos primórdios da fotografia. Uma das primeiras a ser retocadas manualmente data de 1939 e mostra o primeiro-ministro-canadiano [sic] William Lyon Mackenzie King, a rainha consorte do Reino Unido e o rei Jorge VI. Este acabou por ser retirado (à esquerda). Porém, já em 1860 se alteravam imagens. O icónico retrato do antigo presidente norte-americano Abraham Lincoln é uma composição da sua cabeça com o corpo do político John Calhoun» («Antes de a informática nascer já se manipulavam fotografias à mão», Ana Filipe Silveira, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 50).
      Nesta acepção, é anglicismo semântico. O Dicionário Houaiss é dos poucos dicionários que o registam: «pessoa ou coisa emblemática do seu tempo, do seu grupo, de um modo de agir ou pensar, etc.».

[Texto 752]

«Desadequado», de novo

Sem ofensa

      «Dir-se-á que muito mudou no último milénio e tal e que as objecções de Stephen Fry são desadequadas» («A letra C», Pedro Mexia, «Atual»/Expresso, 19.11.2011, p. 3).
      Já tinha passado um traço por cima de «desadequadas» quando me lembrei — quase a tempo — da recomendação de Fernando Venâncio. Foi só em Maio deste ano, caramba, pensava que já tinham passado anos. Ainda hoje tenho as orelhas a arder, os olhos doloridos, o colarinho amarrotado, continuo afogueado (para citar ao contrário Rubem Braga). Concordo com muito do que Fernando Venâncio afirma, mas quanto à filtragem das formas impróprias se ir fazendo com bastante frequência, não me parece. Vão-se consolidando formas mais recomendáveis e outras nada recomendáveis, num processo que, se não é aleatório, não é deliberado nem objecto de consenso. Nem satisfatório.
[Texto 751]

Como se escreve nos jornais

Cada vez melhor

      «Não tenho dúvidas de que os lobbies existem, nem de que se esforçam cada vez melhor para ter influência. Fala-se no lobby das farmácias, dos médicos, dos construtores civis, para além de incontáveis sociedades secretas e religiosas. Se há um lobby gay, como em tempos alguém sugeriu, não faço ideia. É possível que muitos destes lobbies vivam mais da imaginação do que da realidade» («O lobby do pânico», Pedro Lomba, Público, 1.12.2011, p. 44).
      Até agora, só tinha visto o esforço ser graduado em intensidade, não em qualidade. De facto, o que podemos é esforçar-nos, e esforçar-nos mais, para fazer melhor.
[Texto 750]

«PIDE/pide»

Schwein!

      «“Constou-me que a pátria estava em perigo!”, justificação que muito impressionou o PIDE, que quase lhe faz continência, enquanto o meu pai acaricia o atestado que leva no bolso e remata o diálogo com um sonoro Schwein! à laia de despedida, escudado no hermetismo da deutsche Sprache» («Os canadianos, esses sornas», Ana Cristina Leonardo, «Atual»/Expresso, 19.11.2011, p. 6).
      Já tivemos oportunidade de ver esta questão, mas insisto: creio que é preferível não usar o acrónimo para designar a pessoa pertencente à Polícia Internacional de Defesa do Estado. Alguns dicionários já registam o termo, mas não o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que o mais próximo que acolhe é... «cide». Quanto a Schwein, Ana Cristina Leonardo não quis tirar-nos o prazer de descobrirmos o que significa. Obrigadinho.
[Texto 749]

Léxico: «violeiro»

Ah, não seria o mesmo

      «Se o radiologista Steven Sirr da Universidade de Minesota, nos Estados Unidos, não fosse um violinista amador que gosta de praticar nos tempos mortos do trabalho, não teria dado ontem uma espantosa notícia na conferência anual da Radiological Society of North America, em Chicago. Sirr anunciou que consegue produzir violinos iguaizinhos aos que o mais famoso luthier de todos os tempos, Antonio Stradivari, de Cremona, em Itália, construiu no final do século XVII, princípio do séc. XVIII» («TAC permitiu réplicas perfeitas de ‘Stradivarius’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 30.11.2011, p. 30).
      Pronto, rendo-me: temos de recorrer ao galicismo luthier porque não temos palavra para designar o mesmo. Ou será que temos? Ah, não vocábulo com tanto prestígio, mas ei-lo: violeiro. Veja na ligação para o Dicionário Houaiss aí no lado esquerdo (novidade no blogue): «que ou aquele que fabrica instrumentos de corda». Então?
      «Utilizo, pues, las palabras laudero y laudería y evito, así, tanto los galicismos luthier y lutherie como el mal sonante violero» (Las aventuras de un violonchelo: historias y memorias, Carlos Prieto. México D. F.: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes (Conaculta), 1999). Malsoante? Apenas aos requintadíssimos ouvidos modernos.
[Texto 748]

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