Regência: «ansiar»

Já não sabemos ansiar

      «Victor Frutuoso diz que, há cerca de quatro ou cinco anos, houve um empresário holandês interessado em fazer um empreendimento turístico relacionado com a gastronomia, produtos biológicos, hotelaria de grande qualidade, “mas não teve sucesso no financiamento”. Agora, todos anseiam para que a história não se repita» («Aldeia à venda em Marvão já tem um investidor interessado», Maria Antónia Zacarias, Público, 20.11.2011, p. 41).
      Desconheço essa regência do verbo «ansiar» — como a jornalista ignora a regência correcta: ansiar + por. Bem, só erra na preposição.
      «Às vezes, só às vezes, abreviava essas leituras saltando períodos..., e, coitado! o avô estava já velho e não dava pelas inevitáveis lacunas dos artigos assim lidos. Eu ansiava por que ele me abandonasse o jornal para ler o folhetim» (Confissão Dum Homem Religioso, José Régio. Lisboa: INCM, 2001, p. 55).

[Texto 696]

«Plantar provas»

Uma evidência

      Um jornalista perguntou a Raul Soares da Veiga: «O que é que o seu cliente diz sobre as provas que alegadamente foram plantadas?» Ora consultem lá os dicionários que têm aí à mão. A acepção, que não me parece muito antiga entre nós, não está registada — e não faz mal nenhum, pois é mais um anglicismo semântico. Manchete recente do New York Times: «Mexico: Police Plant Evidence to Justify Illegal Entry, Panel Says».
[Texto 695]

Como falam os advogados

E não podia esforçar-se um pouco?

      Uma conversa técnica. Raul Soares da Veiga, um dos advogados de Duarte Lima, à saída de uma visita ao seu constituinte: «A conversa que temos com um cliente que é advogado é uma conversa um bocado diferente do que temos com um cliente que não seja advogado, não é? Falamos das coisas já sob o ponto de vista técnico, definindo as normas, os factos... Enfim, tudo isso tem uma certa implicação que não dá para vos traduzir em linguagem leiga porque nós não usamos linguagem leiga, não é?»
[Texto 694]

Tradução: «aditional»

Não me parece

      «Passados todos estes anos de silêncio sobre o caso, as autoridades judiciais de Los Angeles anunciaram a reabertura das investigações, alegando terem sido contactadas por pessoas que reclamam ter em sua posse “informações adicionais” acerca do afogamento» («Acidente? Três décadas depois, o caso Natalie Wood foi reaberto», Susana Almeida Ribeiro, «P2»/Público, 19.11.2011, p. 11).
      Claro que temos a palavra, mas quem fala assim? Não será mais natural traduzir por «outras informações» ou «mais informações»?
[Texto 693]

Léxico: «transbordo»

Ou transbordamento

      «O vereador da Protecção Civil da Câmara Municipal de Cascais confirmou que “a chuva forte causou o transbordo da ribeira das Marianas e da Alapraia”, esta última em São João do Estoril. “As terras estão muito saturadas e quando há esta chuva intensa repentina, como a que aconteceu eram cerca das 17h, não há como evitar situações destas”, sustentou Pedro Mendonça» («Chuva fez transbordar ribeiras e causou inundações em Cascais e Oeiras», Público, 19.11.2011, p. 32).
      Nesta acepção de extravasamento, não é muito comum. Comum é na acepção de passagem de viajantes ou de mercadorias de um barco ou comboio para outro.
[Texto 692]

«Colocar»

Duas colocações

      «Se o detective londrino largava a custo a cocaína para se dedicar ao trabalho de campo que um assassinato envolve, Dave Gurney abandona a sua droga que é a vida no campo para voltar a colocar as mãos na massa. Aqui também há um inspector Watson. Chama-se Madeleine e o facto de ser casada com o detective torna a relação menos ambígua» («Um policial bem publicitado», Rui Lagartinho, «P2»/Público, 18.11.2011, p. 33).
      «Pilotos reclamam 400 milhões de euros da TAP e colocam em risco a privatização» (Raquel Almeida Correia, Público, 18.11.2011, p. 24).
[Texto 691]

Teatro

Teatro, essa ridícula pretensão

      «Nada disto, claro, serve, ou jamais serviu, rigorosamente para nada. Em 37 anos não apareceu uma única obra decente de dramaturgia portuguesa. Apareceram romances em grande quantidade, apareceu poesia, apareceram livros de história ou de memórias. Não apareceu uma única peça digna desse nome. Até o Teatro Nacional D. Maria II, na impossibilidade de se ficar eternamente no Frei Luís de Sousa, apresenta geralmente traduções. De resto, não lhe falta só dramaturgia portuguesa. Também lhe falta público. Uma noite no D. Maria é uma noite soturna. Francisco José Viegas cortou o orçamento (um milhão de euros) deste longo equívoco. Foi inteiramente justo. E, quando Diogo Infante resolveu recorrer à intimidação, não hesitou em o demitir. Chegou a altura de acabar com esta ridícula ilusão que em Portugal se chama “teatro”» («Teatro à portuguesa», Vasco Pulido Valente, Público, 18.11.2011, p. 44).

[Texto 690]

Linguagem

«Semanticamente pobre»

      «O arguido — actualmente casado e pai de um rapaz de nove anos — viu negado o pedido para ser dispensado das sessões de julgamento, que fundamentara no facto de ser motorista de longo curso e nas dificuldades económicas decorrentes de uma ausência prolongada ao trabalho. Do mesmo modo, viu indeferido o pedido para ser sujeito a uma perícia psicológica que avaliasse a sua imputabilidade diminuída, a pretexto de supostas dificuldades cognitivas que se traduzem nalguma incapacidade de se “situar no tempo e no espaço” e num discurso “semanticamente pobre”» («‘Juro pela saúde do meu filho que não fiz nada’», Natália Faria, Público, 18.11.2011, p. 10).
      Ora aí está uma via que se poderá revelar extremamente profícua para os advogados. Desde que os juízes deixem, é claro.
[Texto 689]

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