Como se fala por aí

Sonhos inarticulados

      Catarina Furtado foi fazer uma reportagem à Ilha de Moçambique. Ouçam-na: «“Desta vez vamos para um sítio que eu sempre sonhei ir e tenho como imagem a grande reportagem que o meu pai fez para a RTP, há muitos anos, era eu uma miúda. Lembro-me de que me fascinou imenso. É daquelas curiosidades que ficam”, contou» («Em Nampula a cumprir um sonho de criança», A. F. S., Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 51).
      Só não sabemos se Catarina Furtado se exprimiu assim ou se é tudo da lavra do jornalista. Claro que isso é o menos importante — por muito que alguns, habitualmente os visados ou anónimos sem procuração, pretendam ver o contrário —, pois não uso de argumentos ad hominem (nem ad feminam). Temos é de meter na cabeça que é errado e que fica mal na boca de uma comunicadora ou na pena de um jornalista.
[Texto 483]

Como se escreve nos jornais

Uma tentativa

      «Alvejado em órgãos vitais, Hilário Soares acabaria por morrer no local. Depois de consumar o homicídio, Adelino Almeida regressou à sua vivenda. Terá esboçado o suicídio, mas entretanto chegaram os bombeiros» («Discussão de honra acaba com morte a tiro», Júlio Almeida, Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 18).
      Um dos sentidos figurados de esboçar é iniciar uma acção ou gesto sem o completar, mas não deixa de ser estranho escrever «terá esboçado o suicídio».

[Texto 482]

Léxico: «alíquota»

Só se explicarem

      «Os relatores consideram mesmo que não é possível “determinar se a causa das lesões dos ofendidos resultou da troca do fármacos [sic], se existiu troca e em que momento é que a mesma ocorreu”. O relator, o presidente do Conselho Jurisdicional Regional de Lisboa, Joaquim Marques, apoiado pela consultora jurídica Ana Varejão, detectou “fragilidades” naquele serviço hospitalar, como o facto de não existirem regras escritas para a utilização de sobras de medicamentos (tecnicamente designados de alíquotas)» («Ordem arquiva caso dos cegos de Santa Maria», Diário de Notícias, 16.09.2011, p. 14).
      O primeiro obstáculo para a compreensão é logo a falta de concordância — pois não é aos medicamentos, mas às sobras destes, que se dá a designação de alíquota. É acepção, da gíria médica, que os dicionários não registam. Alíquota — é a única acepção dicionarizada — é a parte que está contida num todo um número exacto de vezes. Não deveria figurar entre as falhas nas «Expressões médicas: falhas e acertos»?
      Mas, entretanto, registe-se. Alíquota: sobra de fármaco extraído da embalagem original.

[Texto 481]

Concordância

[Sem título]

      «Num daqueles filmes de merda que, tal como o cagar, são necessidades, sem as quais não se está bem (o Final Destination 5), um professor ignóbil pergunta retoricamente a um dos relutantes discípulos: “Qual é a coisa que jamais se consegue reciclar?” A resposta, claro, é o “tempo desperdiçado”. Só vi os primeiros dez minutos – não desperdicei a hora e tal que faltavam – mas foi o suficiente para absorver a mensagem» («O destino, entretanto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 19.08.2011, p. 33).
      Uma e tal não são dois. Isto precisa de um psiquiatra: «Agora já só um mês e tal nos separa, meu amor. Esperemos que irá passar o mais depressa possível! Só Deus sabe a vontade que tenho de te ver e de te abraçar! A falta que tu, meu amor, me fazes, não há palavras que a possam exprimir!» (D’Este Viver aqui Neste Papel Descripto: cartas da guerra, António Lobo Antunes. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 262).
[Texto 410]

O Público errou

Não aquenta nem arrefenta

      Nem o pobre leitor compreenderia, se não o dissessem: «Na carta ontem aqui publicada, ”Enormidades à conta do anti-AO”, de José Mário Costa, a frase “Tão certo como 2+2 = 4, lá veio disparada, rápida e célere, a réplica anti-AO ao artigo pró-AO (...)” saiu truncada [“Tão certo como 2+24, lá veio disparada e célere, a réplica anti-AO ao artigo pró-AO (...)]” . As nossas desculpas ao autor e aos leitores» («O Público errou», Público, 18.08.2011, p. 30).

[Texto 408]

Léxico: «pirete»

Malcriados

      «If you look really closely you can see the outline of my friend ***’s middle finger flipping them all the bird.» «Se olhares com atenção, vê-se lá a silhueta do dedo do meio do meu amigo *** a fazer-lhes um pirete a todos.»
      Bem, é mais um termo que não conhecia. E o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora também não conhece. Aproxima-se: «pilrete», «um homem muito pequeno, homúnculo; criança vivaz». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista-o: «Gesto obsceno que consiste em esticar o dedo médio da mão e encolher os outros.» É termo popular (do Norte?).
      «Faço-lhe um adeus com a mãozinha e na mãozinha um pirete como mandam as regras. Agora percebeu, o sacana, percebeu, o filho de um grande comboio de xandras — lá está ele a fazer-me um adeus igual ao meu, mãozinha e tudo, e pirete!» (Walt ou o Frio e o Quente, Fernando Assis Pacheco. Lisboa: Bertrand Editora, 1979, p. 30).
[Texto 402]

«Pôr em causa»

Mudança de paradigma

      Jornalista Nuno Rodrigues, no noticiário das 8 da manhã na Antena 1: «Tudo isto numa altura em que a directora-geral do FMI, Christine Lagarde, fala da necessidade de combater a dívida, mas sem colocar em causa o crescimento económico, Teresa Correia.»
      «Não obstante as liberdades concedidas pelo Decreto, era exigido ao matador deixar o chão bem limpo e sem sinais de violência, tanto quanto o necessário para não pôr em causa a moral ou a aparência de alguns costumes» (Entre Pássaro e Anjo, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 3.ª ed., 1993, p. 18).
[Texto 400]

Sul do Sudão/Sudão do Sul

Do Sul

      A propósito de tio Google: este senhor, com uma memória prodigiosa mas um pouco desatinado, diz-me que Sul do Sudão é quase tão usado como Sudão do Sul. Ora, tendo em conta que boa parte das ocorrências (somente páginas de Portugal) dirá respeito à independência deste território do Sudão, pergunto a mim mesmo se esta polarização não é enganadora. Explico-me. Na minha ideia, devia usar-se Sul do Sudão apenas quando nos referimos ao território como parte integrante do Estado sudanês. Quando nos referimos ao novo Estado, usaremos Sudão do Sul – à semelhança de Coreia do Sul, Dacota do Sul, Carolina do Sul, Ossétia do Sul...
[Texto 399]

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