Verbo «haver»

Deslizes latinos

      Lapsus linguæ, «erro da língua», não tem que se lhe diga. Já quanto a lapsus calami, «erro da pena», Júlio Moreira sentiu-se na necessidade de explicar que «é apenas uma forma de dizer, para minorar a culpa de quem escreve». Neste caso não houve lapsus linguæ mas mero solecismo bem enraizado já na escrita e na oralidade: «Recuperar câmaras nas autárquicas, dentro de dois anos, é um dos objectivos. O Porto surge como exemplo no topo da lista, onde têm de haver coligações de esquerda, PS, CDU e Bloco juntos» (Noticiário das 10 da noite, Alexandra Madeira, Antena 1, 18.06.2011). Talvez seja um lapsus memoriæ: a repórter esqueceu-se da regra.
      Ainda recentemente o escrevi: é aconselhável voltar, de vez em quando, a referir aqui estes erros, que conspurcam toda a comunicação social, como já tivemos oportunidade de apontar mais de uma vez. Até para não dar o sinal, errado, de que tudo está melhor. Pergunto a mim mesmo o que há de tão complexo para que os jornalistas não percebam o que é a impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Mesmo nos tempos compostos. Mas a democracia é isto: qualquer dia, que não virá longe, as gramáticas vão acolher, como «variante», este erro.
[Texto 178]

Prefixo «anti-»

Tudo de uma vez

      Há anos que ando a avisar que o prefixo anti- é seguido de hífen somente se o elemento seguinte começar por h, i, r ou s. Salvo em relação a nomes próprios, um caso que também já tratei, não há excepções. Só é de espantar quando o erro aparece em livros revistos (mal, claro). Nos jornais, só vai sendo de admirar quando acertam. No exemplo, triplamente: «Newt Gingrich: “A Administração Obama é antiemprego, antiempresas, antienergia americana”» («Barack Obama foi o alvo e Portugal entrou no debate dos candidatos republicanos», Kathleen Gomes, Público, 15.06.2011, p. 14).

[Texto 177]

Sobre «irradiar»

Lançar raios de luz

      Acabei agora mesmo de ler três vezes o verbete, e por isso posso garantir: o Dicionário Houaiss não regista a acepção «afastar» do verbo «irradiar». E o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa também não. José Pedro Machado também desconhecia a nupérrima acepção, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolheu-a no seu seio despreconceituoso.
[Texto 176]

«Apelar para»

Não me convencem

      Correspondendo ao apelo da leitora Cristina e aproveitando ter-me passado agora mesmo pelos olhos uma frase com a regência errada («Muitos apelam à extin­ção da RTP.»), eis mais uma vez: a regência do verbo «apelar», na acepção que a frase acima exigia, é apelar para. A mim, basta-me esta notinha de Francisco Fernandes na página 83 do seu magnífico Dicionário de Verbos e Regimes: «APELAR A ALGUÉM ou A ALGUMA COISA é regência condenada pelos mestres.» Bem podem os novíssimos linguistas de pacotilha dizer o contrário.
      Eis um mestre: «Ao final, todos, mesmo os paulistas, apelaram para a ação do Governo, seja com a abertura de crédito barato, seja mediante legislação favorável à imigração, seja por medidas que possibilitassem o emprego do trabalhador nacional» (Emancipação dos Escravos: Projeto Dantas (dos sexagenários) e o parecer que o justifica, Rui Barbosa. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988, p. VII).
[Texto 175]

Da linguagem dos magistrados

Isto tem de mudar

      A directora do Centro de Estudos Judiciários (CEJ), em comunicado, referiu que o infeliz caso do copianço se deu numa «exercitação realizada pelos auditores de Justiça do XXIX Curso Normal de Magistrados Judiciais e do Ministério Público», que envolveu 137 candidatos. Ontem, no Jornal das 9, Mário Crespo admitia que o vocábulo existia, sim senhor, mas era uma forma pouco comum de alguém se referir a um simples teste ou exame. De facto, tratando-se de um comunicado, é para toda a população, e a gíria da área ou a linguagem rebuscada não se adequam ao fim em vista: esclarecer. É uma infeliz manifestação da linguagem prescritiva, bebida nas próprias normas, dos magistrados, que não estão habituados a comunicar, pelo menos no sentido etimológico do termo, antes a discursar solipsisticamente. Quando o bastonário da Ordem dos Advogados afirma que o sistema judicial português é medieval, é também nisto que deverá estar a pensar.
      Exercitação foi termo muito da preferência de António Feliciano de Castilho: «Outra vantagem de não leve monta lhe provirá desta exercitação: acostumar-se-á desde logo a variar por muitos modos a linguagem para ocorrer às sucessivas exigências dos vários metros; extraordinário recurso que depois se aplaudirá de possuir» (Tratado de Metrificação, António Feliciano de Castilho. Lisboa: Imprensa Nacional, 1851, p. 101). (Actualização ortográfica minha.)
[Texto 174]

«Aura/áurea/auréola»

Imparável

      Avisada embora, Mafalda Lopes da Costa prossegue o seu inexacto labor linguístico: «Mas inicialmente os ídolos não tinham sequer a áurea de carne e osso que têm hoje» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, 17.06.2011).
      Anda, nos últimos tempos, tudo muito confundido: «aura», «áurea», «auréola». A atmosfera que rodeia ou parece rodear alguém ou alguma coisa tem o nome de aura. Corrigida neste sentido, porém, nem assim a frase de Mafalda Lopes da Costa me parece fazer sentido.
      «Estacou diante da grande Bíblia de bordas douradas e seixas de couro pendentes como chapelões, fechada em seu suporte de madeira lavrada e irradiando de repente uma aura mágica» (O Sorriso do Lagarto, João Ubaldo Ribeiro. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1991, p. 47).

[Texto 173]

«Educação/instrução»

Já vimos isto

      «Mas o caso mais substantivo é a “Educação e Ensino Superior”. O poder das palavras deve ser aqui bem medido. Eu, enquanto pai, agradeço penhorado, mas não preciso de nenhum ministro da Educação. Menos ainda de um ministro da Educação e do Ensino Superior (a natureza judicativa inscrita no nome da pasta não diz muito bem do restante ensino). Preciso, isso sim, de um ministro do Ensino. É que a educação deve ser dada em casa. Na escola, eu espero que instruam, que ensinem — a ler, a contar, a escrever, e depois coisas bem mais sérias, como Geografia, História ou Biologia. A existência de um Ministério da Educação demite os próprios pais do seu maior dever» («O poder da palavra», Jorge Reis-Sá, Público, 15.06.2011, p. 37).
      Já tenho escrito sobre a diferença entre «educação» e «instrução», como decerto se lembram. Mas Jorge Reis-Sá decerto não queria que o ministério se viesse a chamar Ministério dos Negócios da Instrução Pública, como no século XIX. Não, vamos mesmo ter um Ministério da Educação, do Ensino Superior e da Ciência, que terá à frente o professor catedrático de Matemática e de Estatística Nuno Crato.

[Texto 172]

«Ao deus-dará»

Não irá esquecer-se

      «O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considerou ontem, em Fátima, que a lei que despenaliza a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas tem sido administrada ao “Deus dará”» («Lei do aborto ao “Deus dará”, critica Igreja», Metro, 16.06.2011, p. 5).
      Até parece que D. José Policarpo invocou em vão o santo nome de Deus — mas não, a culpa é da revisora, Catarina Poderoso, que não sabe que se escreve «ao deus-dará». Agora já não vai esquecer-se.
      «A lei que despenaliza a interrupção da gravidez volta a ser alvo de críticas da Igreja Católica. “A lei não tem sido cumprida, tem sido facilitada, tem sido administrada um bocado ao deus-dará”, defendeu o cardeal-patriarca de Lisboa no final da Conferência Episcopal de três dias em Fátima» («Lei do aborto é aplicada “ao deus-dará”», Paula Carmo, Diário de Notícias, 15.06.2011, p. 17).

[Texto 171]

Arquivo do blogue