Cultura clássica

Ler não faz mal

      Quando se trata de cultura clássica, a tendência de muitos tradutores é deixarem nomes como os encontraram no original. Já vimos casos lamentáveis. No caso que hoje aqui trago, o tradutor escreveu que determinada personagem «representava o papel de Orestilla, a mulher de Catilina». Bem, também Barreto Feio grafou dessa maneira, mas era um tempo em que se escrevia «aquillo», «elle», «opposto»... Mas acrescenta o tradutor: «de quem Salusto disse que nunca um marido a tinha louvado». É o Salústio dos Espanhóis...
      «Catilina, perdido de amores por Aurélia Orestila, quis desposá-la e, como o filho desta se opusesse, corria que Catilina o envenenara, “acendendo na pira do filho o facho do himeneu com a mãe”, assim o conta Valério Máximo que também diz como em 651 Valério Valentino fora acusado por um poema pornográfico em que eram cantados o estupro de uma virgem e o desfloramento de um rapaz, com uma lubricidade genuinamente realista» (História da República Romana, Vol. III, Oliveira Martins. Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, 1952, p. 90).
[Texto 71]

«Prédio de gaveto»

Mal explicado

      No texto fala-se de prédios, quartos e lojas de esquina, o que me levou a pensar que actualmente a expressão «de gaveto» também se ouve menos. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado, prédio de gaveto é «a casa de esquina que forma um ângulo arredondado». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista a expressão «de gaveto»: «diz-se do prédio com frente redonda, no ângulo de duas ruas». O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa é mais parco: «prédio de gaveto: prédio de esquina». Ora, todos os prédios de esquina serão prédios de gaveto? Por outro lado, afirmar que é o prédio com frente redonda é subestimar a fertilíssima imaginação dos arquitectos: há prédios de gaveto sem formas arredondadas.
      Creio que o conceito é desconhecido no Brasil.
[Texto 70]

 

Léxico: «boletineiro»

RIP

      «“Dois telegramas para David Coates”, informou o distribuidor de telegramas.» Pronto, menos uma palavra a circular por aí. Apesar de tanta tecnologia ao nosso dispor, ainda se enviam telegramas — mas os tradutores, como os falantes comuns, já não conhecem o vocábulo «boletineiro». Veja-se o perfil de funções num documento do IEFP: «Entrega telegramas aos destinatários, deslocando-se, normalmente, em motorizada: recebe os telegramas e verifica as moradas indicadas a fim de determinar o percurso a efectuar; desloca-se ao local e entrega o telegrama, registando a respectiva data e hora e solicitando a assinatura do destinatário no documento comprovativo.» De motorizada actualmente, pois dantes, mesmo em grandes cidades, como Lisboa e Porto, era de bicicleta que os boletineiros, que trabalhavam muitas vezes até à meia-noite, se deslocavam. Só se podia ser boletineiro até aos 21 anos. Servia, muitas vezes, de tirocínio para carteiro.
[Texto 69]

 

Particípio + substantivo

É como quiserem

      «Depois», escreveram aqui, «passados um ou dois dias habituei-me a estar com ele, mesmo nestas condições, embora uma tremenda melancolia começasse a pairar sobre a nossa relação.» Vou pôr João Gaspar Simões — coitado, tão esquecido agora, quase incitável — a responder: «Passado um ou dois meses, avisava o jornal de que, sentindo-se doente, regressava a Lisboa» (As Mãos e as Luvas: Retrato em Corpo Inteiro, João Gaspar Simões. Lisboa: Brasília Editora, 1975, p. 146).
      Anteposto ou posposto, o particípio concorda com o substantivo a que se refere. Neste caso, como o sujeito é composto, com os núcleos unidos pela conjunção ou a indicar alternativa, a concordância é feita com o núcleo mais próximo (o numeral «um»). Contudo, como há uma inversão — «Um ou dois dias passados» —, devemos admitir as duas concordâncias.
      «Magnífica como pano de fundo, para acompanhar; mas, se fica no primeiro plano, — passadas uma ou duas horas o nosso espírito, asfixiado, reclama ideias e pede acção» (Ensaios, Tomo II, António Sérgio. Lisboa: Seara Nova, 2.ª ed., 1929, p. 116).
[Texto 68]

«Sofrer melhoramentos»

Cuidado com as analogias

      «O canil interior, de onde ecoam os latidos estridentes dos animais em boxes exíguas — onde dormem, comem e fazem as necessidades, acorrentados — vai sofrer obras que permitirão ampliar o espaço disponível» («Obras no canil e gatil de Monsanto prontas até Fevereiro de 2012», Marisa Soares, Público, 26.05.2011, p. 26).
      Boxe, seja para cavalos seja para cães, parece-me anglicismo desnecessário. Melhor: desnecessário no primeiro caso, pois temos o termo «baia», e inadequado no segundo. Sofrer obras ou reparações é correcto, mas repare-se como muitas vezes, decerto por analogia, se diz também «sofrer benefícios», «sofrer melhoramentos», que são impropriedades de expressão que se devem evitar.

[Texto 67]

«Ter» e «possuir»

E «haver» e «existir»

      «O autor do vídeo, com 18 anos, por já possuir antecedentes criminais, poderá ser confrontado com uma pena de prisão efectiva» («Jovem agredida com violência já foi submetida a exames», Ana Rita Duarte, Público, 27.05.2011, p. 11).
      Só as poucas leituras e o escasso conhecimento da língua poderão explicar que os jornalistas não sintam diferenças de sentido entre possuir e ter, haver e existir.
[Texto 66]

«Terno» e «fato»

Até em Cuba!

      «— Consegui dar-lhe uma medalhinha de S. Bento e disse-lhe para a usar de cada vez que mudar de terno e ele disse ‘Não me vou esquecer’, e deu-me dois beijinhos» («José Sócrates foi a Cuba e mesmo sem cantar ganhou uma medalhinha de S. Bento», Maria José Oliveira e Rita Siza, Público, 27.05.2011, p. 6).
      É o influxo das telenovelas brasileiras a fazer-se sentir. O falar alentejano já não é o do tempo de Manuel da Fonseca.
[Texto 65]

Ortografia

Ne varietur, Deo gratias

      A propósito do lançamento da 2.ª edição da Obra Poética de Sophia de Mello Breyner Andresen, lembra Eduardo Pitta na última Ípsilon: «Em mais do que uma entrevista, Sophia reiterou esse seu modo de escrever: “A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança, que se deve escrever com ‘s’, como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada, uma letra pesada. Escrevo com ‘s’, mas há sempre o desastre de os tipógrafos ou as pessoas que me passam os textos à máquina acharem que é um erro e emendarem para ‘ç’...” (“Diário de Notícias”, 24-11-94.) Isso mesmo é verificável na exposição “Uma Vida de Poeta”, recentemente organizada por Teresa Amado e Paula Morão na Biblioteca Nacional. Sousa discorda: “Não tendo a autora determinado que tal singularidade passasse a ser regra na sua obra, seria abusivo considerar que Sophia pretendeu instaurar um preceito de uso ortográfico próprio” (p. 8) Assim desapareceu essa marca textual.»
      Eduardo Pitta parece ter pena que esta idiossincrasia ortográfica tenha desaparecido da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen. A verdade, porém, é que tais idiossincrasias só trazem uma inútil e indecifrável carga de subjectividade. Se alguém ganha, não será o leitor.
[Texto 64]

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