Sobre «consigo»

A propósito de pronomes

      Em 1999, o leitor Faustino António Di, de Maputo, Moçambique, fazia esta pergunta ao Ciberdúvidas (aqui): «É correcto dizer “Depois falo consigo?” O meu professor de Português recomendou-me um trabalho de investigação no qual tenho de procurar saber porque é que a seguinte frase “Depois falo consigo” é incorrecta.» Resposta do consultor, um tal L. W.: «Num uso mais culto da língua seria preferível usar o verbo no futuro do presente: “Depois falarei consigo”. No entanto, está correcto utilizar o presente do indicativo para indicar um facto futuro, mas próximo. (Veja Celso Cunha e Lindley Cintra, “Nova Gramática do Português Contemporâneo”, Edições João Sá da Costa, Lisboa, 1987: “Emprego dos Tempos do Indicativo”, página 448.).» Ter sido no século passado não é desculpa. Quase dez anos depois, a dupla Sandra Duarte Tavares/Carlos Rocha (aqui) perorava: «Em Portugal, o pronome consigo pode ter como referência o pronome você, pelo que é gramatical a frase “Eu caminhava e falava consigo sobre o que ocorreu ontem”, desde que a interpretemos do seguinte modo: “Eu caminhava e falava com você sobre o que ocorreu ontem.”» É idiotismo nosso, sem dúvida, mas umas décadas antes os professores de Português tachavam esse uso sem valor reflexo de idiotia, de solecismo imperdoável. A língua evolui mesmo, não há dúvida.
[Texto 58]

Preposição comitativa

Sem tigo

      Claro que interessa saber que o pronome eu muda para mim depois das preposições a, de, em, para, por, contra, etc. Já tenho é dúvidas que interesse muito saber de cor — como homens da geração e formação do revisor antibrasileiro tanto valorizam — as formas pronominais -migo, nosco-, -tigo, -vosco, sigo-, pois usam-se sempre contraídas com a preposição com. Dantes, já aqui o escrevi, a preposição aparecia sempre assim: commigo, comtigo, comsigo, comnosco, comvosco. No português quinhentista, era assim, pois ainda estava viva a consciência da sua formação. Na língua arcaica, porém, dizia-se simplesmente migo ou mego, tigo ou tego, sigo, nosco e vosco, sem a preposição comitativa, e só depois se deu a reduplicação da preposição.
      Ouçam Francisco Louçã, ontem à noite no comício em Évora, a brincar com a língua: «Percorrem o País, estes homens que se apresentam: “Eu sou candidato a primeiro-ministro, eu vou governar talvez contigo, talvez sem tigo.”»
[Texto 57]

«Tentadero/tentadeiro»

Ao tentame

      «Em Santarém, terra de touros e toureiros, matou-se um porco e assou-se, havia vinho e cerveja para um fim de tarde taurino. No tentadero (arena), uma vaca foi toureada e pegada» (Público, 24.05.2011, p. 4).
      É um espanholismo do âmbito da tauromaquia muito usado entre nós. E tentadero é mesmo «arena», como o jornalista amavelmente quis explicar? Para a última edição do Dicionário Espanhol-Português da Porto Editora, coordenado por Álvaro Iriarte Sanróman, que veio fazer esquecer os muitos disparates e as incompreensíveis omissões da edição anterior, de Julio Martinez Almoyna, tentadero traduz-se por tenta: «curral fechado para experimentar a bravura dos bezerros». Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «tenta» é a «lide especial para observação da bravura de novilhos ou novilhas, pouco tempo depois da ferra». Nenhum dicionário confirma que «tenta» é também o local onde se realiza essa lide.
      Ora, não seria esperar demasiado que os dicionários registassem o espanholismo — ou seria? O Grande Dicionário da Língua Portuguesa coordenado por José Pedro Machado não o regista, mas acolhe o aportuguesamento tentadeiro: «Lugar cercado, geralmente em forma circular, onde se procede às tentas do gado e onde o mesmo se ferra.»
      «É tão importante isto que em dias de vento ruidoso ou mesmo quando a brisa traga ao tentadeiro o perfume característico da campina, se devem evitar as tentas» (O Fado e as Touradas em Portugal, A. Martins Rodrigues. Lisboa: Publitur, 1969, p. 103).
[Texto 56]

«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir «brandir» com «bramir» nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).
      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).
[Texto 55]

Aspas

Seu esquizóforo

      «Uma referência para identificar o presumível criminoso era uma “mosca” no queixo» («Duas pessoas mortas a tiro de caçadeira em casa de alterne de Vila Nova de Cacela», Idálio Revez, Público, 25.05.2011, p. 25).
      Somente as aspas e dizer que é no queixo é que põem o leitor — ignorante e desatento — na pista certa: olha, não é o insecto díptero esquizóforo da subordem dos ciclórrafos, com cerca de 80 mil spp. descritas, que se dividem em caliptrados e acaliptrados e numerosas famílias. Porra!

[Texto 54]

Linguagem

Comunicação e hematomas

      Ontem, o cirurgião José Fragata, autor do livro Erro em Medicina, afirmava que «“70 por cento dos erros de saúde são de comunicação”, onde se incluem a troca dos doentes ou as trocas de medicação» («Doentes admitidos nos hospitais públicos devem usar pulseira com identificação», Catarina Gomes, Público, 24.05.2011, p. 10). Hoje, o caso do dia, a adolescente agredida, também revela (só um psicólogo nos poderia abrir os olhos para isto) «uma incompetência das adolescentes na comunicação e na forma de regular emoções e lidar com conflitos», disse ao Público a psicóloga Margarida Gaspar de Matos («Metade dos jovens assiste a provocações e nada faz», Catarina Gouveia, p. 12). Num e noutro caso, os problemas de comunicação são deletérios ou, pelo menos, deixam nódoas negras.
[Texto 53]

Como se fala na rádio

Aljubarrota rima com bancarrota

      «À semelhança da padeira de Aljubarrota ou da heroína da Sertã, esta é uma figura em torno da qual a História e a lenda também se confundem. Segundo a tradição popular, no local onde se encontra Ferreira do Alentejo existia no século IV uma próspera e pacata povoação chamada Siga. Devido à sua posição estratégica no Baixo Alentejo, a Siga romana era muito cobiçada por hordes de bárbaros que se aventuravam nessa época por toda a Península Ibérica» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 11.05.2011).
      Singa, e não Siga, como se pode ler, por exemplo, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no dicionário de Bluteau. «Hordes» em francês, pois claro, que em português é hordas, que é o nome que se dá a tribos de tártaros ou de outros nómadas.
      E agora o que não se vê: o o do topónimo Aljubarrota é fechado, /Aljubarrôta/, e não aberto, como Mafalda Lopes da Costa pronunciou. Costa Lima, Vasco Botelho de Amaral, Rebelo Gonçalves, José Manuel de Castro Pinto, entre outros, é a pronúncia que registam ou recomendam.
[Texto 3]

Informação



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