«Bramir/brandir»

Ao vêr-te brandir o alphange

      A secção «O Público errou», nos actuais moldes, e com meia dúzia de linhas, é ridícula. Hoje ficámos a saber que, afinal Lobo Xavier não participou na arruada com Paulo Portas no Porto, como ontem o jornal divulgara. Disparates de alto coturno como confundir «brandir» com «bramir» nunca lá os veremos: «Agora já não é a modernidade das renováveis e do carro eléctrico, ou a plasticina da imagem e das estatísticas, agora Sócrates resolveu aparecer como um político socialista tradicional, defensor dos mais pobres e desvalidos, bramindo o estandarte da luta de classes» («Luta de classes», Pedro Lomba, Público, 26.05.2011, p. 40).
      «É o mesmo povo que durante séculos brandiu o estandarte da União Árabe» (Dois Caminhos da Revolução Africana, Moacir Werneck de Castro. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Estudos Afro-Asiáticos, 1962, p. 26).
[Texto 55]

Aspas

Seu esquizóforo

      «Uma referência para identificar o presumível criminoso era uma “mosca” no queixo» («Duas pessoas mortas a tiro de caçadeira em casa de alterne de Vila Nova de Cacela», Idálio Revez, Público, 25.05.2011, p. 25).
      Somente as aspas e dizer que é no queixo é que põem o leitor — ignorante e desatento — na pista certa: olha, não é o insecto díptero esquizóforo da subordem dos ciclórrafos, com cerca de 80 mil spp. descritas, que se dividem em caliptrados e acaliptrados e numerosas famílias. Porra!

[Texto 54]

Linguagem

Comunicação e hematomas

      Ontem, o cirurgião José Fragata, autor do livro Erro em Medicina, afirmava que «“70 por cento dos erros de saúde são de comunicação”, onde se incluem a troca dos doentes ou as trocas de medicação» («Doentes admitidos nos hospitais públicos devem usar pulseira com identificação», Catarina Gomes, Público, 24.05.2011, p. 10). Hoje, o caso do dia, a adolescente agredida, também revela (só um psicólogo nos poderia abrir os olhos para isto) «uma incompetência das adolescentes na comunicação e na forma de regular emoções e lidar com conflitos», disse ao Público a psicóloga Margarida Gaspar de Matos («Metade dos jovens assiste a provocações e nada faz», Catarina Gouveia, p. 12). Num e noutro caso, os problemas de comunicação são deletérios ou, pelo menos, deixam nódoas negras.
[Texto 53]

Como se fala na rádio

Aljubarrota rima com bancarrota

      «À semelhança da padeira de Aljubarrota ou da heroína da Sertã, esta é uma figura em torno da qual a História e a lenda também se confundem. Segundo a tradição popular, no local onde se encontra Ferreira do Alentejo existia no século IV uma próspera e pacata povoação chamada Siga. Devido à sua posição estratégica no Baixo Alentejo, a Siga romana era muito cobiçada por hordes de bárbaros que se aventuravam nessa época por toda a Península Ibérica» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 11.05.2011).
      Singa, e não Siga, como se pode ler, por exemplo, na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no dicionário de Bluteau. «Hordes» em francês, pois claro, que em português é hordas, que é o nome que se dá a tribos de tártaros ou de outros nómadas.
      E agora o que não se vê: o o do topónimo Aljubarrota é fechado, /Aljubarrôta/, e não aberto, como Mafalda Lopes da Costa pronunciou. Costa Lima, Vasco Botelho de Amaral, Rebelo Gonçalves, José Manuel de Castro Pinto, entre outros, é a pronúncia que registam ou recomendam.
[Texto 3]

Informação



Caros leitores, mudei-me para aqui.


      Depois da última paragem do Blogger e da perda de centenas de posts, não havia outra solução. Este blogue será mantido, continuarei a aceitar comentários, mas não será actualizado. Com sorte (e alguma cunha no SAPO), todos os posts e comentários serão transferidos para o Linguagista.




Léxico: «milagrar»

Da taumaturgia

      «Sylvie Testud interpreta uma rapariga tolhida pela esclerose múltipla que vai em excursão a Lourdes para fugir ao isolamento, mais do que por uma questão de fé ou esperando ser curada. Mas é ela que acaba por ser milagrada» («O curioso caso do milagre inesperado», Eurico de Barros, Diário de Notícias, 12.05.2011, p. 47).
      Milagrar é fazer, operar milagres, mas tenho dúvidas. «Milagrar, v. i. Pop. Fazer milagres: “Quanto pode Santo António se lhe dá p’ra milagrar!” Cf. Romanc. Ger. Port., II, 535. — “Que por todo o mundo andavas, noite e dia, a milagrar.” Ib. 532» (Brotéria, 12, 1931).
[Post 4775]

Linguagem

Menos descontracção

      «Portanto, sempre que temos um verbo no modo infinitivo, temos sempre de descontrair, ou não contrair, melhor dizendo, as preposições com artigo» (Jogo da Língua, Sandra Duarte Tavares, Antena 1, 3.05.2011). (É o que faço, mas Vasco Botelho de Amaral tinha, já aqui o escrevi, outra opinião.) Para descontrair, senhora linguagista, recomendo-lhe um miorrelaxante de acção central.
[Post 4774]

Verbo «comparar»

Um estranho caso

      Ora vejamos outra frase que sai facilmente, diariamente, da pena dos jornalistas económicos: «Este valor do HSBC compara com as despesas operacionais totais de 37,7 mil milhões de dólares (26,2 mil milhões de euros) no ano passado.» Não haverá confusão com outro verbo intransitivo, como, sei lá, «contrastar»? E não seria melhor escrever que «este valor do HSBC assemelha-se ao das despesas operacionais, etc.»? Ora andai; dizei de vossa justiça.
[Post 4773]

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