Léxico: «antibioterapia»

Ficamos a saber

      Que nome se dá ao uso de antibiótico(s) no tratamento de infecções causadas por bactérias? Antibioterapia ou antibioticoterapia. «O diploma define desde já, no entanto, que a dispensa “abrange os medicamentos prescritos no momento da alta” e “a quantidade deve ser suficiente para os primeiros três dias após a alta, incluindo o dia da alta, exceptuando os antibióticos, que devem ser dispensados em quantidade suficiente à duração da antibioterapia”» («Medicamentos gratuitos após internamento até Abril de 2012», João D’Espiney, Público, 22.04.2011, p. 10).

[Post 4722]

«Recorde» como adjectivo

Valha-vos Deus!

      O Público continua, absurdamente, a ligar com hífen o adjectivo «recorde» à palavra que qualifica: «No final de 2009, mais de 563 mil pessoas estavam sem trabalho. Mas este número-recorde, que elevou para 10,1 por cento a taxa de desemprego, depressa foi ultrapassado» («Taxas-recorde de desemprego marcaram esta legislatura do PS», Raquel Martins, Público, 22.04.2011, p. 12). Os copidesques, que por sua própria boca proclamam não estar lá para rever, não se enxergam. Ide em paz e continuai a viagem.

 [Post 4721]

Itálico

Mais, mas no sítio certo

      O Público anda a usar mais itálico — mas será no sítio certo? É o que vamos ver. O Banco de Portugal (agora referido pela absurda abreviatura BdP) publica todos os meses um boletim estatístico. Será então o Boletim Estatístico do Banco de Portugal. E como referimos o mês? Bem, parece-me simples: Boletim Estatístico do Banco de Portugal referente ao mês de Abril. Por exemplo. Ou edição de Abril do Boletim Estatístico do Banco de Portugal.
      «De acordo com o Boletim Estatístico de Abril, só nos últimos três meses, o total confiado aos bancos atingiu 875 milhões de euros, ou seja, mais do que o valor canalizado para os CT [certificados de aforro], apesar das elevadas taxas que este último produto, associado à evolução da dívida pública, está a oferecer» («Poupança dos portugueses está a fugir do Estado para os bancos», Rosa Soares, Público, 22.04.2011, p. 18).
[Post 4720]


Léxico

O tamanho conta?

      Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Saibam que designa aquele que padece de uma doença causada pela aspiração de cinzas vulcânicas. É a maior palavra portuguesa, com 46 letras. A pseudopalavra anticonstitucionalissimamente tem 29 letras. Está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa.
      Não venho, contudo, aqui por isso, mas por isto: «Mostra como se pode ser humilde e audaz ao mesmo tempo. Eleger ou quase-eleger um deputado do PAN bastará para ajudar um bocadinho os animais tão maltratados e tão cruelmente assassinados deste país» («O meu voto», Miguel Esteves Cardoso, Público, 22.04.2011, p. 37).
      Com verbo nunca tínhamos visto, apenas com adjectivos e substantivos.

[Post 4719]

«Sem-abrigo»: plural

Entre graça e desgraça

      «Um ou outro quadro foi um verdadeiro achado, como o da entrevista de Márcia Rodrigues (Rueff), de véu islâmico, a Khadafi (Monchique) e a Sopa dos Pobres, com sem-abrigos deliciados com pratos de comida molecular preparados por um chef que dá nomes imaginativos às suas performances gastronómicas» («Entre a graça e a desgraça», Eduardo Cintra Torres, «P2»/Público, 22.04.2011, p. 7).
      Já aqui nos ocupou mais de uma vez esta palavra. Não é raro ouvi-la pluralizada. Veremos como será daqui a cem anos.

[Post 4718]


Pronúncia

Ainda ganha um prémio

      É quase inacreditável, eu sei, mas basta ouvir: na emissão de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (Antena 1, 8.04.2011), dedicado à lenda das maias de Portalegre, Mafalda Lopes da Costa, das seis vezes que disse a palavra «Portalegre», quatro soaram «Porto Alegre». (Ainda se se tratasse de Estremoz...) A determinada altura, disse também que o rei Lísias foi ver da filha, Amaia, «e só encontrou o corpo».

[Post 4717]

«Houve»/«ouve»

O fim do mundo

      «O papagaio bate as asas e empertiga o seu peito, o Ruca ri quando o houve falar.» Confundir houve com ouve? Se tivermos 7 anos, não me parece grave. Já me parece é o cúmulo da desvergonha e da torpeza que uma empresa como os CTT continue a vender aos seus balcões uns livrinhos do Ruca com seis selos e erros deste jaez. É o contributo da empresa para a defesa da língua portuguesa. E os jornais, que anunciaram a colecção, calam-se.
[Post 4716]

Verbo «encher»

Seis cestos cheios de enchidos

      «No século XVII, em Inglaterra, os termómetros eram cheios com brandy em vez de mercúrio.» (Sabia, caro Fernando Ferreira?) Bem, a dúvida está em saber se é «cheios» ou «enchidos». O verbo encher, como muito bem lembrou F. V. Peixoto da Fonseca, só tem um particípio passado — «enchido». «Cheio» é adjectivo. Não sei se é fácil encontrar uma gramática actual que corrobore a afirmação.
      «— Há quem diga que ele não está na cova absolutamente. Que o caixão foi enchido de pedras. Que algum dia ele voltar [sic] de novo» (Ulisses, James Joyce. Tradução de António Houaiss. Lisboa: Difel — Difusão Editorial, 2.ª ed., 1983, p. 114).
[Post 4715]

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