«Sede de poder»

Corta!

      «Em geral», escreveu aqui uma vez Montexto, «na fala só a repetição torna a irregularidade ou o deslize realmente censurável.» Estamos de acordo. Nada disso, porém, se aplica ao programa Lugares Comuns (Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 18.04.2011), cujo guião é escrito antecipadamente e pode ser revisto e, ao que julgo, não sendo em directo, pode ser regravado. A emissão de hoje era sobre a expressão «jovem turco». Mafalda Lopes da Costa explicava então que é aquele que tem «sède de poder». Assim mesmo, /sède/local onde funciona um tribunal, uma administração ou um governo, local onde uma instituição tem a sua direcção ou administração... Não, não, não, cara Mafalda Lopes da Costa: /sêde/, desejo vivo, ardente, imoderado — de poder, de cultura, de vingança...

[Post 4700]

Como se escreve nos jornais

Estamos bem, estamos

      «“Há ali muitas mulheres solteiras e sozinhas, rodeadas de homens atraentes. Eles exercitam, são giros e criminais, o que é também apelativo”, disse Yolanda [Dickinson], que publicou agora um livro sobre estas histórias, intitulado Taboo» («Ex-guarda relata noites de sexo na prisão», Carla Bernardino, Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 58).
      E porque não completamente em inglês? «They’re working out. They’re attractive...They’re criminals, so they have a cunning way of approaching you.»

[Post 4699]

Linguagem

A proverbial insensatez

      Era de esperar: «A linguagem utilizada era, em alguns pontos, “demasiado complexa”: expressões como ‘propriedade resolúvel’ e ‘fluxómetro’ não são compreendidas pela maioria dos utilizadores, alertou [Filipe Plácido, responsável da Tangível — Usabilidade e Design de Interacção]» Linguagem prejudicou Censos na Internet», P. S. T., Diário de Notícias, 15.04.2011, p. 19). «Fluxómetro»! Nem tudo, porém, está perdido: «Ao DN, Paulo Feytor Pinto, ex-presidente da Associação de Professores de Português (APP), disse “não ter sentido dificuldades” a preencher o formulário, mas admitiu que muitos poderão não ter compreendido bem todas as questões» (idem, ibidem).

[Post 4698]

Léxico: «recência»

Coisa de académicos

      Só recentemente a Antena 1 passou a disponibilizar os ficheiros áudio do programa Jogo da Língua. Por sorte, corta a primeira e penosa parte do diálogo entre a locutora e o concorrente. Ou seja, a parte lúdica é aspada. De maneira geral, o concorrente é tão experimentado nestas questões da língua, que nem se atreve a repetir a hipótese que considera certa, optando por dizer que é a primeira ou a última — o que serviria para aprender o que são os efeitos de primazia (recordar-se melhor das primeiras palavras) ou de recência (recordar-se das últimas palavras), bem estudados no respeitante às sondagens (polls, em inglês) ou inquéritos amostrais (surveys, em inglês). Pois claro, os dicionários não registam o neologismo «recência». O mais próximo que registam é «decência». São decentes.
[Post 4697]


Tradução: «unbundling»

Desnecessário

      «A REN está interessada em ficar com o transporte e o armazenamento de combustíveis em Portugal, caso o Estado português decida fazer o unbundling e retirar essa parte ao controlo da Galp.» O anglicismo anda por aí em quase todos os jornais — e nem sempre explicado nem marcado como estrangeirismo, como agora é moda. Fazer o unbundling é fazer a separação, separar, neste caso as redes de transporte de energia e as empresas de energia (as «energéticas», como certos comentadores dizem e escrevem).


[Post 4696]



Sobre «lusofonia»

É connosco?


      «Queremos contar com o contributo de Portugal, de todas as ex-colónias africanas e do Brasil para podermos transformar este património de Cabo Verde, da lusofonia, em património da Humanidade. Nada melhor do que os próprios protagonistas do 25 de Abril poderem contribuir desta forma para a vivificação do espírito de Abril», afirmou o primeiro-ministro de Cabo Verde, José Maria Neves, depois de ter («à margem», escrevem os periodiqueiros) participado ontem numa palestra na Associação 25 de Abril. Faltará uma acepção ao termo «lusofonia» registado nos dicionários? É que, de conjunto político-cultural dos falantes de português (na definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa), passou a designar os países em que se fala a língua portuguesa. É mais uma invencionice ou faz falta?



[Post 4695]

Léxico: «eurovinheta»

Não é connosco

      Com a Directiva 2006/38/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 17 de Maio de 2006, relativa à aplicação de imposições aos veículos pesados de mercadorias pela utilização de certas infra-estruturas europeias, foi criada a chamada — em francês e em inglês — eurovignette. É ver aí pelos jornais a palavra adaptada: eurovinheta. Como era previsível, por vezes aparece com hífen, «euro-vinheta». Os espanhóis na Comissão Europeia afirmam que «euroviñeta», como se vai lendo na imprensa espanhola, é um decalque incorrecto, já que altera o significado habitual em espanhol (pequena gravura para ornato ou ilustração de um livro e cada um dos rectângulos em que se divide uma banda desenhada), e é desnecessário, pois que em espanhol há outras opções, como adhesivo ou pegatina. O caso análogo que encontram refere-se à inspecção periódica obrigatória (IPO), cujo comprovativo tem o nome de «distintivo». Propõem, por isso, eurodistintivo.
      Não temos o mesmo problema. Para já, e como já referi, na imprensa apenas se usa eurovinheta. Quanto a casos análogos, temos a vinheta dos passes sociais (acepção que o Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora esqueceu) e o selo inspecção periódica obrigatória (acepção esquecida de todos os dicionários).

[Post 4694]

Sobre «gongórico»

É vezo entre nós

      «Talvez por esses seguidores não terem as qualidades do poeta original, ou talvez porque a poesia de Luis de Góngora fosse de difícil acesso e decifração para o comum dos mortais, a verdade é que do nome do poeta viria a nascer a expressão pejorativa “ser gongórico” como sinónimo de alguém que usa uma linguagem demasiado rebuscada, ridícula porque excessiva nos floreados» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 14.04.2011).
      Primeiro e principal: desde quando é que existe a expressão «ser gongórico»? Valha-nos Deus. É quase cada sacholada, sua minhoca... Segundo: não é em todos os dicionários que o falante colhe que é vocábulo pejorativo. É ou pode ser. Do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa e do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não se retira esse sentido. Mas sabemos que sim, é verdade. Ou, repito, pode ser. No Dicionário Brasileiro de Insultos, de Altair J. Aranha (Rio de Janeiro: Ateliê Editorial, 2002, p. 170), lê-se isto: «Dizer que alguém é gongórico indica que ele fala muito e diz pouco, que tem mais enfeite do que conteúdo.» De determinada escrita, afirmou Afrânio Coutinho: «Ela não é má porque é gongórica, como é vezo entre nós julgá-la, mas porque é de mau gongorismo» (Do Barroco. Rio de Janeiro: UFRJ, 1994, p. 175).
      Não sei se se interessam por estas miuçalhas da língua, mas algo surpreendente é que logo em 1624 se tenha cunhado no castelhano o termo culterano (registada nos nossos dicionários mas não explicada) para classificar o estilo gongórico, que é um trocadilho com «luterano». Foi nesta altura que Quevedo e outros escreveram que a poesia de Góngora só era clara quando era queimada, em alusão à heresia poética deste e, possivelmente, e de forma ínvia, ao facto de Góngora ser judeu. Vejo que a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira acolhe o verbo agongorar: «Tornar semelhante ao estilo gongórico: para chamar a atenção do público, resolveu agongorar a prosa

[Post 4693]



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