Sobre «profiler», de novo

É triste

      «“O que queres ser?” É daquelas clássicas de conversa com miúdos. Perguntamos mal percebemos que são capazes de entender a pergunta. Sabemos que vai sair qualquer coisa como bombeiro, polícia, cowboy, astronauta, condutor de automóveis ou tratador de animais, cientista ou veterinário, conforme a brincadeira que estiver no auge ou a série na berra (OK: isto se calhar era dantes, agora é mais top model, cantor, estilista, actor de novelas ou profiler)» («Ser o quê», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.02.2011, p. 24).
      Deve ser triste ter uma profissão para a qual só há designação inglesa. Não me conformo com profiler, mas eis que estou agora precisamente com uma obra, e o vocábulo campeia por ali. Perfilista?, pergunto de novo.

[Post 4407]

Sobre «destabilizar»

Não faz falta


      «A frustração de estar rodeado de crianças que não tinham os mesmos interesses, a ouvir matérias que já conhecia, aborrecia-o e levava-o a destabilizar a aula, por estar aborrecido de ali estar» («Há mais de 60 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal», Raquel Tereso, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 18).
      Em rigor, não precisamos de destabilizar nem de desestabilizar, e quem use conscienciosamente a língua decerto que o sabe.

[Post 4406]

Como se escreve nos jornais

É chinês


      A Liga dos Chineses em Portugal (LCP) apoiou, lembram-se de o ter dito aqui?, Cavaco Silva. Pois agora, numa notícia sobre o agiota chinês que sequestrou uma mulher, lia-se isto na edição de ontem do Diário de Notícias: «Mas o presidente da Associação China Única, Y Pong Chow, desmentiu ao DN a existência de máfias chinesas a operar em Portugal» («Chinês já estava referenciado por agiotagem há 15 anos», Joaquim Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 23). Não apenas o nome da associação não está certo, mas, pior ainda, o nome do próprio presidente da associação, e aparece três vezes no artigo. E era facílimo comprovar estes dados. Se isto não é escrever com os pés, o que é?

[Post 4405]

Sobre «overdose»

Ainda não


      «Um grupo de 13 pessoas pertencentes ao grupo 10:23 Portugal juntou-se ontem nos jardins do Príncipe Real, em Lisboa, para tomarem em simultâneo uma overdose de medicamentos homeopáticos (produtos feitos à base de plantas)» («‘Overdose’ de medicamentos sem efeitos registados», Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 27).
      Eu até pensava que no Diário de Notícias não se usava o anglicismo «overdose». Quanto aos dicionários, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas «sobredosagem» e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa só regista «sobredose».

[Post 4404]

Como se escreve nos jornais

Parecido, sem dúvida


      «Mas nas lojas frequentadas por turistas, um frasco pode custar até três vezes mais do que isso, conta o jornalista Andrew Buncombe na recente reportagem que publicou no Independent. A juntar a isso, algumas organizações não governamentais e cooperações começaram também a ajudar a publicitar este mel recolhido em condições de tamanho risco» («O mel mais perigoso do mundo», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 30).
      Talvez seja melhor perguntarmos ao jornalista inglês o que são «cooperações». Andrew Buncombe responde: «One recent positive development has been the promotion of the region’s honey by NGOs and co-operatives that have woken up to the marketing potential of a natural product collected under such testing conditions. While the collectors get just 45 rupees (60p) for a kilo from the government, in the shops that sell to tourists, a large jar can sell for more than three times that sum.» Cooperativas. Obrigado.

[Post 4403]

Como se escreve nos jornais

Inacreditável... ou quase


      «No entanto, os seus hábitos [do arminho] esquivos e a falta de estudos aprofundados sobre este animal não permitem haver dados concretos sobre sua densidade populacional em solo nacional, mas estimando-se, apesar de tudo, que não exista um grande número de exemplares no estado selvagem» («O sobrevivente da cobiça real e exterminador natural», José Pedro Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 42).
      Há quem escreva quase tão mal — mas não é jornalista.

[Post 4402]

Veimar/Weimar

D. Raphael sabia


      Numa folha com anotações, um grande tradutor espanta-se (!) que outro tradutor tenha optado por escrever Veimar em vez de Weimar. E eu ia jurar que já uma vez aqui tinha falado de Veimar. Mas não: foi de Weimar. Numa edição de 1813 da Gazeta de Lisboa, é Veimar que se lê. No Vocabulario Portuguez & Latino, de Bluteau, é também esta forma que se lê. Neste ínterim de 200 anos, foi usada noutras obras, como, por exemplo, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

[Post 4401]

Ensino

Bom por tradição


      Professor universitário muito considerado, mas, pelo que se via, só queria chamar a atenção para pretensas singularidades da língua. A locução «pôr-do-sol» com hífen? «Mas, quando o pastor chegou à beira-mar, o pássaro voou por sobre a água, em direcção ao pôr-do-sol.» As formas monossilábicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hás de, hão de, etc. (antes da Base XVII, 2.º, do AO90, naturalmente) sem o hífen nas ligações da preposição «de»? «Onde as câmaras mais profundas são reservadas para o que há de mais trivial.» (Uma frase de Walter Benjamin, hem?) Genial...

[Post 4400]

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