«Estudante/aluno»

Agora sim


      Todos temos mais ou menos a noção de que os vocábulos «aluno» e «estudante» não são intermutáveis em todas as circunstâncias. No entanto, ultimamente tenho visto grandes confusões. Exemplifiquemos com uma frase. Digam-me qual dos vocábulos usariam na seguinte frase: «Segundo o seu único ___________ sobrevivente, Luís Seixas, o Professor Brotas era um leitor compulsivo de obras sobre música.»
      Um pouco a propósito: parece que no Brasil se ensina em algumas escolas que «aluno» provém do latim a + lun, este adulteração de lumen,inis, «luz». Ou seja, «sem luz». Que disparate vergonhoso! Alumnis, em latim, significa criança de peito, e ter-se-á formado a partir do verbo alere, «alimentar». Mais tarde, sem surpresa nenhuma, passou a significar, em sentido figurado, pupilo.

[Post 4296]

Léxico: «legiferante»

«Eles», os legíferos


      A propósito de «material circulante». Lia-se na edição de ontem do Jornal de Notícias: «Só há três maneiras de resolver o problema dos cortes salariais: ou na rua, com a revolução, ou nos tribunais, ou nos órgãos de soberania legiferantes» («Salários e juízes», Nuno Rogeiro, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 11).
      Não queria que os meus leitores perdessem esta oportunidade. Habitualmente, é a locução «órgãos legislativos» que se usa. Está, contudo, certíssimo (mas nem todos os dicionários o acolhem). Legiferante, legiferação, legiferar...

[Post 4295]

«Interruptor homem-morto»

Imagem tirada daqui

Ora aí está


      Caro M. R., o sistema a que se refere chama-se interruptor homem-morto (dead-man’s switch, em inglês). Não interessa se em documentos da REFER se lê «sistema “Homem — Morto”». Afinal, quando há alguma avaria na linha ou no «material circulante», não me chamam a mim. Porque teríamos de contar com aquela empresa para nos dizer como se escreve? Cada macaco no seu galho.

[Post 4294]

Edição

E mais


      «Há uns anos, em Nova Iorque, pedindo informações num departamento de História sobre os primeiros negros da cidade (foram onze e angolanos, em 1626), eu disse a palavra “slave” (escravo). Ralharam-me: que eu dissesse “enslaved people” (pessoas escravizadas) pois a outra palavra pressupunha que era uma condição aceite pelas vítimas... Não insisti sobre a falta de lógica da explicação, há muito que não invisto contra as pancadas dos politicamente correctos. Agora, leio que Mark Twain vai ser censurado: as 219 vezes que escreve a palavra “nigger” (preto) nas Aventuras de Huckleberry Finn (primeira edição, 1884) vão ser expurgadas» («Pedaços de asno voltam a atacar», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 64).
      Ferreira Fernandes não ia deixar passar a oportunidade de escrever sobre esta estupidez (mas anda a abusar do gerúndio).

[Post 4293]

Edição

São doidos


      «A reedição dos clássicos As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910), está a gerar polémica nos Estados Unidos. Isto porque a editora norte-americana NewSouth decidiu substituir a palavra “nigger” (preto) por “slave” (escravo) e ‘injun’ (forma coloquial utilizada no Missouri da primeira metade do século XIX para índio, altura em que se passam as duas histórias) por ‘indian’ nas edições que vai lançar no próximo mês» («‘As aventuras’ de Mark Twain reeditadas sem a palavra ‘preto’», Marina Marques, Diário de Notícias, 7.01.2011, p. 53).
      «Re-editadas», ler-se-á no Jornal de Letras... Ainda segundo o Diário de Notícias, «a forte carga negativa dos dois epítetos raciais é a justificação apresentada por Alan Gribben, especialista da obra de Mark Twain e editor destas novas versões, para a alteração apresentada». Isto é sequer admissível?

[Post 4292]

Léxico: «videógrafo»

Assim serve


      É o fenómeno do momento, Ted Williams, o sem-abrigo com um vídeo no Youtube. «Um videógrafo do Columbus Dispatch, um jornal local, decide passar por lá e comprovar com os seus próprios ouvidos» («‘Voz de ouro’ vale emprego», Daniela Espírito Santo, Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 64). A jornalista afirma que é um «sucesso viral».
      Mais um neologismo — mas será necessário? No Diário de Notícias («Sem-abrigo com voz de ouro ganha fama graças à Internet», Susana Salvador, p. 35), usou-se a locução «repórter fotográfico», o que o videógrafo não quererá ser.

[Post 4291]

Tradução

A trouxe-mouxe


      «Em virtude das celebrações da Epifania do Senhor, gregos ortodoxos competem a nado no Golden Horn, em Istambul, para segurar e beijar uma cruz em madeira, naquela que é uma tradição religiosa» («Celebrações da Igreja Ortodoxa», «Viva +/Jornal de Notícias, 7.01.2011, p. 29).
      Além de malissimamente escrito, o texto apresenta aquela mácula maior de não ter traduzido o que sempre teve nome em português: Corno Dourado, que é a designação que se dá à entrada do Bósforo. Mais avisados, no Diário de Notícias o artigo tinha o título «Epifania celebrada nas águas do Bósforo». A notícia no Jornal de Notícias era ilustrada com quatro imagens. Na da direita, lia-se naquele jornal, podia ver-se o «patriarca ecuménico ortodoxo grego Bartholomew I». Para o Diário de Notícias, era mais portuguesmente «Bartolomeu I».

[Post 4290]

Verbos

Agora são sapos


      Deixem-me cá ver algo que interesse a implumes e a passarões... Ah, sim. Ofereceram à minha filha um exemplar da obra Janela Mágica — Contos de Fadas, de Savior Pirotta (Porto: Civilização Editora, 2010, com tradução do Departamento Editorial da Civilização Editora). Esteticamente, para lá do que é esperável. Quanto ao resto... O melhor é darem uma olhadela: «— Estais aí, princesa? — chamava o sapo. — Lembrai-vos do que prometesteis!» Contrariada, a princesa queria pôr um prato no chão para o sapo. «— Ah, não, Alteza, prometesteis que eu me sentaria convosco à mesa, que comeria do vosso prato adornado e beberia do vosso copo de prata — declarou o sapo.» A princesa amuou — novo erro na forma verbal ofendeu-a, decerto, mas o sapo insiste: «— Alteza — disse ele à princesa —, dissesteis que eu poderia deitar-me na vossa almofada.»
      Acham que isto são maravalhas ou maravilhas? Como foi um presente, não posso devolver o livro.

[Post 4289]

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