Ortografia: «dervixe»

Imagem tirada daqui

Temos três


      «Na manhã a seguir, os derviches atiraram-se com fervor fanático contra as defesas britânicas» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 52).
      Muito bem — em francês e em espanhol! Temos três variantes: dervixe, dervis e daroês. Não precisamos, acho eu, de mais uma. Há mais ocorrências, pelo que parece ser convicção forte do tradutor e do revisor. Quem nunca antes ouviu falar dos dervixes rodopiantes? Bem, todos, mas alguns esquecem a grafia.

[Post 4088]

Galicismo: «etalonagem»

L’étalonnage à Tóbis


      «O “bichinho”, como lhe chama, determinou que perante o anúncio no jornal largasse o liceu Maria Amália, onde frequentava o quarto ano, e desse entrada, a 1 de Março de 1974, na empresa que havia de ser a da sua vida, e de mais de uma maneira. “Nem sabia o que queriam que a gente fizesse, o jornal não dizia. Vim com uma amiga e mais dois rapazes e fui parar à tiragem de cópias. Achei aquilo muito engraçado. Quem me ensinou foi um senhor que cá estava, o sr [sic] Augusto. Era ele que fazia a etalonagem, a divisão de cores nos filmes. Fazia-se com umas certas filtragens”» («As mãos do cinema», Fernanda Câncio, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 5).
      Cheira a galicismo — e é. Étalonnage. Em português diz-se aferição. A convicção de que em português não há termo correspondente é quase sempre fundada na falta de conhecimentos.

[Post 4087]

Brasileirismo: «enturmado»

Para um escol


      «Como a maioria dos que trabalhavam nessa secção eram miúdos, raro seria o dia, conta Jerónimo, que não saíam de lá encharcados, de tanto brincar. E ao sábado podiam dar um mergulho na piscina ou jogar nos campos de jogos. Um paraíso para um miúdo pobre, enturmado com Vascos Santanas, Antónios Silvas, Joões Villarets e Manoéis de Oliveira» («As mãos do cinema», Fernanda Câncio, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 4).
      Cheira a brasileirismo — e é. O brasileirismo que pegou de raiz, porém, foi virar, na acepção de assumir outra forma ou natureza; converter-se, transformar-se. Não há semana em que o não veja na imprensa. «Mourinho não repetiu filme de 1973 e virou protagonista» (Carlos Nogueira, Diário de Notícias, 11.11.2010, p. 37). Enturmado: que faz parte de uma turma, um grupo de amigos. Se o objectivo é escrever para um escol, está cumprido.

[Post 4086]

Ortografia: «microidioma»

Sem mistérios


      «Neste contexto de raridade, o mirandês, por exemplo, é um [sic] língua que é ainda relativamente conhecida, pois tem entre 10 mil a 15 mil conhecedores — assim como o angolar que, em S. Tomé e Príncipe, é conversado entre umas cinco mil pessoas —, pois os micro-idiomas podem ter um número de falantes bem inferior ao dos indivíduos das espécies animais ameaçadas» («Uma Babel linguística», Fernando Madaíl, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 6).
      Por muitas dificuldades que a aplicação da regra implique, e já vimos aqui algumas, a verdade é que com os antepositivos macro- e micro- nunca se utiliza hífen. Logo, microidiomas.

[Post 4085]

«Ir na peugada de»

Esforço vão


      «Além da Califórnia, onde no início do século XX chegaram a concentrar-se cerca de trinta mil portugueses, houve também quem se aventurasse pelo Nevada, Oregon, Idaho, Wyoming ou Novo México. “E a ética de trabalho, que não fez muito pelos que ficaram em Nova Inglaterra, na costa leste dos EUA, a trabalhar em fábricas de algodão, deu aos portugueses do Oeste uma vantagem sobre o americano típico”, explica Donald Warrin, o historiador que durante mais de uma década correu o “Ocidente longínquo” na pegada dos que lá se instalaram» («O velho Oeste com sotaque português», Bárbara Cruz, «DN Gente»/Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 2).
      Há, em todas as línguas, expressões fixas, e em relação a estas não vale a pena tentar ser original — e ir na peugada de, isto é, seguir os passos de, ir atrás de, é uma delas. Guardem a criatividade para outras empresas.

[Post 4084]

Como se escreve nos jornais

Sabe Deus


      «Homem solidário [Jerry Springer], o apresentador judeu é voluntário em campanhas sobre crianças deficientes, toxicodependentes ou pessoas com mobilização limitada» («Vinte anos a gerar polémica», Nuno Cardoso, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 65).
      «Pessoas com mobilização limitada», ou seja, em vez de serem enviadas para o Afeganistão, vão para o Havai, por exemplo. Lapsos todos temos, eu sei, mas o que me pergunto sempre é: será que está convencido de que é assim? Nunca saberemos, pois Nuno Cardoso, que de certeza vai ler este texto, não nos dirá. Mas isso não tem importância: o que interessa é que não volte a escrever tal disparate.

[Post 4083]

«Que/quem»

Está na hora


      «“É uma segunda família.” A afirmação é de Alexandra Lencastre referindo-se à Central Models, a agência com quem trabalha e que comemorou anteontem 20 anos com um jantar no restaurante BBC, em Lisboa» («Central Models assinala 20 anos com megafesta», Ana Lúcia Sousa, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 69).
      A Ana Lúcia Sousa alguma vez leu que o pronome relativo e interrogativo quem se usa sempre em relação a uma pessoa? Claro que não. E nota-se muito.

[Post 4082]

Tradução: «clutch»

Não há melhor


      «O interior da mala é decorado com a bandeira portuguesa e tem um número que corresponde a cada uma das oito presenteadas. Além desta mala, Hillary receberá também da parte do primeiro-ministro português uma clutch em cortiça com efeitos conseguidos através da queima do material» («Sócrates oferece a Obama coleira de cortiça para cão-d’água ‘Bo’», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 13.11.2010, p. 11).
      A jornalista não encontrou melhor termo: clutch! No Merriam-Webster vejo que é «a woman’s small usually strapless handbag». Não vou agora fugir de uma anglicismo para cair nos braços de um galicismo, «pochete», mas carteira não chega? De qualquer maneira, eu preferia que fosse de cortiça.

[Post 4081]

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