Léxico: «oxodegradável» e «oxobiodegradável»

Mete gregos


      «De um lado, estão os promotores dos sacos oxo-biodegradáveis, que se fragmentam sob a acção de um aditivo, e que já estão em força em Portugal — por exemplo, na cadeia Continente e Jumbo/Pão de Açúcar. […] Quanto aos oxo-degradáveis, “apenas devem ser utilizados em situações muito pontuais”, diz [Rita Meneses, administradora da Cabopol]» («Sacos de plástico em guerra pelo título de “mais amigo do ambiente”», Ricardo Garcia, Público, 3.4.2010, p. 6).
      O elemento de composição antepositivo é ox(i/o)-, pelo que também se poderia escrever oxidegradável e oxibiodegradável — sem hífenes. Quanto ao primeiro, é assim mesmo que se vê na imprensa: «Os sacos produzidos em plástico oxodegradável, distribuídos em vários hipermercados como sendo biodegradáveis, ao fim de 10 meses continuavam sem se degradar nos destinos mais prováveis, verificou a Quercus. Esta constatação foi agora confirmada por um estudo do Ministério do Ambiente inglês» («Quercus diz que sacos não se degradam», Destak, 19.3.2010, p. 8). «Os sacos “oxodegradáveis” podem ser mesmo uma maravilha, mas eu senti-me enganado. E não foi por causa dos dois cêntimos. Hoje em dia já nem os arrumadores se dão ao trabalho de apanhar do chão as moedas escuras e pequeninas» («O problema dos sacos de plástico», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 19.10.2008).
       Quanto à grafia usada no artigo do Público, há-de dever-se à influência — eufemismo para imitação acéfala e acrítica — do inglês oxo-degradable. Vade retro!

[Post 3313]

«Maca», uma acepção

Fala ainda o marinheiro


      Quando ouvimos a palavra «maca», quase sempre nos vem à memória a imagem de uma espécie de cama, assente numa armação móvel e articulada, com ou sem rodas, para transportar doentes, feridos ou mortos. No entanto, vejam: «Na manhã seguinte toca o clarim a alvorada às 7h00. Chegou a altura de forrar as macas... para leigos no assunto, como nós, era um trabalho impossível de fazer; pendurar a maca pelas aranhas, dobrar os cobertores[,] os quais[,] juntamente com o travesseiro[,] tem o seu lugar apropriado dentro da maca. Um cabo com cerca de 3 metros (o cabo de tomadouro) tinha que dar 5 voltas à maca, esta ficava com a configuração de um chouriço gigante e depois de ferrada era pendurada na tarimba[,] que[,] por sua vez[,] era alçada na vertical. Depois de várias tentativas éramos quase mestres na arte. A Maca de Marinheiro era usada em quase todas as Marinhas do Mundo e a sua origem remonta aos tempos dos navios de vela» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, pp. 49-50).
      No início, pensei — até porque a incompetente revisão (mais um curioso a fingir que é revisor) de António Costa autorizava-me tal pensamento — que o autor teria escrito ou queria escrever hamaca. A verdade, porém, é que uma das acepções, dicionarizada, de maca é cama de lona, suspensa, em que dormem os marinheiros a bordo, como se lê no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. E maca vem de... hamaca. E mais: nenhum dicionário, ao contrário do que eu supunha, regista hamaca.

[Post 3312]

Variante «alcaxe»

Fala o marinheiro


      Quando um dia aqui disse, a pedido de um leitor, como se chama a gola postiça, com listas em volta, que sai do decote da blusa dos marinheiros e abre sobre o peito, outro leitor, Alfredo Caiano Silvestre, escreveu num comentário que estava convencido de que era alcaxe. Eu tinha referido três variantes, as que encontrei dicionarizadas: alcaxa, alcaixa e alcachaz. Hoje encontrei um texto em que se usa a variante indicada pelo leitor: «Numa caserna, depois do banho de chuveiro foi a vez de envergarmos o uniforme, para isso tivemos que ser auxiliados com o “alcaxe” e a “manta de seda”. Pronto! Estávamos em uniforme. Não aquele uniforme azul ou branco, consoante a época do ano, mas sim o uniforme de cotim cinzento, nada elegante[,] conhecido pelo “Fato de Alumínio”» («A minha instrução de recruta», Ramiro Bandeira Martins, Combatente, Dezembro de 2009, p. 49).

[Post 3311]

Verbo «haver»

Sr. presidente


      A Associação de Pais do Agrupamento de Escolas de Sernancelhe (APAES) defende nota máxima para metade dos alunos de Ciências Naturais do 3.º Ciclo, que estiveram sem professora desde o início do ano. João Aguiar, presidente da associação, afirmou ao repórter Jorge Bastos, da Antena 1: «Não acha também que é muito injusto no século XXI haverem crianças que não tenham aulas durante o 1.º período e 2.º período de Ciências Naturais?» O repórter tinha perguntado: «Se dar 3 e 4 não se justifica porque não houve aulas, dar nota máxima justifica-se?» O entrevistado usou ainda seis vezes a palavra «crianças» para se referir aos alunos. Aposto que nenhum dos alunos, e não me refiro apenas aos que vão armados de pistolas, facas e soqueiras para a escola, gostaria de ser assim considerado. Com a definição de bebé também os falantes, mesmo os jornalistas, não se entendem.

[Post 3310]

Pronúncia: «penhora»

Penhoras e GNR

      Nas notícias das 8 da manhã na Antena 1, Fausto Coutinho, editor de economia, falou das penhoras feitas este fim-de-semana pela Segurança Social, e pronunciou a palavra com o fechado: /penhôra/. Ora, os dicionários são unânimes na indicação daquele o como aberto. Não estará o jornalista a confundir o vocábulo com outro semelhante, penhor, esse sim com o o fechado, /penhôr/?
      Quase a propósito: não é raro a palavra composta comando-geral, quase sempre referida à GNR, ser incorrectamente grafada na imprensa. Mas nem sempre: «E tudo porque o comando-geral, para uniformizar critérios no regime de remunerações, atrasou o pagamento a estes militares para dois meses — como já acontece com os restantes 20 mil elementos da GNR» («Cinco mil GNR sem subsídio», Miguel Curado, Correio da Manhã, 5.3.2010, p. 13). Se o cargo máximo nesta força militarizada é um comandante-geral, comando-geral se há-de escrever.
[Texto 3309]

AEP e não PSA


Falemos da próstata

          Se nos preocupamos, quem se preocupa, com siglas — já ninguém diz ou escreve AIDS —, porque continuamos a escrever PSA? Não deveríamos optar por escrever AEP? PSA é a sigla de prostata specific antigen, que se traduz por antigénio específico da próstata. A nossa sigla só pode ser AEP.

[Post 3308]

A martelo/mardeliano

Origens


      Há alguma semelhança entre o vinho a martelo e os telhados mardelianos? Há: na origem, está, em ambos os casos, um antropónimo. Quanto aos telhados mardelianos, de clara inspiração centro-europeia, devem-se ao arquitecto e engenheiro militar húngaro Martell Károly (1695–1763), que aportuguesou o nome para Carlos Mardel. Foi um dos principais arquitectos, sob a alçada de Eugénio dos Santos, da reconstrução capital depois do terramoto de 1755.
      Quanto ao vinho a martelo, foi Vasco d’Avillez que lembrou a origem da expressão na Notícias Magazine: «Ora quando a filoxera atacou as vinhas deixou de haver vinho, e o pouco que havia não era destilado. Mais tarde veio para a região um senhor francês, de nome Martell, para ajudar localmente ao recobro das vinhas. Tão bem se houve que por volta de 1910 já havia novamente vinho para beber e para destilar. Passou a haver vinho em abundância ou, como se dizia localmente, à la Martell. Daqui terá vindo uma expressão que felizmente hoje não precisa de ser usada, que é a do “vinho a martelo”» («Onde entra Martell...», Vasco d’Avillez, Notícias Magazine, 31.1.2010, p. 62). De uma maneira geral, os dicionários ignoram estas questões.

[Post 3307]

«Genital» substantivo?

Transexualidade e erro


      «A [revista] ‘Domingo’ entrou nas casas destas “transexuais não operadas” e ouviu as histórias que têm para contar sobre o negócio lucrativo da prostituição, as suas vidas antes e depois do início da alteração de sexo e sobre o que as fez manter o genital biológico quando tudo o resto é feminino» («Novo fenómeno da prostituição», Marta Martins Silva, Correio da Manhã, 27.3.2010, p. 23).
      Genital, como substantivo, só no plural (pluralia tantum), genitais: órgãos sexuais externos. Tanto femininos como masculinos.

[Post 3306]

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