Infinitivo impessoal

Gramática em pedaços


      «O piloto inclinaria o aparelho, faria pontaria com todo o cuidado e largaria uma bomba sobre a Casa Popov, fazendo todos voarem em pedaços» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 157).
      Mas as orações subordinadas gerundivas não são orações não finitas, ou seja, orações com formas não flexionadas de verbos? Então será «fazendo todos voar em pedaços».

[Post 3218]

«Estratego» e não «estratega»

Pierogi e estrategistas


      Estratego, a partir do grego, e não estratega, dizem alguns estudiosos. Mas há forma de contornar, se não queremos arrostar, a questão: «O cozinheiro Haritonov revelou-se um mestre a fazer uma refeição de praticamente nada — cogumelos selvagens em blini, arroz de sobras com couve no meio de pierogi —, mas não era de maneira nenhuma um estrategista da dissimulação» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 156). Claro que a maior parte dos dicionários são descritivistas (dá menos trabalho...), e registam, sem qualquer nota ou observação, estratega e estratego. O Dicionário Houaiss, porém, nem sequer regista a primeira.

[Post 3217]

Léxico: «guarda-vermelho»

A culpa é de Rasputine


      Já tínhamos visto guardas-civis, guardas-florestais, guardas-marinhas, guardas-mores, guardas-municipais, guardas-nocturnos, guardas-prisionais e guardas-republicanos, faltavam os guardas-vermelhos: «É verdade, os guardas-vermelhos tinham representado o homem que eles imaginavam que maculara a dinastia e feito desmoronar o império, Grigori Rasputine, a copular com a traidora à pátria, a cabra alemã, a imperatriz Alexandra Fiodorovna» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 132).
      Guarda tanto pode ser uma forma do verbo guardar, 3.ª pessoa do presente, guarda-lama, como um substantivo, guarda-fiscal. No primeiro caso, só o último elemento vai para o plural. Mas o plural de guarda-freio é guarda-freios... Pois é, mas Leite de Vasconcelos cita um anúncio de um jornal de 1907: «Associação de classe dos condutores e guardas-freios da viação lisbonense». Escreveu este filólogo: «É preciso fazer a distinção, se se puder. Em guarda-marinha há referência a pessoa, e guarda é nome; em porta-bandeira também se refere a pessoa, e contudo porta é verbo (imperativo)» («Ementas gramaticais para a história da língua portuguesa», in Revista Lusitana, vol. XXXVII, p. 7). E acrescenta: «Quanto a guarda-marinha segue-se a analogia, e poderá dizer-se guarda-marinhas, pois é como se se tivesse perdido a consciência da composição.» E pergunta: «Em guarda-freio é guarda nome ou verbo? Em guarda-portão é guarda nome ou verbo?» E responde: «Era preciso, para se mostrar que era nome, que se tivesse dito outrora guarda-do-portão. Decerto não se disse.» E mais: «Ora guarda-freio é do nosso tempo, nunca houve guarda-do-freio; foi palavra formada por analogia com outra composta de guarda. Entendo que o plural é respectivamente: guarda-freios e guarda-portões.» E no nosso caso? Guarda é nome ou verbo?

[Post 3216]

Sinal da cruz

Persigno-me


      Podemos fazer o sinal-da-cruz como fazemos pão-de-ló? Isto é, usar hífenes? Há quem diga que sim: «Percebendo que chegara o momento que tanto temera, mas pelo qual tanto rezara, a velha russa fez nervosamente o sinal-da-cruz sobre o peito» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 11). E o Dicionário Houaiss concorda. Por sinal, a versão electrónica deste dicionário não regista com hífenes. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a cruz é mais pesada: sinal da Cruz. É uma excepção.

[Post 3215]

«Tomara que...»

Com ênfase

      Um leitor avisou-me e fui ver. No Telejornal de ontem, a propósito da «contaminação política», o presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), João Palma, disse enfaticamente: «Tomara nós, tomara nós, magistrados do Ministério Público, que tivéssemos as condições todas que são necessárias e que não temos, muitas vezes faltam, para podermos exercer a nossa função, sobretudo ao nível da investigação criminal, com meios suficientes, sem constrangimentos de qualquer ordem.»
      A tendência é para tomar o vocábulo tomara como interjeição, mas, no caso, a construção teria de ser outra, com a interjeição a ser seguida de uma completiva de infinitivo flexionado. Assim, na frase é errado não flexionar: tomáramos nós... Tratando-se de um magistrado, ainda é mais grave, disso não há dúvidas.

[Post 3214]

Vocábulos literários

Posta-te aí e não te mexas


      Há uma parte da língua que só sobrevive — é natural — nos livros. Substantivos, adjectivos, verbos... Verbos: postar, por exemplo, nunca o ouvi sair dos lábios de nenhuma criatura. E não em todos os livros: nas traduções. «Enquanto eu me postava de pé em frente dela, a czarina humedeceu o grande rosto vermelho do médico, estimulando-o delicadamente, mesmo de forma profissional, podia dizer-se» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 93).

[Post 3213]

Montes Urales

Sancionado


      Apraz-me registar que foi esta a variante usada pela tradutora (e sancionada pelo revisor): «Nessa altura, nos tempos horríveis da revolução, Ekaterimburgo e os montes Urales eram um formigueiro de actividade dos vermelhos. Os Urales vermelhos, como então eram conhecidos, eram o pior sítio em que se poderia pensar para evitar Nicolau Alexandrovitch e a sua família» (The Kitchen Boy: Os Últimos Dias dos Romanov, Robert Alexander. Tradução de Helena Ramos e revisão de Ayala Monteiro. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 4.ª ed., 2006, p. 49).

[Post 3212]

O plural de Romanov

Ora vejam


      Leio no Manual de Redação e Estilo do Estado de S. Paulo: «Na grafia dos nomes russos, o Estado segue a notação inglesa, com algumas adaptações para o português: 1 — Use i e não y no final dos nomes russos: Trotski, Tchaikovski, Dostoievski, Stravinski, Tolstoi, Maiakovski, Malinovski, Nevski, Kerenski, etc. 2 — Mantenha o h depois do k em nomes como Chekhov, Sakharov, Zukhov, etc. 3 — O grupo zh da transcrição inglesa deve ser substituído por j em português: Soljenitsyn, Brejnev, Jivago (e não Solzhenitsyn, Brezhnev, Zhivago), etc. 4 — O Estado adota o grupo ch e não tch. Assim: Gorbachev (e não Gorbatchev), Kruchev, Chekhov, Chernenko, etc. Exceção: Tchaikovski. 5 — Os nomes russos devem terminar em v e não f: Romanov e não Romanoff; Prokofiev e não Prokofieff; Azov (mar) e não Azof, etc. Exceção, já consagrada: Rachmaninoff. 6 — Use ev e não ov, no final de nomes como Kruchev, Gorbachev, etc. 7 — Não acentue os nomes. Assim: Stalin (e não Stálin); Lenin (e não Lênin); Boris Yeltsin (e não Bóris); Tolstoi e não Tolstói.» Também o Livro de Estilo do Times recomenda: «Romanov prefer to Romanoff for the surname of the Russian Imperial Family.»
      Interessa-me o nome Romanov. No sítio da Universidade de Columbia, leio que a terminação -ov ou -off (sabia, caro Miguel B.?) é o genitivo plural, muito comum em nomes russos, como em Romanov (que significa de Roma). Mas isso é a etimologia. Em obras publicadas em língua inglesa vê-se com frequência Romanovs. Numa gramática de língua francesa (Nouvelle Grammaire Française, Maurice Grevisse e André Goosse. Bruxelas: De Boeck, 1996, 4.ª ed.), leio que os nomes próprios não pluralizam, mas concede: «Quelques noms ont gardé d’anciens pluriels graphiques : Les trois Horaces. Les trois Curiaces. Les deux Gracques. Les sept frères Maccabées ; — notamment des noms de familles, surtout régnantes, dont la glorie est ancienne : Les Ptolémées, les Tarquins, les Césars, les Flaviens, les Antonins, les Sévères, les Plantagenets, les Bourbons, les Stuarts, les Tudors.» Mas também vi noutra gramática francesa que há duas excepções: «les Romanov» e «les Habsbourg».
      Esta é uma mera digressão, pois o que nos interessa é a regra na língua portuguesa, e esta manda pluralizar os apelidos. Se a língua de origem, como acontece no caso dos apelidos anglo-saxónicos, também pluraliza, tanto melhor.

[Post 3211]

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