Tradução: «imbeccati»

Mal ensinados


      «Para o primeiro-ministro italiano, as revelações que nos últimos meses têm vindo a público sobre as suas festas privadas não passam de “calúnias”, contra as quais — garante — tem o direito de se defender com todos os meios ao seu alcance. “Um chefe de governo que vê como se difama o seu próprio país por parte de uns diários ensinados e que está calado sem reagir não tem o direito de recorrer aos meios legais para defender que isso não é liberdade de Imprensa, mas que se chama na realidade difamação?”, questionou o primeiro-ministro» («“Há canalhas na Imprensa”», Ricardo Ramos, Correio da Manhã, 17.09.2009, p. 31). «Diários ensinados»? No sítio da TVI, a tradução, porque é disso que se trata, ainda era pior: «“Um chefe do Governo que vê como se difama a seu próprio país por parte de uns diários leccionados e que esteve calado sem reagir, não tem o direito de recorrer a meios legais para defender que isso não é liberdade de imprensa mas se chama difamação?», assinalou o primeiro-ministro.» O diário La Stampa reproduziu as declarações do primeiro-ministro italiano: «Un capo del governo che vede diffamare il proprio Paese da giornali chiaramente imbeccati, che è stato zitto per tutto il tempo senza reagire, non ha nemmeno il diritto di adire alle vie legali per sostenere che questa non è libertà di stampa ma si chiama diffamazione?» A palavra é então imbeccati, particípio do verbo imbeccare, usado aqui em sentido figurado: «Istruire qlcu., suggerendogli cosa dire o cosa fare.» Industriados, instruídos, doutrinados seriam boas traduções.

Léxico: «reconfortável»

Desde 1899

      «O mítico ‘Camarada João’, como era venerado pelos militantes, passa despercebido na imagem — mas é ele mesmo, em carne e osso, e o seu inconfundível bigode. É reconfortável saber que Arnaldo Matos ainda é do MRPP. Já lhe passou a mania de querer ser o grande educador da classe operária» («Arnaldo Matos ainda é do MRPP», Manuel Catarino, Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 29). O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, sim, mas os corpora da língua não o conhecem de lado nenhum, registando antes reconfortante.



Ortografia: «gás pimenta»

Mostarda, pimenta...

      «Dois agentes ficaram feridos e um civil teve de ser manietado com recurso a gás pimenta» («Carro-patrulha apedrejado», M. C., Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 13). Pois é, mas no dia 11 escreveram assim: «Durante a operação policial, a 13 de Maio deste ano, as equipas da 5.ª Esquadra de Investigação Criminal da PSP apreenderam a um dos suspeitos uma pistola da marca Taurus, calibre 6,35 mm, uma lata de gás-pimenta e um par de matracas em madeira com corrente de metal» («Seguranças do K batem e roubam», Henrique Machado, Correio da Manhã, 11.09.2009, p. 8). O Dicionário Houaiss regista gás de mostarda. Habitualmente, porém, lê-se gás mostarda. Por analogia, escrever-se-á então gás (de) pimenta.

Léxico: «gravata»

Tira de tecido que…

      «“O que ia atrás de mim fez-me uma gravata. O outro roubou-me logo a carteira e as chaves do carro”, recordou o taxista. Os dois ladrões saíram do carro e desapareceram num canavial. A GNR de Vialonga tomou conta da ocorrência, tendo José Marques necessitado de receber tratamento hospitalar» («“Um susto enorme”, Miguel Curado, Correio da Manhã, 16.09.2009, p. 13). Não são muitos os dicionários que registam esta acepção de «gravata». O sublime Dicionário Houaiss fá-lo: «golpe em que o atacante, posicionando-se atrás do adversário ou da vítima, lhe cinge o pescoço com o braço, sufocando-o».

Pontuação

Inimputáveis gramaticais

      «Fernando Pessoa é a partir de hoje tesouro nacional por determinação do Ministério da Cultura que publicou ontem em Diário da República o decreto-lei que assim designa o espólio do poeta de ‘Mensagem’» («Fernando Pessoa é tesouro nacional», Dina Gusmão, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 40). Para o Correio da Manhã, há vários Ministérios da Cultura. Uns declaram o espólio de Fernando Pessoa tesouro nacional, os outros sabe Deus o que fazem. Sim, tem razão, caro leitor, o fecho deste texto tem de ser este: será que os revisores entendem? Os jornalistas bem sabemos que não.

Concordância

Esmiuçar as faltas

      «Nos estúdios da SIC, Ricardo Araújo Pereira, em tom jocoso, foi avisando. Estava ali para entrevistar o primeiro-ministro José Sócrates, “não para o hostilizar”. Guardava o confronto para “os professores e os enfermeiros”. Mas na primeira entrevista de 11 minutos do ‘Esmiúça os Sufrágios’, ontem à noite na SIC, não faltou perguntas “marotas”» (“Gosto do humor ‘non sense’ deles”», Eugénia Ribeiro, Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 43). Na notícia, faltaram os conhecimentos gramaticais. Falta sempre qualquer coisa.

Pontuação


Só um mas alegre

      Para o Correio da Manhã, a Juventude Social-Democrata (e o hífen, rapazes?) só tem um membro — e nem sequer é o presidente: «A versão original é de António Variações, mas a adaptação já vem das Europeias e é da autoria do militante da ‘Jota’, António Padez» («Variações na campanha», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 28). Será que os revisores entendem? Os jornalistas bem sabemos que não.

Léxico: «muar»

Ornejam mas não mordem


      Paulo Portas andou pelo Minho em campanha eleitoral. «Em Ponte de Lima, acompanhado de Daniel Campelo, Portas afirmou: “Só no CDS é que é possível o som de uma campanha ser tão natural e tão perto do trabalho, o muar das vacas”» («Cativar os agricultores», Correio da Manhã, 15.09.2009, p. 26). Até acredito que o líder do CDS tenha dito isso para se mostrar próximo e entendido. A estrita obrigação do repórter, ao transcrever as declarações de Paulo Portas, era corrigir o erro. Sim, o vocábulo existe — mas designa a voz dos equídeos, especialmente do burro. Muar é soltar zurros, azurrar, ornear, ornejar…

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