Livro de Estilo

Era bom

Sem terem um Livro de Estilo, que eu acho essencial em qualquer publicação, e mais ainda naquelas em que há mais do que um revisor, «costumam» grafar alguns vocábulos de uma maneira peculiar. «Aqui escrevemos “alvi-negro” e “auri-negro”.» Ontem, contudo, estavam a discutir a correcção daquelas grafias. «Não tinhas já mandado um e-mail ao José Mário Costa sobre isto?» Um ainda fez menção de consultar o Dicionário da Língua Portuguesa (edição de 2003) da Porto Editora. «Não está aí nada.» Adiaram a solução — a solução do erro. É claro que é aurinegro, como é auriazul, auriverde, etc., como também é claro que é alvinegro, como é alvirrubro, alviverde, etc. Sem Livro de Estilo, de que tanto precisam um jornal recente como um com mais de sessenta anos, bem concebido e pensado, hoje escreve-se assim e amanhã escrever-se-á assado. Há quem revele o que faria se chegasse a presidente do governo mundial. Eu, mais modestamente, digo que, se fosse chefe da secção de revisão de uma qualquer publicação (ou director desta), a primeira tarefa dos revisores era lerem em conjunto e discutirem as opções da véspera. A primeira medida, porém, seria transferir para tarefas mais consentâneas com as suas competências quem é revisor sem ter qualificações mínimas para tal.

Tradução: «publication bias»

De esguelha

      Como tem sido traduzida a expressão inglesa publication bias? E, primeiro, o que é? Embora esteja mais desenvolvida aqui a definição, mais resumidamente é «a tendency on average to produce results that appear significant, because negative or near neutral results are almost never published», conforme se pode ler aqui. É o problema que resulta do facto de se publicarem estudos científicos que não apresentam resultados negativos, o que faz que o efeito das intervenções possa ser sobrestimado. A tradução já consagrada entre nós é viés de publicação, e não deve haver estudante de Medicina que a não conheça. Se uma das traduções de bias é «viés, esguelha, direcção oblíqua», também é, e adequa-se melhor ao conceito, «parcialidade». Estas traduções enviesadas abundam no mundo da ciência, e não podemos fazer muito para as contrariar.

Léxico: «comentariado»

Essa classe


      «Having created this parody, the commentariat then attack it, as if they were genuinely critiquing what science is all about.» «Tendo criado esta paródia, o comentariado passará depois a atacá-la, como se estivesse a criticar genuinamente o que é, de facto, a ciência.» Termo colectivo usado para designar professores, peritos, analistas e outros comentadores. Michael Quinion, contudo, afirma que «this is a jokey journalists’ term for that group of people whose job is to comment on the news». Cunhado à semelhança de precariado, aqui analisado.

«Medicina baseada na evidência»

Será evidente?


      Se o confundimento confunde, as evidências anglo-saxónicas deixam-nos sempre de pé atrás. Na tal obra, usa-se vinte vezes a expressão medicina baseada na evidência e 158 (!) o vocábulo evidência. Encontrei aqui um texto, «Acerca da “medicina baseada na evidência», datado de 2005, da autoria do médico A. J. Barros Veloso, que esclarece quando começou a ser usada em Portugal a expressão: «Foi há mais ou menos dez anos que a expressão “medicina baseada na evidência” surgiu no vocabulário médico português pela mão de um pequeno grupo de médicos com fortes ligações à cultura anglo-saxónica. Pretendia-se com isso valorizar um tipo de prática clínica caracterizada pela “utilização conscienciosa, explícita e criteriosa da evidência clínica actualizada” [Carneiro, A. V. A medicina baseada na evidência. Medicina Interna, 1998; 5: 133] e anunciava-se sem qualquer hesitação o nascimento de “um novo paradigma”. […] Evidence-based medicine foi a expressão anglo-saxónica que se travestiu para português em “medicina baseada na evidência”. Os mentores deste “novo paradigma” (que para facilitar chamarei “evidencistas”) consideram que “evidência” é sinónimo de “prova científica” obtida através de ensaios clínicos controlados aleatórios ou das chamadas meta-análises. Com isto pretendem dizer-nos duas coisas: que a “medicina baseada na evidência” estabelece uma clara fronteira entre o que é e não é “medicina científica” e que a ciência possui um método próprio que permite obter “evidências”. Contudo, a palavra “evidência” tem, neste contexto, um significado ambíguo que se presta às maiores confusões. Por outro lado[,] não é líquido que a “medicina baseada na evidência” seja o único fundamento científico da medicina clínica.» Os dicionários da língua portuguesa, entretanto, continuam a registar que a evidência é a «qualidade de evidente; noção clara; certeza manifesta», e não «something that furnishes proof». Mesmo evidência como sinónimo de indício e este a significar prova só em determinadas áreas.

Sobre «propaganda»

Imagem: http://quackcartoon.com/


Sapos falantes


      A propósito da tradução de drug reps, maneira mais informal de referir os pharmaceutical sales representatives (delegados de informação médica), lembrei-me de como, a determinada altura (já na década de 1990?), ainda eram designados delegados de propaganda médica. Embora «propaganda» não tenha deixado de significar, neste contexto, «vulgarização de um produto industrial ou artigo de comércio», o termo acabou por adquirir uma carga fortemente negativa, mais sugestiva de mera manipulação do que de informação. Contudo, é isso mesmo que os delegados de informação médica quase sempre fazem: tentam persuadir os médicos (perante a proibição de o fazerem, porta a porta, directamente a nós) da eficácia de drogas que nunca se provou cientificamente serem eficazes. Claro que, nas últimas décadas, os laboratórios farmacêuticos, muito inventivos (pudera), vendem a doença e a cura ao mesmo tempo, o que facilita a propaganda.

Topónimos no novo acordo


Mais uma

— «Tróia» não tem acento?
— Hã?
— «Tróia»…
— Agora não deve ter?..
— Ah, pois, ah, pois, ah, pois…
Confesso que não me tinha lembrado disso, mas o caso não era comigo nem ninguém me perguntou nada. É verdade, segundo o texto do Acordo Ortográfico de 1990, é eliminado o acento nos ditongos abertos oi, mas apenas quando constituem sílaba tónica de palavras paroxítonas: alcaloide, heroico, joia, etc. Os topónimos, pois claro, não ficarão a salvo: Azoia, Troia, etc. A pouco e pouco, as regras do novo acordo vão sendo ali observadas.

Tradução: «unreliable»

Discutível

«It is an object lesson in what an unreliable source of research information these characters can be.» «É um exemplo prático sobre quão infiável uma informação destes sujeitos sobre uma fonte de investigação pode ser.» Sim, unreliable é «inseguro, que não inspira confiança; inexacto; duvidoso; falível; discutível». A questão, todavia, não é essa, mas se posso simplesmente juntar um prefixo de negação a qualquer palavra para obter o contrário do que esta significa. Teoricamente, sim. Só teoricamente, contudo.

Tradução: «shame»

É vergonhoso, é

É como nas normas jurídicas que são julgadas inconstitucionais ou ilegais em três casos concretos: passa-se da fiscalização concreta para o controlo abstracto. É a quarta vez este ano que vejo o vocábulo inglês shame mal traduzido. «That is, in some respects, a shame, as nice quick fixes are always useful, but there you go.» Tradução: «De certa forma, esta situação é vergonhosa, uma vez que as soluções rápidas mas inadequadas são sempre úteis, mas lá voltamos ao mesmo.» Os tradutores não podem pegar na primeira acepção do verbete nos dicionários bilingues: têm de analisar todo o verbete e ponderar qual a acepção que se adequa ao contexto. Claro que, no caso, eu não posso dar um contexto maior, mas é óbvio que a acepção que de adapta é «pena, lástima».

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