Topónimo: Curia


Cúria Romana?

O partido do nome errado organizou a 2.ª Universidade da Europa no lugar da Curia, freguesia de Tamengos, concelho da Anadia. O Meia Hora, porém, achou que seria na Cúria. O computador altera, e deixa-se estar. Se tivesse sido necessário escrever Cúria, talvez tivesse saído Curia. Atenção, Sílvia Lobo. Recomendo uma ida a banhos, agora na época baixa, lá mesmo, na Curia. Onde o tempo é bem-estar.

Locução «dar direito»

Assim fala o ti’ Zé das Couves

      Joana de Sousa Dias, no noticiário das 6 da manhã na TSF, informou que o Ministério da Educação enviou para as escolas um despacho com uma clarificação sobre o regime de faltas. Acrescentou ainda, repetindo de forma desastrosa o que o entrevistado dissera: «O secretário de Estado da Educação garante que as faltas não dão direito a sanções nem implicam chumbos.» Tolerável num caloiro de Direito, imperdoável numa jornalista. Terminologia jurídica à parte, a locução dar direito é sempre sentida pelos falantes como algo positivo, uma retribuição, um prémio. Uma sanção é precisamente o oposto.

Sílabas átonas

Pronúncia é poesia

Júlio Machado Vaz e Inês Meneses, em mais uma emissão de O Amor É…, falaram de poliginia e poliandria. Mas não é disto que eu quero falar, mas sim sobre como algumas palavrinhas são maltratadas. Por exemplo, «aliás». Pequenina, mas trissílabo. Logo no início, Júlio Machado Vaz usou-a, mas abriu bem, mas mesmo bem o primeiro a, /àliás/. Como sempre faz. Como muita gente faz.
Escreveu, e com razão, João de Araújo Correia na obra que tenho citado: «Pronunciar bem uma sílaba átona é apenas animá-la para que se entenda. Não é preciso excitá-la, dando-lhe café ou óleo canforado» (p. 29). E na página a seguir: «Em caso de dúvida, emudece a vogal. Ainda que peques, sorrir-te-á comovido o anjo da tua língua.» «Pronúncia é poesia», escreveu este autor.

Democrata e democrático

Bem pensado

Realmente, mesmo sem hífen, isto não soa a português de lei. «Se houvesse língua portuguesa, não haveria Partido Social-Democrata. Poderia haver Partido Social Democrático» (João de Araújo Correia. A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 117). Razão tinham Francisco Sá Carneiro, Francisco Pinto Balsemão e Joaquim Magalhães Mota, que em 6 de Maio de 1974 o fundaram com o nome de Partido Popular Democrático (PPD). Nem sempre as alterações vão no bom sentido.

Traduzir nomes próprios

Sim, não, talvez

Quem é que, actualmente, não escreve Júlio Verne? Ninguém, tanto quanto vejo. O meu autor desta semana, João de Araújo Correia, escreveu: «Nossos avós traduziam os nomes próprios. Diziam Emílio Zola e Júlio Verne em vez de Émile Zola e Jules Verne. Os próprios estrangeiros, residentes em Portugal, concordavam com a tradução. Houve, no Porto, o Emílio Biel, o Ernesto Chardron e, mais chegada ao nosso tempo, a ínclita Carolina Michaelis» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], pp. 104-5).

Família e familiares

Antes órfão

Acabo de ler que alguém considerava, numa carta à família, que seria melhor não ter nascido, «dado ser um fardo para os familiares». Logo me lembrei de Camilo ter zurzido em quem se referira à família como os «seus familiares». Ora, a palavra «familiar» designou durante muito tempo o oficial ao serviço da Inquisição. João de Araújo Correia, na obra que hoje já aqui citei, escreveu: «Nunca dizes família. Dizes sempre familiares, sem saber, bem ao certo, o que são familiares» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 115).

Ortografia: «Ganeixa»

Coincidências

      Isto é uma conjunção: ontem li a palavra Ganeixa na recensão de Pedro Mexia («Memória de elefante», Ípsilon/Público, p. 45) da última obra de José Saramago. Hoje revi um texto jornalístico, que nada tinha que ver com o livro de Saramago, em que aparecia Ganesha. Corrigi e, passados uns minutos, o autor do texto informa-me de que acabara de ler a palavra Ganeixa na página 258 (publicada pelo Diário de Notícias) de A Viagem do Elefante.

Pronomes referentes a Deus

Desde quando?

Isso se costuma fazer, cara Sara Costa, mas leia o que escreveu o grande João de Araújo Correia: «Ateu ou religioso, escreve Deus com maiúscula. Mas, não sejas hipócrita, escrevendo com maiúscula o ou lhe que se refiram a Deus. Esta palermice é moda nova. Não consta que se tenha usado no tempo em que Portugal foi místico» (A Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Verbo [s/d, mas de 1959], p. 118).
Mas em inglês também há a mesma tradição, que nem sequer os cientistas enjeitam: «According to Newton, the universe is like a gigantic clock, wound up by God at the beginning of time, and ticking ever since according to His laws» (Michio Kaku, Physics of the Impossible. Nova Iorque: Doubleday, 2008, p. 276).

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