Rei Sol. Pontuação. Etimologia

Assim está melhor

A propósito da provável etimologia da palavra «gravata», lia-se ontem no Diário de Notícias: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França, Luís XIV, o “Rei-Sol”. […] Ninguém sabe ao certo a etimologia da palavra “gravata”. Julga-se que vem da palavra “croata”. Pode não ser verdade, mas faz sentido» («Gravata é parecido com croata», João Pedro Henriques, Diário de Notícias, 11.08.2008, p. 6). A primeira frase saiu um pouco torta ao jornalista. Endireitemo-la, pois: «Reza a lenda que a culpa da gravata foi dos mercenários croatas ao serviço do rei de França Luís XIV, o Rei Sol.» Sem mais comentários.

Pronomes de reverência. Tradução

Falsas realezas


      O Panorama BBC de ontem, na Sic Notícias, era sobre a Igreja Anglicana e a crise que a está a afectar. Um dos entrevistados foi, como seria inevitável, o arcebispo da Igreja Anglicana da Nigéria, Peter Jasper Akinola, «o Bin Laden do anglicanismo», tradicionalista que é contra a ordenação de religiosos homossexuais. Porque está na Bíblia, diz, é só ler. Em duas ocasiões, o repórter Ben Anderson profere o pronome de reverência inglês usado habitualmente no trato com um arcebispo da Igreja Anglicana: Your Grace. A tradutora portuguesa não teve dúvidas e verteu para Sua Alteza. Estava-se mesmo a ver. Ora, para um arcebispo, em português a forma de tratamento é Excelência, e por escrito, V.ª Exc.ª Reverendíssima.

Insultos indígenas

Imagem: http://www.bbc.co.uk/

À distância


Estou aqui a ler Algumas Distracções, uma recolha de textos que Francisco José Viegas foi publicando no extinto Aviz e no bem vivo A Origem das Espécies (publicada pelas Quasi Edições, Vila Nova de Famalicão, 1.ª ed., 2007). Quanto a distracções (e qualquer dia, distrações), só na pontuação, mas não é disso que quero falar, antes deste texto: «Senhor, Sr. Tornou-se moda, em Portugal, para insultar os adversários à distância, tratá-los por “Senhor”: o “Senhor Bush”, o “Senhor Aznar”, o “Senhor Blair”. Esse arrivismo de pacotilha é irritante mas demonstra a parvoíce em que anda a gramática: quando se ouve alguém a ser tratado por “Senhor”, já se sabe — é insulto. 25.5.04» (p. 200). A simples leitura deste texto fez-me evocar, por contraste, Cambridge e o carteiro que cumprimentava toda a gente (até a mim, um estrangeiro de passagem) com um aceno de quem parece que vai tirar o chapéu. Gesto, aliás, que homens idosos mesmo sem chapéu também fazem. Com pessoas assim, eu até esqueço os dias de chuva inopinada no Verão e a comida intragável.

BBC Radio 4


Ouçam

Diana Athill, considerada a melhor editora em Londres durante 50 anos, escreve na sua obra Somewhere Towards the End: «Tenho amigos queridos em Nova Iorque que estão quase prontos a mudar-se para Londres por causa da Rádio 4.» É porque os amigos não têm ligação à Internet. Sim, a melhor estação de rádio do mundo está aqui.

Verbo haver

Hão, hão, hão

      De todas as vezes que referi aqui o verbo «haver» na sua acepção impessoal, aposto que houve sempre, por esse mundo fora, algum sorrisinho trocista de quem se julga a salvo de erro tão básico. O sorrisinho não é grave — se não provier, afinal, dos que caem em erro tão básico. «— Amo-te mais que tudo! És tu! — disse-lhe baixinho, ansiosa por tudo o que ele lhe poderia dizer, e querendo garantir que não houvessem dúvidas ao que ela sentia por ele» (1613, Pedro Vasconcelos. Revisão de Henrique Tavares e Castro. Oficina do Livro, Lisboa, 2.ª ed., 2006, p. 236). É bom trabalhar nas obras.
      José Neves Henriques escreveu uma vez, referindo-se a frases com o verbo haver nesta acepção erradamente conjugado no plural, que «estas frases estão tão profundamente erradas, que inferiorizam quem as diz». De caminho, ficam a saber como se pontua uma oração subordinada consecutiva.

Frases longas

Viver dentro das frases

      A propósito da tradução no Brasil da obra História do Pranto, o escritor argentino Alan Pauls foi entrevistado pelo Jornal do Brasil («Elipses e enigmas da sintaxe narcótica», Alvaro Costa e Silva, 8.08.2008, p. L3). Diz o entrevistador: «Como n’O passado, as frases são longuíssimas, à la Proust.» Ao que Pauls responde: «Gosto de trabalhar a frase como se fosse um transe, e não há dimensão mais narcótica na literatura que a sintaxe. Uma frase longa transforma a literatura numa arte ambiental: o leitor pode viver dentro da frase, como se estivesse num ecossistema raro, cheio de prazeres e perigos.» A obra de Alan Pauls, traduzida já para inglês, não está publicada em Portugal. No Brasil, uma tiragem de 3000 exemplares de O Passado vendeu-se num mês.

A verdade das entrevistas

Hum…


      A estranheza de Ferreira Fernandes é a minha estranheza: na entrevista ao Público, as palavras eram mesmo de Cristiano Ronaldo? De facto, há elementos a afiançarem ao leitor que foi uma entrevista presencial: «O Manchester e os seus adeptos podem ter a certeza que nunca os esquecerei, aconteça o que acontecer. São especiais e têm um cantinho aqui guardado [bate com a mão no coração]» («“Ficar no Manchester não será um sacrifício mas uma honra enorme”», Nuno Prata, Público, 7.08.2008, pp. 2―3). Conclui Ferreira Fernandes a sua crónica no Diário de Notícias: «Pois eu não lhe ‘tou grato por ele falar como Paulo Rangel interpela o Governo. Não vai a bota do mais genial dos extremos com a perdigota do falar de um qualquer professor agregado. CR corre, não tem motricidade; CR é bom sempre, não tem sustentabilidade. Se ele falasse como parece na entrevista, a transferência não seria para o Real Madrid mas para o ISCTE» («Alinhar na equipa barata do falar caro», Ferreira Fernandes, 8.08.2008, p. 64). Até eu, no Record, ponho os atletas, em especial os futebolistas, a falarem com menos erros, mas coisa ligeiríssima, evitando apenas os erros que suponho (e se calhar suponho mal) chocariam os leitores. Nunca me passou pela cabeça pô-los a falar com a eloquência de Catão, o Censor.


«Tutsis» («Tútsis») e «Hutus» («Hútus»)

Sic, sic, sic...

«No Ruanda, os belgas ficam na história por terem patrocinado a estratificação étnica, reconhecendo aos tutsis a supremacia sobre os hutu» («Bélgica: país à beira da divisão?», Alexandra Carreira, Diário de Notícias, 21.07.2008, p. 28). «Tutsis» e «hutu»? Há-de ser «Tutsis» e «Hutus», ou, seguindo a adaptação registada no Dicionário Houaiss, «Tútsis» e «Hútus», porque são palavras graves (também chamadas «proparoxítonas» por Carlos Rocha aqui, e ninguém corrige). Mas o «hutu» foi lapso do Diário de Notícias, pois duas semanas mais tarde lia-se no mesmo jornal: «Ainda segundo aquele relatório, os militares franceses “deixaram operacional [sic] as infra-estruturas do genocídio, em especial os postos de controlo das milícias Interahamwe (os extremistas hutus). Os franceses pediram expressamente que as Interahamwe continuassem a controlar os postos de controlo e a matar os tutsis, [sic] que por aí tentassem passar”» («Ruanda acusa Paris de envolvimento em genocídio», Diário de Notícias, 6.08.2008, p. 25).

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