Estação parva

Parva mas portuguesa

      Arrastado por Ferreira Fernandes, também eu me começo a interessar pelo paradeiro de Pascal Henry, o gourmet suíço misteriosamente desaparecido. Os mais importantes jornais já referiram a notícia, desde o The Times, The Independent (que tem o melhor título), El País… you name it… Perdão, os que quiserem. Aliás, a propósito de inglesices, o que eu queria mesmo era congratular-me com o facto de Ferreira Fernandes não ter usado a expressão silly season, mas «estação parva».
      «Bendita a estação parva que permite atenção a notícias parvas: um homem desapareceu. Fosse ele Fevereiro ou Novembro, dias de estações cheias, não ligaríamos, ocupados que estávamos com uma moção de censura. Assim, dou conta que um homem desapareceu. Ele foi comer ao restaurante El Bulli, catalão e o mais premiado do mundo — “tenho uma reserva no El Bulli”, digo quando quero relançar o interesse de uma amiga —, ao pagar, não tinha carteira, foi ao carro e nunca mais foi visto. Simples caloteiro? Não — vou sabendo, saboreando o caso (que já vai numa semana). O homem visitava todos os restaurantes do mundo, são 68, com 3 estrelas Michelin. Com o El Bulli estava a meio da lista (restaurante 40.º). Já engoli o anzol. O homem era simples estafeta, desses que entregam envelopes de moto. Já não preciso de anzol, estou viciado. O homem tinha um patrocinador misterioso. Parva ou não, só darei por encerrada a estação quando souber tudo sobre o homem que desapareceu» («Um dia, as notícias serão todas assim», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 8.08.2008, p. 64).

Títulos da imprensa

Imagem: http://www.judo.ethz.ch/

Bom golpe


      O melhor título, por mais criativo, mais inesperado, da imprensa portuguesa de ontem foi este: «Telma Monteiro faz ‘ippon’ ao peso». É do jornalista Rui Hortelão, do Diário de Notícias, e refere-se à dieta que a judoca portuguesa tem estado a seguir para poder competir nos Jogos Olímpicos na categoria de -52 kg. E, naturalmente, explica-se o que é o ippon: «Restringiu o prato a grelhados de carne e saladas e deixou de beber refrigerantes, ficando-se apenas pela água. Tudo para fazer ippon (golpe que dá a vitória imediata) ao peso» (p. 34).

Crítica literária

Venham mais assim

Haverá críticas literárias que interessem a tradutores, revisores, editores e leitores em geral? Poucas, mas há — e esta, assinada por José Mário Silva, é uma delas: «Se uma editora decide apostar num romance extraordinário (como “Os Detectives Selvagens” [do chileno Roberto Bolaño (1953-2003)]), ninguém lhe poderá levar a mal que alinhe na contracapa, como numa vitrina de troféus, os encómios da melhor imprensa: “El País”, “Le Monde”, “The New York Times”… A Teorema fez isso — e bem —, mas infelizmente borrou a pintura ao prometer-nos “o primeiro grande romance latino-americano do século XXI”, quando ele foi originalmente publicado em… 1998. Mais graves são outras lacunas, como: o facto de não se mencionar a proveniência da imagem da capa (o quadro “The Billy Boys”, de Jack Vettriano); a excessiva compactação do texto, que permitiu reduzir cem páginas em relação às edições espanhola (Anagrama) ou inglesa (Picador), mas que sujeita o leitor a uma cansativa mancha de texto, demasiado larga e densa; um número inadmissível de gralhas; uma tradução razoável mas que fica ferida por erros básicos (”cadáveres requintados” em vez de “esquisitos”; “corrector” em vez de “revisor”; “Teoria da Libertação” em vez de “Teologia da Libertação”; “índice” em vez de “dedo indicador”, etc.)» («Quando o século XXI em 1998», José Mário Silva, Expresso/Actual, 2.08.2008, p. 25. Ver aqui também).

Topónimo: «Mêda»


Ai que meda!...

Ontem, na Antena 1, ouvi que «em Mêda», distrito da Guarda, havia um incêndio com duas frentes activas. Pois é, mas os medenses (de Aveloso, Barreira, Casteição, Coriscada, Fontelonga, Longroiva, Marialva, Meda, Outeiro de Gatos, Paipenela, Poço do Canto, Prova, Rabaçal, Ranhados e Valflor) e os meios de comunicação social mais judiciosos dizem «na Mêda». Alguma imprensa escreve «Meda», sem acento circunflexo. Contudo, a maioria das ocorrências do nome no sítio da Câmara Municipal desta cidade, por exemplo, tem acento. Os dicionários, pelo contrário, grafam sem acento, pois deriva do substantivo comum «meda». No Diário de Notícias, no título de uma notícia lemos Meda («Incêndio consumiu cem hectares em Meda», 6.08.2008, p. 14) e no corpo da notícia, Mêda.

Fotografias nos livros

Imagens tagarelas

Depois da reabilitação das notas de rodapé e dos índices remissivos, chegou o momento de os críticos abominarem as fotografias nos livros: «Quanto à edição. O editor tem uma excelente ideia e trata depois de torná-la antipática. Todo o livro que se preze tem hoje que incluir as suas previsíveis e insípidas fotografias. Cá estão elas a onerar a edição e, no caso, a contribuir para a detestável mística do Autor ou, melhor, dos seus Aposentos: clichés do escritório de Agamben, a biblioteca, os rostos emoldurados que só a ele pertencerão. Não nego que a fotografia fale; ela anda é a falar demais e a calar tudo o resto» («O anjo descriador», Francisco Luís Parreira em recensão à obra Bartleby, Escrita da Potência, de Giorgio Agamben, publicada pela Assírio & Alvim, Público/Ípsilon, 25.07.2008, p. 33).

Pontuação

To my parents, Ayn Rand and God

Se fizerem uma pesquisa no Google à frase que serve de título a este texto, perceberão de imediato do que se trata e a importância que tem. Para os anglo-saxónicos, não para nós. Chamada serial comma ou Oxford comma, esta vírgula, opcional, é usada antes do último termo de uma enumeração precedido da conjunção and (e). No caso do título, não se usar a vírgula antes de and pode, advogam os defensores da Oxford comma, levar o leitor a crer que os pais do autor da frase (uma presumível dedicatória de um livro) são Ayn Rand e Deus. A blasfémia (e exemplo extremo) serve para demonstrar como faz falta ali uma vírgula. O Chicago Manual of Style «strongly recommends this widely practiced usage, blessed by Fowler [Fowler, H. W. A Dictionary of Modern English Usage. 2.ª ed. revista e editada por Sir Ernest Gowers. Oxford: Oxford University Press, 1965] and other authorities, since it prevents ambiguity».
Contudo, os jornais nem sempre a usam, sobretudo nos títulos. Entre nós, contudo, e é isto que importa, o uso desta vírgula é desnecessário e indefensável. (Não, Nuno, o Novo Prontuário Ortográfico, de José Manuel de Castro Pinto, não prevê «o carácter expressivo da famosa Oxford comma». Refere, isso sim, que «não poucas vezes, é a própria linguagem expressiva que leva o escritor a colocar a vírgula antes de conjunções», e nenhum dos exemplos aduzidos por Castro Pinto se encaixa na definição da Oxford comma.)

Concordância: «horas extras»

Extraordinário

      «Ministra não quer pagar a dobrar por horas extras» (Diana Mendes, 31.07.2008, p. 11), titulava o Diário de Notícias, evitando um erro para que eu venho aqui prevenindo há anos: a falta de concordância. Antes, este jornal escreveria «horas extra». Afinal, nem tudo piora.

Léxico: «gastrossexual»

Menhã-menhã…

O noticiário das 18 horas da TSF dá-me a notícia: depois do termo «metrossexual», eis que surge o vocábulo «gastrossexual». Designa o homem entre 25 e 45 anos, não necessariamente rico, que gosta de misturar ingredientes para fazer pratos para impressionar os amigos. A designação e rebarbativa, é certo, mas encaixo nela. De resto, é algo mais simpático e proveitoso do que ser metrossexual ou ogrossexual ou… Não deixaram de referir, claro, Jamie Oliver.

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