Selecção vocabular

Disse «alocução»?

«A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos uma alocação mínima de 2% dos recursos nacionais para a saúde» («Recomendação», Metro, 27.6.2008, p. 4). Pergunto-me se, num jornal como este, distribuído nos transportes públicos, com o público-alvo que pretende atingir, faz sentido usar um termo como «alocação» sem qualquer explicação. Creio que não. O leitor comum pode intuir, mas vagamente, sem certezas, do que se trata. Seria, pois, melhor não usar o vocábulo e redigir a frase de outra maneira. Por exemplo: «A Organização Mundial de Saúde recomendou ontem aos países africanos que destinassem no mínimo 2 % dos recursos nacionais para a saúde.»

Recursos

Filologia

Está disponível, em linha, a Tonos Digital, que é uma revista electrónica de estudos filológicos. Ver aqui.

Um País Errado (1)

Em Estoi — Marta Santos © 2008

De lés a lés


Inicio hoje uma nova rubrica, «Um País Errado»: fotografias, da autoria de Marta Santos, de anúncios, avisos e todo o tipo de escritos que se podem ver pelo País fora que contêm erros ortográficos, sintácticos e outros. Não é uma mera brincadeira, antes uma chamada de atenção para a forma como se escreve.
Corrija: «Não lavar as betoneiras em frente do portão. Obrigado.»

«Água-ardente»

Mais água-ardente

Na posse de mais dados, rectifico o que afirmei acerca da variante «água-ardente»: a professora não disse que a forma não existe, mas que não está correcta. O que, repondo os exactos termos em que as coisas ocorreram, me parece mais grave. Ora, como é que se afere se um vocábulo está correcto? Analisando-o e consultando obras de referência. Já aqui referi que a variante justaposta, «água-ardente», está registada no Vocabulário da Língua Portuguesa, de Rebelo Gonçalves. Hoje, mostro que também o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 1947, que constitui o «inventário das palavras básicas da Língua e o prontuário das alterações da escrita portuguesa consequentes» do Acordo Ortográfico de 1945, a regista. Podemos ler na página 16, 2.ª coluna, da referida obra: «água-ardente». Será sensato ou inteligente continuar a fazer finca-pé que esta forma não está correcta? Não me parece.

Valores do futuro do indicativo

Verbalizar

A propósito da publicidade ao mais recente livro de Margarida Rebelo Pinto, escrevi aqui ontem: «A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o “romance inesquecível”, será bom que o revisor da obra tenha sido outro.» Um leitor simpático e sensato, como nem todos são, mandou o seguinte comentário: «Por favor, rectifique o seu lapso: “será bom que o revisor da obra tenha sido outro”. Claro que o correcto será “seria bom que o revisor da obra tivesse sido outro”.»
O futuro e o condicional têm, em português, grandes afinidades. O futuro do indicativo («será») tem também um valor modal. Como se pode ler Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, «o futuro do presente pode ainda exprimir [...] em lugar do presente, incerteza ou idéia aproximada, simples possibilidade ou asseveração modesta» (p. 279). Na minha frase, eu não sei se o revisor foi o mesmo, o que manifesto através do futuro do indicativo. Não anda longe do moderno uso jornalístico deste tempo: «Segundo as autoridades, o gangue terá assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.» Digamos que é um tempo «desresponsabilizador»: o facto reporta-se ao passado, mas o jornalista não sabe se foi assim ou não. Um pouco diferente de: «Segundo as autoridades, o gangue teria assaltado oito gasolineiras nas últimas duas semanas pelo mesmo método.»

Puro-sangue/puros-sangues

Falemos de cavalos

      «A Festa do Cavalo vai animar a Moita entre 3 e 6 de Julho. Estão previstos concursos de saltos, passeios de charrete, campeonato de equitação no trabalho, horse paper, espectáculo com a charanga a cavalo da GNR, campeonato de puro-sangues e concurso de traje à portuguesa» («Festa do Cavalo na Moita», Global, 26.6.2008, p. 3). O Dicionário Houaiss regista, tanto para o adjectivo como para o substantivo, o plural «puros-sangues», tal como regista «surdos-mudos».

Pontuação

Português suave

Numa falsa capa publicitária ao gratuito Global, a Oficina do Livro anunciou o novo romance de Margarida Rebelo Pinto, Português Suave. A editora faz um convite ao leitor: «Leia aqui em primeira mão, um excerto do 1º capítulo». A pontuação da frase está incorrecta, e, para quem pretende ler o «romance inesquecível», será bom que o revisor da obra tenha sido outro.
A vírgula (é isto que vou lembrar no sábado) nunca deve ser usada entre os elementos principais de uma oração, como é o caso do sujeito, predicado, complemento directo, complemento indirecto, predicativo do sujeito e predicativo do complemento directo, quando estes se encontrem seguidos. No caso, temos predicado (com sujeito nulo subentendido) e complemento directo posposto, como é normal na frase-tipo portuguesa. Acrescentou-se, porém, alguma circunstância: «aqui» e «em primeira mão». Assim, a introdução destas circunstâncias obriga a usar mais uma vírgula ou a não usar nenhuma: «Leia aqui, em primeira mão, um excerto do 1.º capítulo» ou «Leia aqui em primeira mão um excerto do 1.º capítulo». Faltou, claro, o ponto característico dos numerais ordinais, mas, em contrapartida, não escreveram «primeira-mão», como agora se vê tanto. Nem tudo está perdido.

Guerra Fria

Escaramuças

Cara Luísa Pinto: diga ao seu colega (se não teme ser frontal ou se prevê que ele não será um dia seu superior hierárquico) que está a ver mal as coisas. Em «Guerra Fria» não há nenhuma «unidade lexicalizada». O caso fica abrangido, isso sim, pelo uso da maiúscula inicial nas designações de factos históricos ou acontecimentos importantes e de actos ou empreendimentos públicos: Descobrimentos, Guerra Peninsular, Reforma, Renascimento, Restauração, Invasões Francesas, Segunda Guerra Mundial, Concordata, etc. Logo, Guerra Fria. Sim, lê-se de tudo: «guerra-fria», «guerra fria», «Guerra-fria». Quando deviam, não copiam do inglês: Cold War.

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