República Chechena da Ichequéria

Porque não?

Pergunta, e muito bem, o leitor J. J. L.: «Aquilo que em inglês se escreve Ichkeria, em francês, Itchkérie, em alemão, Itschkeria, em espanhol, Ichkeria, e em catalão, Itxkèria, como poderá (ou deverá) ser transcrito para português: Itchquéria, Ichquéria, Isquéria, Ichéria?» A minha resposta, e a esta hora já muitos leitores o saberão, porque ficou lá para trás, num comentário, foi: «Ainda não vi nenhuma tentativa de aportuguesamento deste topónimo, mas “Ichequéria” não me parece mal.» Parece-me a mais conforme à língua portuguesa. Mas, é claro, passados tantos anos, ainda se continua a escrever «Abkázia», quando seria mais natural (mesmo que se repute tolice não termos a letra capa no nosso alfabeto) a grafia «Abcázia», como eu já escrevi vezes sem conta na imprensa e na revisão de obras. «Conhecida a intenção da Ossétia do Sul, também a outra região separatista da Geórgia, a Abkázia, anunciou que pedirá ao resto do Mundo que reconheça a sua independência» («Estilo “Kosovo” estende-se à Ossétia do Sul e Abkazia», Meia Hora, 6.3.2008, p. 11).

Penitenciaria e penitenciária

Mais confusões

A notícia apareceu em toda a imprensa: o bispo Gianfranco Girotti aconselhou a intervenção de um exorcista em caso de fenómeno diabólico como possessão ou obsessão. E a que instituição da Igreja Católica pertence ou preside D. Girotti? A maioria da imprensa portuguesa não tem dúvidas: ao Tribunal da Penitenciária Apostólica, um dos três tribunais da Cúria Romana. Mas não: pertence, isso sim, ao Tribunal da Penitenciaria Apostólica. Semelhante, sim senhor, mas diferente. Como os jornalistas só conhecem a Cadeia Penitenciária de Lisboa, que é, na verdade, a antiga designação do que actualmente é o Estabelecimento Prisional de Lisboa, não concebem uma instituição designada (a partir do latim Pœnitentiaria Apostolica) Tribunal da Penitenciaria Apostólica.
«O bispo Gianfranco Girotti, regente do Tribunal da Penitenciária Apostólica do Vaticano, defende que em caso de possessão diabólica a pessoa afectada deve dirigir-se a um exorcista e não a um confessor» («Bispo aconselha um exorcista em caso de possessão diabólica», Meia Hora, 6.3.2008, p. 11).


Léxico contrastivo: «contêiner»

Imagem: http://www.pianoclub.gr.jp/

Porque contém

Sabiam que no Brasil o nosso contentor se chama contêiner e que antigamente era designado cofre-de-carga? E que está escrita a história deste recipiente? Não? Pois não sabem muito. Leiam. «Um datacenter (local que abriga servidores de rede) com capacidade para processar milhões de pedidos de compra ao mesmo tempo, em um site de comércio eletrônico, já pode funcionar, inteirinho, dentro de um contêiner e ser levado, em tese, para qualquer lugar. Basta que a região tenha água, energia elétrica e conexão de rede» («Datacenter móvel da Sun cabe em um contêiner», Paulo Marcio Vaz, Jornal do Brasil, 3.3.2008, p. A24). Contêiner é, como se vê, o aportuguesamento da palavra inglesa container.

O que se diz na rádio

Promessas

Nos jornais gratuitos já tinha visto isto. Hoje, ao ouvir um noticiário na Antena 1, tomei plena consciência da dimensão da nova tendência. Na informação meteorológica, jornais e rádio já não falam de previsões, mas de «promessas». «No final da tarde, conforme prometido, registar-se-ão ventos fortes no litoral norte.» Prometido por quem, valha-me Deus? Quem pode prometer seja o que for nesta matéria? São Pedro? São previsões, senhores jornalistas, e previsões não são promessas. Mas a RDP e a RTP não tinham estabelecido com o Ciberdúvidas um protocolo para um serviço de consultoria linguística permanente? E então?

Tradução: compostos de «hood»

Enfia lá este

Traduzir o vocábulo inglês «hood» é fácil: será, em função do contexto, «bioco», «capa», «capelo», «capota», «capuz», «touca»… O pior é quando «hood» é sufixo. Este é mais um glossário em construção.

adulthood: adultícia; idade adulta
bachelorhood: celibato
boyhood: meninice, infância
brotherhood: irmandade; confraria
buddhahood: budidade
childhood: infância
falsehood: falsidade, mentira
hardihood: coragem, audácia, intrepidez, ânimo; descaramento, atrevimento
knighthood: cavalaria
Jewhood: condição judaica
likelihood: verosimilhança, possibilidade, probabilidade; cenário
livelihood: modo de vida; ganha-pão
manhood: masculinidade, virilidade; condição masculina; os homens
motherhood: maternidade; vocação maternal
nationhood: condição de nação; o facto de ser nação
neighbourhood: bairro, zona, vizinhança
priesthood: sacerdócio, clero
sisterhood: confraria, irmandade, congregação de religiosas; situação de irmã
statehood: posição do Estado; Estado independente
victimhood: vitimização
widowhood: viuvez
wifehood: situação (condição) de mulher casada


[Glossário em construção] [22 entradas]

Como se fala na rádio

Vórtices culturais

      Cultura. Que digo? Culturalíssima. Antena 2, programa Boulevard, com André Pinto e Reinaldo Francisco. Um deles, não sei qual, anunciou uma composição de Antonio Vivaldi como «Águas Revoltas» — mas este «revoltas» como quem diz «revoltas mineiras» ou «revoltas do século XVII», com o o aberto. Ostensivamente aberto. Abertíssimo. Escancarado. Rádio cultural...


Glossário: burlescos, injuriosos...

... depreciativos…


artólatra
m. Adorador do pão.│Nome dado, por irrisão, aos católicos, por adorarem a Eucaristia.
autolata m. gír. Nome dado a automóveis velhos.
aviscondalhar v. Pej. Fazer visconde.
bedelhar v. Intrometer-se com curiosidade em assuntos alheios, cavaquear.
beiçola adj. Que tem beiços grandes.
belfa f. Face de pessoa bochechuda.
belfaça f. Belfa grande.
boche adj. e m. Termo depreciativo com que os Franceses designam os Alemães.
boi-corneta m. Indivíduo intrometido, abelhudo, indisciplinado, rixoso, que em toda a parte introduz a discórdia.
bolónio m. Pop. Ignorante; simplório.
boquirroto adj. Falador, que não guarda segredo.
borboletice f. Caprichos ou modos de borboleta.│2. Volubilidade.
brichote m. Nome que, por desprezo, se dá aos estrangeiros.
brulote m. Homem de opiniões exaltadas.
bugre m. Nome depreciativo dado aos selvagens do Brasil.
camacho adj. Diz-se do indivíduo que é coxo.
capeludo adj. Que usa capelo.│Designação injuriosa dos franciscanos.
cita-cristos m. Ant. e Pop. Esbirro; oficial de diligências; beleguim.
citote m. Pop. Oficial de diligências ou qualquer empregado judicial, que faz citações.
coronelício adj. Próprio de coronel.
dentolas m. Indivíduo que tem os dentes grandes e feios.
doutoreco m. Doutor sem valor.
dramalhoco m. Drama sem valor nem merecimento.
escarumba m. Homem de raça negra.
escorropicha-galhetas m. Deprec. Sacristão.
franchinote m. Nome que no século XVI se dava em Coimbra aos padres jesuítas.
franduleiro adj. Estrangeiro.
frege-moscas m. Cozinheiro das tabernas de iscas.
godeme m. Bras. Alcunha pitoresca dos Ingleses.
machacaz m. Pleb. Indivíduo corpulento e desajeitado.
marteleiro m. Caçador que quase nunca acerta o tiro contra a caça (por alusão à pancada do cão da espingarda cobre a espoleta).
novelória f. Novela mal engendrada, mal feita.
porta-pastas m. Ministro de Estado.
possidónio m. Deprec. Político ingénuo, que só vê a salvação do país no corte profundo e incondicional de todas as despesas públicas.
rancatrilha m. Prov. Aquele que coxeia, arrastando uma perna.
repolho m. Fam. Pessoa muito gorda, muito nutrida.
requinho m. Ant. Deprec. Seminarista.
retambufa f. Pop. e Chul. As nádegas.
roupeta m. Deprec. Padre, clérigo, especialmente jesuíta. O m. q. roupeta-negra.
sargentola m. Depre. Sargento de escassos méritos.
sotaina f. Padre ou frade
teatrelho m. Teatro insignificante ou ordinário; teatreco.
teatrório m. Teatro pequeno e reles.

[Glossário em construção: 42 entradas]




Semântica: «arregaçar»

Parece-me elementar

Não costumo discutir com ignorantes que o querem ser — mas desta vez tive de fazê-lo. Era professor de Português, mas para mim podia e devia ser açougueiro ou arrieiro. Creio que o segmento de frase era «hitching up their pants». «Arregaçando as calças», lancei eu. O que fui dizer! «Forrando as calças», rugiu. «“Arregaçar” é para as mangas e só para as mangas!» Ainda lhe falei da etimologia de «arregaçar»: que originalmente era apenas puxar, recolher a borda, a barra, a fímbria de uma peça de vestuário, formando regaço, dobras ou pregas. Cá está, regaço. Que só depois, por extensão de sentido, passou a significar também — também — puxar, dobrar para cima parte de uma peça de vestuário, como as mangas da camisa. Por outro lado, fiz-lhe ainda ver, «forrar» é um provincianismo a evitar. Em vão.

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