Léxico: triclínio

Na cama com os Romanos

Uma leitora, Luísa Pinto, quer saber o nome específico de cada um dos assentos em redor de uma mesa, entre os Romanos. Ora, se pretende o nome específico, deduzo que sabe que triclínio (a partir de acclinis, -e, «que pende sobre, que está apoiado em») era a designação do conjunto dos três assentos, dispostos em ferradura. À própria divisão se deu o nome de triclínio. Cada assento tinha, por sua vez, o nome de lectus triclinaris ou discubitorius*, klinai ou podia — que não passaram, tanto quanto sei, para o português. Contudo, por metonímia, também se designa triclínio cada um desses leitos de mesa. Cada leito e cada um dos três lugares no leito tinha uma ordem de importância: lectus summus, lectus medius e lectus imus.


* De leitos percebiam os Romanos: o lectus cubicularis era para dormir; o lectus genialis era o leito nupcial, para o qual o casal se dirigia após a festa de casamento; o lectus adversus, para depois da consumação do casamento; o lectus lucubratorius, uma cama para estudar (mas «Estudo na cama, estudo na lama», como costumava dizer o Prof. Doutor Ruy de Albuquerque); o lectus funebris, uma espécie de padiola.

Antigás ou antigásico?

Máscara alemã da II Guerra Mundial: http://www.claseshistoria.com/

Antigas e modernas


      «Sobre estas líneas, adiestramiento en el uso de máscaras antigás.» O tradutor, por lapso desculpável, escreveu: «Em cima, treino no uso de máscaras antigas.» Não foi, certamente, esta possível confusão que levou alguns estudiosos da nossa língua a preferirem o termo «antigásico» em vez de «antigás», como José Pedro Machado, que, no Grande Dicionário da Língua Portuguesa, escreve: «Antigás, antigásico, adj. Que defende ou previne os efeitos dos gases deletérios.║É preferível a segunda destas formas.»

Ortografia: Árctico

Salvem a ortografia

      «Diz-se que nadaram mais de 27 mil quilómetros e, apesar de alguns terem ficado retidos no frio congelante do Ártico, outros resistiram e chegarão agora a Inglaterra» («Salvem os patinhos de borracha», Marina Chiavegatto, Público/P2, 12.07.2007, p. 6). Não é muito comum ver correctamente escrito este topónimo. Escreva-se «Árctico».

Uso das aspas

Uma coisa em forma de assim

«Os chefes dos três ramos das Forças Armadas proibiram os militares no activo de participarem, hoje, numa vigília de protesto frente à residência do primeiro-ministro» («Sargentos em “vigília” proibida contra Governo», Paula Torres de Carvalho, Público, 12.07.2007, p. 7). As aspas estão a mais ou são necessárias? Era uma vigília ou não era?

Pronúncia: «fretado»

Boca hiante

Nas notícias das 14.00 de ontem, na Antena 1, o jornalista referiu que a TAAG (Transportes Aéreos de Angola) voltara a voar para Lisboa, contornando a proibição de voar no espaço aéreo europeu através de aviões fretados. E pronunciou este «fretados» com e aberto: /frétados/. Mas não. Em «frete» o e é (maioritariamente) aberto porque é sílaba tónica; em «fretado» não é sílaba tónica. O mesmo erro acontece, e com mais frequência, na pronúncia da palavra «drogado».

Pronúncia: «in loco» e «grosso modo»

Non probatus



      «Por isso, se puder, conheça em loco [lóco], em loco [lôco], a “Maison Tropicale” […]» (Palavras Soltas, Sic Notícias, Bárbara Guimarães, 11.07.2007). A expressão latina é in loco e esta última palavra pronuncia-se /lóco/. Igualmente maltratada é a locução grosso modo, que significa «de modo grosseiro», «aproximadamente», e se deve pronunciar como se fazia em latim: /grósso módo/. Na escrita, deve ser realçada em itálico ou entre aspas. Um erro muito difundido no Brasil é juntar, para tudo piorar, a preposição a: a grosso modo.



Tradução

No fio da navalha



      Dizia o original: «La “democratización” de la lucha, impulsada por el mito revolucionario francés de la nación en armas, vino unida a una transformación acelerada de la técnica armamentística, al hilo de los principales logros de la Revolución Industrial.» O tradutor não achou especialmente difícil: «A “democratização” da luta, impulsionada pelo mito revolucionário francês da nação em armas, veio unida a uma transformação acelerada da técnica de armamento, ao fio dos principais ganhos da Revolução Industrial.» Entre os vários erros, este «ao fio dos» é arrepiante. A locução prepositiva espanhola al hilo de ou al filo de significa muito pouco antes ou depois de: Al hilo de la medianoche. «Por volta da meia-noite.» Não sabemos se foi um pouco antes, se um pouco depois da meia-noite. Sabemos é que se perdem vocações noutras áreas…

Contracções

Contrai, descontrai

«Foi depois dos taliban tomarem o poder em Cabul, em 1996, que o traje — tornado obrigatório para as mulheres — ficou mais conhecido, recorda a AFP» («O “golpe da burqa” tem história, mas continuará a funcionar?», Francisca Gorjão Henriques, Público, 7.07.2007, p. 5). Nesta frase, a preposição de não deveria estar contraída com o artigo o: «Foi depois de os taliban tomarem o poder em Cabul […].» A regra não é esotérica: quando seguida de construções de infinitivo, não se contrai a preposição de com o artigo que precede o substantivo, pois a preposição não está relacionada com esse substantivo, mas com a acção traduzida pela forma verbal. É um dos erros mais comuns em português, abundantíssimo nos jornais. Mais um exemplo na mesma edição do Público: «No programa de Larry King, anteontem à noite, a jovem herdeira Paris Hilton confessou que nunca usou drogas, que não é de beber muito álcool e que apesar de considerar injusta a sua prisão — por guiar sem carta, depois desta ter sido apreendida por conduzir alcoolizada —, Deus deverá ter uma razão para o que lhe aconteceu» («Hilton leu a Bíblia na cadeia», Público/P2, 7.07.2007, p. 22). Mas atenção: por vezes, é obrigatória a contracção e quem escreve não a faz.

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