Léxico: «gabinete | gabinete de asseio»

Nem simples nem composto


      Tenho aqui uma rainha a precisar de ir aliviar-se a uma casa de banho. Mas sem anacronismos. Na tradução, e bem, ela precisa é de um gabinete de asseio (cabinet d’aisance), que tu, Porto Editora, não acolhes, mas de que o Michaelis, por exemplo, não se esqueceu. Especificamente, e numa só palavra: gabinete. É verdade que tens, e logo na primeira acepção, «compartimento, mais ou menos isolado do resto do edifício, reservado para um determinado uso», mas não chega.

[Texto 22 736]

Nomes de empresas

Criatividade? Incoerência


      Há uns tempos — ou desde sempre? — comecei a reparar no nome de empresas de construção civil. A criatividade que por ali vai, Jasus do céu! Dantes era Ferreira & Filhos, Lda., Duarte & Duarte, Lda., Cavaco & Irmãos, e pouco mais. Mas agora? Ângulos Sublimes, Patamar de Talento, Linhas Gerais, Margem Efémera, Margem Mítica, Evidente Perfeição, Equação Inusitada, Perfeição Futurista, Futuro Ajustável, Esfera Cristalizada, Pérolas d’Estratégia, Parênteses & Cardinais, Perímetros Imperiais, Potencial Tropical, Remate Perfeito, Talento Confirmado, Objetivo Obrigatório, Fábula Versátil, Frases & Páginas, Carácter Veloz, Virtude Contígua... Não me perguntem se os acho adequados para empresas de construção civil, porque a minha resposta só podia ser esta: #@$%&*! Para mim, tudo isto foi desatado pela Cavalo de Ferro. Não o digo pela incoerência do nome da editora, valha-me Deus, que de tal não padece, mas por ser composto. Tem de haver sempre pioneiros.

[Texto 22 735]

Etimologia: «investir»

Tem de se dizer mais


      «Le week-end dernier, les villes ont procédé à l’investiture des maires élus il y a quelques semaines. Le mot vient du verbe latin investire, «revétir»: en l’occurrence, le nouveau venu revêt l’écharpe tricolore dévolue à l’édile, signe de ce que cette élection revêt elle aussi quelque chose: une grande importance» («Investiture», Étienne de Montety, Le Figaro, 31.03.2026, p. 34). 

      A nota etimológica dos nossos dicionários, como é habitual, limita-se a repetir o verbo português no latim e no francês, sem esclarecer o valor semântico original nem a evolução. Assim, proponho ➜ do latim investīre, «revestir, cobrir com vestes; conferir dignidade ou função mediante acto formal», pelo francês investir, «conferir oficialmente um cargo»; ulteriormente, «aplicar capitais».

[Texto 22 734]

Definição: «flagrante delito»

Para lá da intuição


      «“Esbofeteou a mulher à frente de todos, porque ela se esqueceu de trazer a requisição de um exame e ainda a ameaçou que ia apanhar mais quando chegassem a casa. Depois percebemos que já outros familiares tinham conhecimento disto, mas ignoraram. Estando nós pertinho da 18.ª esquadra da PSP, solicitámos logo ajuda”, contou uma das testemunhas ao CM. A polícia foi de imediato chamada e Mira Amaral foi detido em flagrante delito» («Antigo ministro suspeito de violência doméstica. Detenção», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 31.03.2026, p. 19). 

      Será mesmo flagrante delito? Pelo que é descrito, não é evidente que estejam preenchidos os requisitos. A polícia foi encontrar Mira Amaral ainda com a mão colada ao rosto da mulher? Havia sinais imediatos e inequívocos de uma agressão acabada de ocorrer? O cidadão comum, leigo, tem do flagrante delito a ideia de quem foi apanhado com a boca na botija. E não se engana muito. O Direito apenas alarga um pouco essa intuição, de forma controlada: admite o «logo após» e a perseguição imediata, desde que não haja quebra da sequência. Mas não vai a ponto de aceitar um simples relato posterior, por mais credível que seja. Basta, para o efeito, que a autoridade chegue de imediato, encontre os intervenientes ainda no local, com sinais evidentes do que acabou de acontecer (estado emocional, lesões visíveis, desordem no espaço, testemunhos imediatos), e sem quebra relevante entre o facto e a intervenção. O testemunho é relevante, pode até ser decisivo, mas no contexto do flagrante delito tem de estar inserido numa situação de imediatidade e continuidade. Fora desses casos, o testemunho já não sustenta o flagrante delito. Serve para investigação, mas não basta para qualificar a detenção como tal.

      Reconduzindo tudo aos nossos interesses, que são os da análise linguística, direi então que a definição de «flagrante delito» da Porto Editora reflecte a percepção comum, mas não traduz integralmente o conceito jurídico: «infracção ou crime em que o infractor é surpreendido no momento em que o pratica». Assim, sugiro ➜ flagrante delito DIREITO situação em que alguém é surpreendido no momento da prática de um crime, logo depois da sua consumação ou quando, logo após o crime, é perseguido por qualquer pessoa ou encontrado com sinais ou objectos que mostrem claramente que acabou de o cometer.

[Texto 22 733]

Erros de sempre e para sempre

O habitual


      «A detenção do espanhol aconteceu no dia 4 de dezembro, em Olhão, explica a Polícia Judiciária em comunicado, em articulação com a Guarda Civil. Sob o foragido, de 55 anos, pendia um mandado de detenção europeu pelos crimes de peculato e falsificação» («Figura de Hollywood e foragido em Espanha, foi apanhado no Algarve», Jornal de Notícias, 12.12.2025, p. 22).

[Texto 22 732]

Léxico: «calças de alçapão»

Ou torna-se ilegível


      «A estes, se não entusiasmava a petulância do foliculário, era benquista a pirraça ao burguês, um mequetrefe chegado de calças de alçapão e socos das almuinhas do Cávado ou do Bestança, e que em poucos anos estava rico como porco» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 40). 

      Pois, em lado nenhum, pelo que proponho ➜ calças de alçapão calças, geralmente interiores ou de dormir, com uma abertura traseira abotoada, usada para facilitar a ida à casa de banho sem ter de despir a peça.

[Texto 22 731]

Como se escreve por aí

Claro que ninguém releu o texto


      «Em síntese, o Conselho da Europa considera que penas de prisão por difamação são desproporcionais e têm um forte efeito de intimidação sobre jornalistas, ativistas e cidadãos, tendo vindo a pedir repetidamente aos Estados‑membros que abolam a prisão no caso da difamação e reformem as leis para evitar abusos numa área decisiva para o debate e o escrutínio público» («Difamação nos media e liberdade de expressão – modo de usar», Francisco Rui Cádima, Público, 24.03.2026, 00h20). 

      Numa palavra, errado. Irremediavelmente errado. O que há é quem defenda — mas nada de confusões! — a forma verbal «abulam»; aliás, todas as pessoas do Presente do Indicativo. Melhor (pior): todas as pessoas de todos os tempos. Aboliram totalmente a defectividade deste verbo. Não somos seguidores de tais práticas.

[Texto 22 730]

Léxico: «estação de isco para roedores»

Vejo-as por aí


      «A Secretaria-Geral da Presidência da República tem feito sucessivos contratos para desratização, desbaratização e desinfestação do Palácio de Belém. O último, que custa cerca de 3642 euros por ano e inclui o Palácio da Cidadela de Cascais, conta 195 estações de isco para roedores, armadilhas para baratas, detetores de traças e de peixinho-de-prata» («Presidência: isco para roedores», Miguel Balança, Correio da Manhã, 30.03.2026, p. 12). 

      Não sabia que era este o nome. Sendo assim, ➜ estação de isco para roedores dispositivo que aloja isco rodenticida em compartimento protegido, permitindo o acesso de roedores e restringindo o de outras espécies.

[Texto 22 729]

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