Agora é que vai ser

Ler por receita


      Os médicos, leio nos jornais, vão passar a receitar caminhadas, pilates, trabalhos manuais e aulas de culinária. É um começo, mas o que espero mesmo é que, enquanto não afinam aqueles chips implantáveis no cérebro, passem a receitar o estudo da gramática e a consulta de dicionários, especialmente aos jornalistas; para a restante população, pode ser apenas a frequência de clubes de leitura, por exemplo.

[Texto 22 704]

Definição: «arcebispa»

Pois, mas na prática


      «Durante siglos, Canterbury ha sido sinónimo de peregrinación. Pero la multitud no acudió ayer en busca de redención, sino de historia. Bajo las bóvedas góticas de la catedral, la Iglesia de Inglaterra escenificó un cambio de era al entronizar públicamente a Sarah Mullally como arzobispo de Canterbury, la primera mujer en ocupar el cargo en 1.400 años. A sus 64 años, madre de dos hijos y exjefa de enfermería del sistema público británico, se convierte en la máxima autoridad espiritual de los anglicanos en todo el mundo» («La Iglesia anglicana rompe su último techo de cristal con la entronización de una mujer», Celia Maza, La Razón, 26.03.2026, p. 32). 

      Dizes, Porto Editora, que é a «mulher que chefia um arcebispado em certas religiões cristãs não católicas», mas bem sabemos que apenas o caso da Comunhão Anglicana tem relevância, pelo que eu o definiria assim ➜ arcebispa RELIGIÃO mulher investida no cargo de arcebispo, isto é, responsável por uma província eclesiástica ou por uma diocese de especial relevância; termo de uso recente, com projecção sobretudo na Comunhão Anglicana, decorrente da ordenação de mulheres, inexistente na tradição católica.

[Texto 22 703]

Extras! Extras! Extras!

Não se esqueçam


      «O ex-diretor executivo do SNS António Gandra d’Almeida afirmou ontem que o INEM “só funcionava com muitas horas extras e prestação de serviços, tal como o resto do SNS”» («INEM só funciona com horas extras», E. N., Correio da Manhã, 27.03.2026, p. 19).

[Texto 22 702]

Definição: «subdimensionamento»

Abstrai, mulher


      «Com esse objectivo em mente, a associação pede também ao metro que reveja aquela que vem sendo a prática de fazer terminar no Campo Grande parte das composições da Linha Amarela que partem da estação do Rato, intercaladas com outras que fazem o percurso completo até Odivelas. Uma frequência que se faz sentir nos dias úteis, entre as 10h e as 16h45, e que leva a Zero a falar num “grave subdimensionamento” da oferta neste troço» («Porque não circula o metro da capital mais cedo? Associação Zero quer abertura de portas às 5h30», Samuel Alemão, Público, 27.03.2026, p. 19). 
      O dicionário da Porto Editora define muito mal «subdimensionamento»: «atribuição de dimensões insuficientes a algo». E porquê? Pois porque fica presa à ideia de dimensões no sentido físico ou geométrico e não capta o uso efectivo da palavra, que é muito mais amplo e frequentemente abstracto, como é o caso do artigo que cito. Assim, proponho ➜ subdimensionamento acto ou efeito de dimensionar, planear ou conceber algo abaixo das necessidades reais, resultando em insuficiência de capacidade, escala ou meios.
[Texto 22 701]

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P. S.: Muito me apraz verificar que no Público já sabem fazer perguntas gramaticalmente correctas: Porque é que...? A satisfação, porém, só seria completa se não soubesse que apenas acertam quando se enganam. Satisfação efémera, pois. Orgasmo.

Confusões: «à vontade» e «à-vontade»

Pese embora a nódoa


      «“Este é um clube de leitura dedicado ao teatro, mas igual a todos os outros. Não é uma aula”, sublinha Isabel Milhanas Machado. “O objectivo é fazer com que qualquer pessoa se sinta à-vontade, sem medo de falar, fazer perguntas, propor uma interpretação ou partilhar a sua experiência. Mas, se quiser, também pode car só a ouvir”» («Um pouco por todo o país, há leitores de teatro à procura de uma peça atrás da outra», Luís Ricardo Duarte, Público, 27.03.2026, p. 30). 

      O jornalista aqui borrou um pouco a pintura (Luís Ricardo Duarte, aprenda urgentemente a distinguir e a usar «à vontade» e «à-vontade»), mas o artigo é interessante, fala de clubes de leitura em Lisboa e no Porto. O resto é paisagem. Em Lisboa, é o Clube de Leitura do Teatro Variedades; no Porto, as Leituras no Mosteiro são uma iniciativa do Centro de Documentação do Teatro Nacional São João. São ambos clubes de leitura de peças de teatro, e os textos são lidos na íntegra.

[Texto 22 700]

Léxico: «trimodal»

Registe-se


      «De acordo com a mesma fonte, os investigadores testaram pela primeira vez um tratamento trimodal, que combina três ações simultâneas contra o cancro. Para a descoberta, os investigadores recorreram a um medicamento utilizado em quimioterapia (tratamento contra o cancro), o doxorrubicina, com a aplicação, em simultâneo, de duas formas diferentes de calor» («Cientistas testam tratamento mais eficaz contra cancro com menos doses de quimioterapia», Rádio Renascença, 26.03.2026, 1h30).

[Texto 22 699]

Léxico: «agregador»

É muito mais do que isso


      «Na prática, segundo o Grok, isso envolve processar “snippets extensos e caches públicos” que vazam partes grandes do texto; cruzar múltiplas fontes na web que republicam, citam ou indexam trechos longos (buscas avançadas, arquivos, redes sociais, agregadores); e reconstruir o texto integral a partir desses fragmentos distribuídos» («Grok e DeepSeek burlam ‘paywall’ de jornais e acessam conteúdo protegido», Maurício Meireles, Folha de S. Paulo, 27.03.2026, p. A32). 

      Não, não, Porto Editora, «agregador» a significar apenas «que ou o que agrega» é do século XX, e XIX, e XVIII, e... Agora é isto: agregador 1. que ou o que agrega; que reúne elementos dispersos num todo; 2. INFORMÁTICA aplicação ou serviço que recolhe e organiza conteúdos de várias fontes num único ponto de acesso; 3. COMUNICAÇÃO plataforma digital que compila e redistribui conteúdos de terceiros, frequentemente com base em automatização.

[Texto 22 698]

Definição: «padrão-ouro»

Longe dos mínimos


      «La fin de l’étalon-or. L’origine de ce système de garantie en or, qu’on appelle l’étalon-or, remonte au XVIIIe siècle, quand les banques garantissaient la conversion des billets en or sur demande. Ce mécanisme s’est ensuite développé jusqu’au début du XXe siècle. Mais après la Première Guerre mondiale, l’étalon-or est peu à peu abandonné : les Etats ont dû massivement emprunter, notamment pour s'armer, et leurs stocks d’or ne permettent plus de couvrir la monnaie émise» («L’or, de mètre étalon à valeur refuge», Lomig Guillo, Le Figaro, 27.03.2026, p. 47). 

      A definição de «padrão-ouro» da Porto Editora é demasiado vaga e redutora, limita-se a uma genérica «associação» ao ouro, omitindo a paridade oficial, a convertibilidade, o papel das reservas e o enquadramento histórico do sistema: «ECONOMIA sistema monetário em que há uma associação directa do valor da moeda ao valor do ouro; moeda-ouro». Como é que algo tão importante fica reduzido a isto? Assim, proponho ➜ padrão-ouro ECONOMIA sistema monetário em que a unidade monetária corresponde a uma quantidade fixa de ouro, com paridade oficial e convertibilidade nesse metal; regime adoptado por vários países entre o século XIX e o início do século XX e abandonado no início da década de 1970, com o fim da convertibilidade do dólar em ouro.

[Texto 22 697]

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