Léxico: «foguetada»

Outras faltarão


      O actor Miguel Dias, entrevistado por Rita Roque no Mesa para Dois, na Antena 1, disse que à gargalhada que estoura entre o público quando o actor atira uma graça, uma piada, dá-se em teatro o nome de foguetada. Gíria, sim, e talvez menos conhecida, mas acaso os dicionários acolhem a tão conhecida forma de desejar sorte no teatro — «Muita merda!» —, algum a regista? Não. Estranho país este, em que não se valoriza a língua, o conhecimento, a História. Só não fico na merda por causa disto porque vou em frente.

[Texto 22 696]

Definição: «mosqueteiro»

Um por todos


      «Os restos mortais de Charles de Batz de Castelmore [dito] d’Artagnan, o mosqueteiro mais famoso da história, terão sido encontrados na cidade na cidade de Maastricht, nos Países Baixos. O esqueleto que pertencerá a D’Artagnan foi descoberto diante do altar de uma igreja daquela cidade neerlandesa, anunciaram esta quarta-feira responsáveis religiosos e um arqueólogo» («Restos mortais de D’Artagnan terão sido descobertos», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 25.03.2026, 17h16). 

      Aproveitemos nós, enquanto não se confirma que o ADN é de Charles de Batz de Castelmore d’Artagnan, e melhoremos a definição de ➜ mosqueteiro 1. MILITAR, HISTÓRIA soldado armado de mosquete, activo sobretudo entre os séculos XVI e XVIII, integrado em unidades de infantaria caracterizadas pelo uso de armas de fogo portáteis de alma lisa, frequentemente organizadas em formação com piqueiros; em particular, membro de companhias militares específicas, nomeadamente da guarda real francesa (Mousquetaires du Roi), que constituíam corpos de elite ao serviço directo do soberano; 2. figurado homem que defende com ardor uma causa ou pessoa, com bravura e lealdade, evocando o ideal de camaradagem e heroísmo associado à tradição literária. 

      O que se altera com a nova definição? Duas coisas. Primeira: explicita-se o enquadramento histórico e técnico do termo, incluindo o uso do mosquete, a articulação com piqueiros e a sua inserção em corpos militares específicos, como as companhias de elite da guarda real francesa; segunda: enriquece-se a acepção figurada, incorporando a sua carga cultural e literária, além do sentido genérico de «defensor» ou «paladino».

[Texto 22 695]

Léxico: «calçote»

Foi nosso, perdeu-se


      Outra que nos palmaram, mas que vamos encontrar em vocabulários e dicionários brasileiros: «Assim, a conta do alfaiate, apensa ao inventário, acusa em menos de cinco anos a entrega e débito de vinte e dois pares de calças — não falando em calções de montar e calçotes do menino, seus consertos e arranjos — oito sobrecasacas, oito coletes, etc., quando no espólio figuram apenas uma sobrecasaca e oito pares de calças «muito usadas», sinal que autoriza a supor que não teria grande ingresso naquela casa o algibebe» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 58).

[Texto 22 694]

Léxico: «Folha-de-Figueira»

Em que se fala de Cunhal


      «Des travaux qui montrent également que le folha de figueira, toujours cultivé au Portugal, est le clone d’un plant qui était exploité à Ibiza, au Xle siècle» («L’ADN du pinot noir n’a pas changé depuis Jeanne d’Arc», Denis Delbecq, Le Temps, 25.03.2026, p. 11). 

      É impressionante: só pela leitura de um jornal suíço é que fico a saber que temos uma casta chamada Folha-de-Figueira, que até os nossos dicionários ignoram, isto quando é sinónimo da designação de uma das castas mais conhecidas. E não é uma casta qualquer, como poderão ver. Assim, proponho ➜ Folha-de-Figueira VITICULTURA casta de videira branca portuguesa, também conhecida por Dona-Branca, tradicionalmente cultivada em regiões do interior, integrada no conjunto das variedades autorizadas para produção de vinho em Portugal.

[Texto 22 693]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: A Porto Editora, já o reconheci noutra ocasião, tem razão numa coisa, que é grafar em minúscula o título do verbete em que regista o nome de uma casta, pelo simples facto de normalmente ter várias acepções, desde logo o nome da casta — e este é em maiúscula — e quase sempre o nome do vinho produzido com essa uva. O problema é que não leva até ao fim essa coerência, já que nos verbetes de algumas castas em que só figura o nome da casta e não do vinho — como no de Dona-Branca —, o deixa com minúscula. Com razão ou sem razão, temos de ser coerentes até ao fim. Porque é que Álvaro Cunhal ainda hoje é elogiado?


Definição: «nianja»

A atracção do exótico


      «O lago Malawi, Niassa para os locais e para os moçambicanos (que têm soberania sobre 6400 km2 dos cerca de 30 mil km2 quadrados das suas águas), é o mar de água doce dos malawianos: em chewa ou nianja, uma das línguas faladas no país, Malawi quer dizer “chamas” e terão sido os reflexos no lago do sol a nascer que lhe terão valido o nome» («Malawi, o país-lago: da terra sai pouco e na água começa a escassear», António Rodrigues, Público, 24.03.2026, 22h02). 

      Estes jornalistas nem olham para os dicionários. É atar e pendurar. Podendo optar por Maláui e cheua, não senhor, querem o exotismo. Fazem mal. E ainda não perceberam que o 2 dos km é elevado, é um índice superior. Ou não o sabem fazer. Entretanto, quanto aos dicionários, há larguíssima margem para definir melhor ➜ nianja LINGUÍSTICA língua banta da África Austral, falada sobretudo no Maláui, na Zâmbia e no Norte de Moçambique, estreitamente relacionada com o cheua e frequentemente considerada a mesma língua, sendo «nianja» a designação mais usada em contextos zambianos e moçambicanos e «cheua» a mais corrente no Maláui.

[Texto 22 692]

Léxico: «drone vagante»

Estamos salvos


      «O anúncio surge no dia em que o Exército testou, pela primeira vez, um drone de ataque – também conhecido como “loitering munition” – num exercício multinacional com Espanha e França, num momento considerado inédito na força terrestre portuguesa» («Exército estreia drone de ataque “com sucesso”», Rádio Renascença, 25.03.2026, 21h12, itálicos meus). 

      Por vezes também chamado «drone suicida» ou «drone kamikaze», ainda mais ao gosto jornalístico, mas a designação mais adequada que se encontra é «drone vagante». Veremos como se desenrola isto.

[Texto 22 691]

Definição: «juiz social»

Não coadjuvam, não


      «Dois juízes sociais. O menor será julgado por um tribunal coletivo: uma juíza de carreira (a titular do processo) e dois juízes sociais (cidadãos, sem formação jurídica específica, nomeados para auxiliar os juízes de direito em tribunais de família e menores)» («Menor que matou mãe a tiro arrisca três anos fechado», Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 25.03.2026, p. 8). 

      Não encomendei a notícia, mas vem mesmo a calhar para corrigir e melhorar a definição de «juiz social», Porto Editora, já que na tua definição há três aspectos a rever: primeiro, a temporalidade não é constitutiva da figura, e tanto assim é que a duração rígida nem sequer é universalmente aplicável a todos os casos; segundo, afirmar-se que está lá para «coadjuvar os juízes de direito» é uma formulação equívoca, já que nos tribunais colectivos onde intervêm juízes sociais estes não são meros auxiliares, participam na decisão, com direito de voto, ainda que não exerçam funções técnicas de direcção do processo; terceiro, não são seleccionados, mas sorteados. 

      Tudo visto, proponho ➜ juiz social DIREITO cidadão sem formação jurídica específica, inscrito em listas oficiais e chamado por sorteio para integrar tribunais colectivos em determinadas matérias, nomeadamente em processos de família e menores e em certas áreas laborais, participando na apreciação dos factos e na decisão, com direito de voto igual ao dos juízes de carreira.

[Texto 22 690]

Erros de sempre e para sempre

Só veneno


      Fiquei com alguma vontade de ir ver a peça Veneno ao Teatro Aberto. Lê-se na página do teatro na internet: «Num diálogo de grande intensidade emocional, a peça Veneno (2009), da autora neerlandesa Lot Vekemans, revela os mistérios da alma humana e os modos complexos, muito diversos, como cada pessoa procura manter a esperança ao lidar com os revezes da vida.» Só espero que a autora, que vem cá assistir à estreia, não saiba português. Ou, vá, que saiba ainda menos do que o autor do texto. Vezes não são revezes, como se costuma dizer. Mentira: não diz nada. O que eu queria dizer é que não vou contar nada à autora. Ou será que vou mesmo? Of ga ik het toch doen?

[Texto 22 689]

Arquivo do blogue