Léxico: «cantautorismo»

Talvez pare por aqui


      «A visão que Seal tem da música revela um pensamento profundo sobre a arte, sobre o poder da música provocar emoções. No mesmo disco de 1994 em que surgem ‘Dreaming in Metaphors’ e ‘Kiss From a Rose’ há ainda uma discreta balada de título ‘If I Could’ em que a sua voz se cruza com a de Joni Mitchell, artista superlativa que também soube navegar entre uma visão personalizada do cantautorismo de tonalidades folk e um jazz mais exploratório» («Seal fora da caixa», Rui Miguel Abreu, «Revista E»/Expresso, 11.07.2025, p. 49). Se queres saber, Porto Editora, anda por aí há mais tempo do que a outra, «cantautoria».

[Texto 22 647]

O que se escreve por aí

Exactamente o mesmo


      «Depois dos rumores espalhados pelos meios de comunicação do Irão de que o primeiro-ministro israelita estaria morto, Benjamin Netanyahu publicou um vídeo a ridicularizar a situação, comentando que estava “mortinho por um café”. Enquanto pedia a bebida nos arredores de Jerusalém, o assessor do chefe de Governo israelita pergunta-lhe sobre os rumores e Netanyahu respondeu com um trocadilho, já que “morto”, no calão hebraico, também é uma palavra usada para descrever alguém que está “louco por” alguém ou alguma coisa» («“Sou louco por café, sou louco pelo meu povo”: Netanyahu publica vídeo a ironizar rumores de que estaria morto», Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 15.03.2026, 18h01).

      Calão... E como se em português não se dissesse exactamente o mesmo, Catarina Magalhães. O assessor, ouve-se no vídeo no X, menciona os rumores («Dizem que estás morto»), ao que Netanyahu responde assim: «Ani met... al kafe» (אני מת... על קפה). «Mortinho... por um café!» É coloquial.

[Texto 22 646]

Definição: «pedopornografia»

É ver o que a lei diz


      Algumas notícias atabalhoadas vieram dizer que no dia 3 de Abril termina uma derrogação do direito europeu que permite às plataformas digitais analisar automaticamente comunicações privadas, como mensagens e correio electrónico, com o objectivo de detectar conteúdos de pornografia de menores, pedopornografia. Trata-se de uma excepção às regras gerais de confidencialidade das comunicações, criada para possibilitar a identificação e sinalização desses materiais às autoridades competentes. Para meu grande espanto, a Porto Editora define assim «pedopornografia»: «1. actividade criminosa que consiste na produção de filmes, imagens ou outros elementos de cariz sexual explícito envolvendo crianças; 2. filme, imagem ou outro elemento de cariz sexual explícito envolvendo crianças». Consiste na produção? E então o resto? Assim, proponho ➜ pedopornografia 1. DIREITO actividade criminosa que consiste na produção, distribuição, difusão, disponibilização, aquisição ou detenção de materiais de carácter sexual explícito envolvendo menores, incluindo a sua representação real ou simulada; 2. material de carácter sexual explícito envolvendo menores, nomeadamente imagens, vídeos ou outros suportes visuais ou audiovisuais, enquanto objecto de tais práticas.

[Texto 22 645]

Léxico: «salamalé | salame»

Nem doce nem salgado


      Eça usa mais de uma vez «salamalé», variante de «salamaleque», que não registas, Porto Editora. Como não registas ainda outra variante — e esta não escapou a Rebelo Gonçalves, que a acolhe no seu Vocabulário da Língua Portuguesa —, «salame». Em português é tudo assim, no mínimo duplo.

[Texto 22 644]

Definição: «alho-de-urso»

Característica crucial


      «Et puis l’ail des ours, Allium ursinum, qui pousse en vertes colonies dans les sous-bois humides. Comme son nom l’indique, cette feuille-là appartient à la famille des aulx, tout en présentant une saveur plus délicate et spirituelle que la vieille gousse de culture. Mais gare! L’ail des ours ressemble comme deux gouttes de cyanure au muguet. Et le muguet, c’est poison. Le truc pour éviter l’agonie, la souffrance et autres menus tracas, c’est la reniflette. On froisse la feuille avec sa menotte. L’ail des ours sent l’ail (pas l’ours). Le muguet, non. Na!» («L’ail des ours, le copain du printemps», Jérôme Estèbe, Le Matin Dimanche, 15.03.2026, p. 43). 

      Ora, Porto Editora, na definição (que, aliás, tem uma gralha) tu nem sequer mencionas o odor, única característica que, à vista desarmada, o distingue do lírio-do-vale. Assim proponho ➜ alho-de-urso BOTÂNICA (Allium ursinum) planta herbácea perene da família das Amarilidáceas (tradicionalmente incluída nas Aliáceas), com bolbo alongado, caule que pode atingir cerca de 40 cm de altura, inflorescência em umbela hemisférica com flores brancas estreladas e folhas largas, ovadas a elípticas, de odor intenso a alho quando esmagadas; cresce espontaneamente em bosques húmidos e sombrios, sendo utilizada em culinária e na medicina tradicional; é frequentemente confundida com o lírio-do-vale (Convallaria majalis), planta tóxica, de que se distingue pelo cheiro a alho das folhas esmagadas.

[Texto 22 643]

Léxico: «bindi | tilak»

Ainda na Índia


      Eis que alguém se enganou (eu sei: acontece aos piores) no género de bindi, oportunidade também para o definirmos melhor, já que no dicionário da Porto Editora se afirma que é de uso «sobretudo» entre as mulheres. O uso contemporâneo não é esse. Assim, proponho ➜ bindi RELIGIÃO, CULTURA ornamento, geralmente de cor vermelha, colocado no centro da testa por mulheres e meninas em diversas culturas da Ásia Meridional, tradicionalmente associado ao estatuto matrimonial no caso das mulheres hindus, mas hoje também usado como elemento decorativo; pode ser feito com pó colorido ou consistir num pequeno adesivo; distingue-se do tilak, marca ritual de natureza religiosa usada por homens e mulheres. 

      E, assim, ➜ tilak (ou tika) RELIGIÃO marca ritual aplicada na testa com substâncias como pasta de sândalo, cinza sagrada ou pó vermelho (kumkum), usada por homens e mulheres em contextos devocionais; pode assumir diversas formas (ponto, traço ou linhas) e indicar pertença religiosa.

[Texto 22 642]

Etimologia: «evoé»

Vamos dizer mais


      «Finda todavia o ano de 57 soltando um evoé quase dionisíaco à vida, parêntesis optimista raro quando se refere à sua pessoa: Que lindos dias! Como é donoso o sol, meu Barbosa! O sol e as mulheres não é o mais lindo que o mundo tem?» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Está nos dicionários, mas a etimologia deixa muito a desejar. Do lat. evŏe, interjeição usada nas festas em honra de Baco, do gr. εὐοῖ (euôi), variante εὐοῖε (euôie), grito ritual pronunciado nas bacanais e outros cultos dionisíacos; composto de εὖ (eu, «bem, de modo favorável») e elemento exclamativo -οἶ/-οἶε, típico de invocações religiosas. Entrou no português por via erudita, conservando o valor de aclamação jubilosa, sobretudo em contextos festivos ou artísticos.

[Texto 22 641]

Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

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