Como se escreve por aí

Pormenores, mas relevantes


      «Não há uma segunda oportunidade para causar a primeira impressão e o Presidente António José Seguro aproveitou bem a sua tomada de posse. No discurso, ao falar da desordem no mundo, citou o filósofo inglês Thomas Hobbes, que chamou ao homem “lobo do homem”» («Os lobos dos homens», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 17.03.2026, p. 3). Por pouco acertava. Aqui, a indeterminação é a chave: «Não há segunda oportunidade para causar uma primeira impressão.» Quanto à frase sobre o homem ser o lobo do homem, foi popularizada por Thomas Hobbes (1588-1679), mas é, como se sabe, de Plauto (254-184 a. C.): «Lupus est homo homini, non homo, quom qualis sit non novit.» («Um homem é um lobo para outro homem, e não um homem, quando não sabe com quem está a lidar.») Mas depois veio Rousseau e pôs as coisas nos termos que, a meu ver, são os correctos.

[Texto 22 640]

Definição: «nivação»

Nivation, nivación, nivazione, Nivation


      «Nivation is defined as the erosion of the ground beneath and around a snow bank, primarily as a result of alternate freezing and thawing. This can form a nivation hollow, which gradually becomes deeper when snow repeatedly accumulates in the same place» («Ice patches on melting glaciers greater threat than thought: ISRO scientists», Meena Menon, The Hindu, 16.03.2026, p. II). 

       A Porto Editora faz muito mal ao ter em «nivação» um verbete vazio, pois remete simplesmente para «nevação» e só neste, na segunda acepção, se lê este que é um conceito existente em várias línguas: «erosão provocada pela neve; nivação». Desperdiça assim um verbete, que devia reservar para ➜ nivação GEORMORFOLOGIA processo de erosão e meteorização do solo que ocorre sob ou nas margens de manchas de neve persistente, provocado sobretudo por ciclos alternados de congelação e degelo, pela água de fusão e pela acumulação repetida de neve, originando frequentemente depressões características denominadas cavidades ou nichos de nivação.

[Texto 22 639]

Léxico: «xátria | varna»

Entretanto, na Índia


      E quando encontramos xátrias numa obra e, logo por azar, está mal definido no dicionário? O que dizemos? Talvez @#%!&*! A Porto Editora garante-nos que é o «membro da segunda casta dos guerreiros em que se dividem os sectários do bramanismo». Para começar, parece-me muito discutível que se possa falar em sectários do bramanismo. Mas isso é o menos. Tudo visto, proponho (e que Vixnu nos valha) ➜ xátria RELIGIÃO, HISTÓRIA membro da segunda das quatro varnas da sociedade tradicional hindu, associada ao exercício do poder político e militar; inclui reis, governantes e guerreiros, situando-se hierarquicamente abaixo dos brâmanes e acima dos vaixás e sudras.

      Aliás, duplo azar: se vejo «varna» no VOLP da Academia Brasileira de Letras, nem rasto dele nos nossos dicionários. Não sei o que andámos a fazer lá pelas Índias quase cinco séculos, se não foi para conhecer mais mundo e apreendê-lo pela língua. Assim, proponho ➜ varna RELIGIÃO, SOCIOLOGIA cada uma das quatro grandes categorias hereditárias da estratificação social tradicional do hinduísmo — brâmanes, xátrias, vaixás e sudras — associadas a funções rituais e sociais específicas e organizadas numa hierarquia religiosa e social.

[Texto 22 638]

Léxico: «nassa | alcatruz | andiche | endiche»

Não seria o primeiro caso


      «El año pasado se decomisaron en Galicia más de 15.000 chismes de los que se emplean para la captura clandestina de pulpo. Se trata de los conocidos como cacharros, nasas portuguesas y alcatruces, que en otros lugares reciben el nombre de cadufos. La Xunta prohíbe su uso, pero están permitidos en varias comunidades y en Portugal. De hecho, se fabrican en España y pueden adquirirse por menos de cinco euros. Tienen forma de vasijas de boca ancha y son de plástico o de barro. Los pulpos, inocentes, los utilizan para desovar y como refugio donde protegerse de sus depredadores» («Una trampa para pulpos», Francisco Ríos, La Voz de Galicia, 14.03.2026, p. 16). 

      Por um pouco e em Espanha sabem mais das nossas coisas do que nós. Para começar, definimos mal «nassa», pois nem sequer dizemos o nome da parte afunilada. Termo, aliás, que nem sequer levámos para os dicionários, e está, por exemplo, na Portaria 1102-D/2000. Assim, proponho ➔ nassa PESCA armadilha de pesca, geralmente em forma de cesto ou gaiola, feita de verga, rede, arame ou material semelhante, dotada de uma ou mais entradas afuniladas (endiches ou andiches) que permitem a entrada do animal mas dificultam ou impedem a sua saída. 

       O que nos obriga a dicionarizar também ➔ andiche ou endiche PESCA estrutura de entrada situada na boca de certas armadilhas de pesca, como as nassas, destinada a dirigir a entrada do peixe ou de outros animais aquáticos e a dificultar-lhes a saída. 

      E assim também o regionalismo «alcatruz» merece ser reformulado e enriquecido, o que faremos desta maneira ➔ alcatruz PESCA recipiente de barro, plástico ou material semelhante, geralmente em forma de vaso de boca larga, usado na pesca do polvo como abrigo artificial colocado no fundo do mar, onde o animal se refugia e é posteriormente recolhido pelo pescador.

[Texto 22 637]

Definição: «lontra-europeia»

Só por isso já é útil


      Também se pode dizer mais, evidentemente, da simpática ➜ lontra-europeia ZOOLOGIA (Lutra lutra) espécie de mustelídeo de porte médio e distribuição paleárctica, presente em Portugal, onde habita sobretudo cursos de água doce; atinge cerca de 70 cm de corpo e 40 cm de cauda, tem membranas interdigitais, garras fortes e pelagem impermeável, sendo exímia nadadora e caçadora de peixes, crustáceos e outras pequenas presas aquáticas; adapta-se a águas interiores e costeiras e alimenta-se hoje também do invasor lagostim-vermelho-da-luisiana (Procambarus clarkii), que constitui uma importante fonte alimentar.

[Texto 22 636]

Léxico: «anúncio-relâmpago»

Mais relâmpagos


      «Há quase oito meses, Fernando Alexandre, ministro da Educação, Ciência e Inovação, fazia o anúncio-relâmpago: a organização do ministério ia ser reformada e, com isso, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) seria extinta – unindo-se à Agência Nacional de Inovação num novo organismo» («Oito meses após a morte da FCT, Governo pede análise ao sistema de ciência e inovação», Tiago Ramalho, Público, 24.02.2026, 9h30).

[Texto 22 635]

Definição: «camilianista | amação»

O mesmo tratamento


      Como é que queirosiano é «1. que ou aquele que é admirador da obra de Eça de Queirós; 2. que ou aquele que é estudioso da obra de Eça de Queirós» e camilianista é tão-só a «pessoa admiradora de Camilo e que se dedica ao estudo das suas obras»? Como, Porto Editora? Sim, o caminho certo é separar o amor (ou — aponta aí — a amação) do estudo.

[Texto 22 634]

Definição: «pi»

Venham mais dias


      Como talvez saibam, no sábado assinalou-se o Dia Internacional do Pi, ocasião para corrigirmos e melhorarmos a definição de pi no dicionário da Porto Editora, que apresenta pelo menos três erros graves: identificação errada da letra grega; formulação enganadora «equivalente a 3,1416»; uso da expressão «perímetro da circunferência». Sendo assim, e omitindo a explicação de outras alterações a que procedi, proponho ➔ pi MATEMÁTICA décima sexta letra do alfabeto grego (π, Π), usada em matemática para designar a constante matemática definida pela razão entre o comprimento de qualquer circunferência e o seu diâmetro; número irracional cujo valor aproximado é 3,1416 e cuja representação decimal é infinita e não periódica.

[Texto 22 633]

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