Léxico: «olisipologia | olisipólogo»

Alguém anda distraído


      «Sobre o projecto para o Museu do Aljube — Resistência e Liberdade, esta olisipóloga com especialidade em museologia (fez a parte curricular de um doutoramento na área na Universidade Lusófona) diz que lhe interessam, em particular, as histórias que os objectos podem contar» («Miguel Loureiro assume Teatro do Bairro Alto, Anabela Valente dirige Museu do Aljube», Isabel Salema, Gonçalo Frota e Mário Lopes, Público, 14.03.2026, p. 44). 

      O que pressupõe, claro, o termo «olisopologia». De alguma maneira, até faz mais sentido — ora pensem — usar-se «olisipólogo», que aparece na imprensa de quando em quando, do que «olisipógrafo», e, contudo, nenhum dicionário os acolhe. Neste artigo aparece duas vezes, e já na edição digital de anteontem aparecia. Em notícias com mais de vinte anos vejo o jornalista Appio Sottomayor apresentado como olisipólogo, o que demonstra que isto não surgiu hoje.

[Texto 22 631]

Léxico: «literatês»

Ora, ora... e se fosse físico?


      Do X: «O MNE @PauloRangel_pt lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, vulto maior da literatura portuguesa. Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa.» Como falam de um escritor, acham que têm de se exprimir em literatês. E já que uso o termo: «Proponho que me expliquem, com muito cuidado e jeitinho e com um grande respeito pelo significado das palavras, o que quer dizer toda aquela algaraviada, vestida de pompas e significando nada. Prometo não dar quartel e aviso que sou um leitor bem treinado. Mas gosto de falar português limpo e asseado e não literatês» (Vamos Ler: um cânone para o leitor relutante, Eugénio Lisboa. Lisboa: Guerra e Paz, 2021, p. 64).

[Texto 22 630]

Léxico: «crono | promo»

Mas encontramo-las, usamo-las


      «Volta a Portugal. Nich arrasa no crono e assina maior vitória da carreira» (Jornal de Notícias, 5.08.2024, p. 1). Então vamos lá ver: há décadas que ouço a redução vocabular crono neste sentido, e nos dicionários, silêncio. Não apenas temos poucas, comparando com outras línguas, como essas poucas não as dicionarizam. Outra: nos últimos tempos, ouço muito a Rádio Observador (um exercício que nem sempre me faz bem à saúde), e já mais de uma vez ouvi por lá a redução vocabular promo. E está nos dicionários? Não está.

[Texto 22 629]

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P. S.: Já não tropeçava há muito com esta prova cabal de ignorância, pelo que tenho de dar aqui nota dela, não vão os meus ingénuos leitores pensar que isto desapareceu. Numa tradução, apareceu-me uma mulher que «foi apedrejada pelo simples fato de ter usado minissaia». Também fui tomado por uma fúria épica, tanto mais que é dessas tradutoras com décadas de actividade. Em vão.


Léxico: «pavidez | papel-holanda»

Outra que nos surripiaram


      «Há uma antipatia visceral do nosso povo pelos homens dos pretórios, misto de apreensão e pavidez» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 29).

[Texto 22 628]

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P. S.: Porto Editora, ainda estou a processar que não tenhas dicionarizado «papel-tojal». (Entretanto, contudo, vai aparecer por aí.) Por essa ordem de ideias, também não se tinha levado para os dicionários «papel-japão», por exemplo, ou «papel-holanda». Espera... Este, na verdade, não o tens, pelo que ➔ papel-holanda tipo de papel vergé de grande qualidade, fabricado tradicionalmente na cuba, de superfície firme e com vergaturas visíveis; foi amplamente utilizado na impressão de obras de luxo e em tiragens especiais.

Léxico: «neurocerebral»

Mais uma em falta


      «Sim, neurocerebrais e cognitivas, porque há uma ligeira alteração de frequência cardíaca e da respiração. O vermelho também é a cor da sensualidade. Há estudos que dizem que os homens abordam mais mulheres quando estas estão de vermelho, seja na roupa ou num batom – ainda que o visual totalmente vermelho possa ser intimidante. As cores têm a sua luz e a sua sombra. Por exemplo, o preto é um tom elegante. Se olharmos para história do preto, foi sempre usado como símbolo do luto até a [Coco] Chanel o trazer para a moda. E depois vem a princesa Diana e usa o “vestido da vingança” no dia que descobre que é traída e reforça a tonalidade como símbolo de poder. Mas, se estou toda de preto e a minha postura está fechada, a comunicação que vou passar não é de sensualidade, mas de que estou inacessível» [afirma a psicóloga e neurocientista Maria Klien, em entrevista]» («“Psicologia da moda é a comunicação de quem somos, mas também de quem queremos parecer ser”», Inês Duarte de Freitas, Público, 13.03.2026, 17h39).

[Texto 22 627]

Léxico: «trinocular»

Só queremos o adjectivo


      Olha aqui no Aliexpress, um bom microscópio trinocular. Pois, não preciso, apenas de ➔ trinocular ÓPTICA que possui três tubos de observação ou vias ópticas; diz-se especialmente de microscópio ou de cabeça de microscópio com dois oculares para observação binocular e um terceiro tubo destinado à ligação de câmara fotográfica ou digital ou a outros dispositivos de registo de imagem.

[Texto 22 626]

Léxico: «subfundo»

Escavando, encontra-se sempre


      Um leitor perguntou-me, e citava uma frase de um artigo de jornal («Tudo sob um pano de fundo feito de lideranças que ensimesmam os interesses dos países e moldam a política externa em conformidade, hostilizando quem aparecer pelo caminho», «Quantas caras tem a Europa?», Paulo Vila Maior, Público, 12.03.2026, 5h45), se a preposição certa não era «sobre». Respondi-lhe que a usada era a preposição correcta, embora eu prescindisse dela ali, porque optaria por outra redacção. Replicou-me então: «Mas o que fica debaixo do fundo?» Só que, respondi e repito agora, não é «fundo», é «pano de fundo», e num sentido figurado. Fosse ele fundo, como fundo da gaveta, e ainda poderíamos ter subfundo, que de facto existe, mas noutro sentido. Ora, no verbete de «submundo», a Porto Editora mostra as palavras parecidas com «submundo» — e lá está subfundo. Agora só falta dicionarizá-la. Voltando à dúvida do leitor, é como digo — sob um pano de fundo: «Os romances Crónica do Tempo (1990), O Chão Salgado (1992) e O Senhor das Ilhas (1994) — este último filiando-se no romance histórico —, dão-nos com maior limpidez, e também com alguns embaraços metaficcionais, as coordenadas dos romances anteriores da autora, esse erguer de um mundo que se tenta manter equidistante do telúrico e do adensar psicanalítico, para conseguir entrecruzar, sob um pano de fundo sociologicamente reconhecível, histórias singulares que persistem na demanda da liberdade possível e na interrogação acerca dos consentimentos necessários e inevitáveis» (História da Literatura Portuguesa: As Correntes Contemporâneas, Vol. 7, Óscar Lopes. Lisboa: Publicações Alfa, 2002, p. 521).

[Texto 22 624]

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