Etimologia: «evasão»

Avancemos


      «Un détenu s’est évadé grâce à des complices ayant présenté de faux documents aux autorités pénitentiaires. Le mot vient du verbe latin vadere, qui signifie “aller, s’avancer”. Le détenu s’en est allé. On aimerait qu'il revienne et qu’on n’en entende plus parler : vade retro, pour ainsi dire» («Évasion», Étienne de Montety, Le Figaro, 12.03.2026, p. 34).

      É o sinal para passarmos a dizer alguma coisa de útil na etimologia de «evasão», e não meramente que vem do latim evasiōne. Assim, proponho: do latim evasio, -onis, «fuga, saída», derivado de evadere, «sair, escapar», formado por e- (de ex-, «para fora») + vadere, «ir, avançar».

[Texto 22 615]

Como se pensa e escreve por aí

Preguiça, a líder suprema


      «Portugal sem defesa anti-míssil de médio e longo alcance» (Helena Pereira, Público, 9.03.2026, p. 10). Título com avaria que já vem da primeira página. É até espantoso que no mesmo artigo escrevam bem uma palavra com o mesmo sufixo, tanto mais que o segundo elemento começa com vogal: «Portugal tem identificado há vários anos uma das suas fragilidades em termos de defesa e é na defesa antiaérea, ou seja, na protecção contra ameaças vindas do ar.» Quando seria muito mais normal, porque habitual, que a dúvida estivesse na ortografia da segunda, eis que a jornalista nos surpreende ao errar na primeira. Não tem, contudo, desculpa, porque, em qualquer caso, bastava consultar um dicionário, o que nos dias que correm se pode fazer sem nos levantarmos da cadeira nem tirar os olhos do ecrã à nossa frente.

[Texto 22 614]

O que se escreve por aí

Mas não existem, claro


      João Caupers, jurista, antigo presidente do Tribunal Constitucional e ex-conselheiro de Estado, que mantém no Diário de Notícias uma crónica semanal, veio expender uma tese estrambótica (extravagante, esquisita, ridícula, estrambólica...) até mais não: não existem sinónimos. Mais: se existissem, o que nega, seriam desnecessários. Embora, já mais perto do fim do que do princípio, afirme que não é linguista (ah!), sempre vai avançando para o desenlace, que não é outro que não aquele que já adiantei, mas não quero que fique aqui apenas a minha interpretação: «Numa breve investigação que fiz recentemente, encontrei, em decisões judiciais, as palavras esquivamento, ajuizamento e lesionamento (entre outras). Se existirem, serão sinónimos, respectivamente, de esquiva, juízo e lesão. Não terão outra utilidade a não ser dificultar a compreensão do texto» («Palavrões», João Caupers, Diário de Notícias, 12.03.2026, p. 4).

[Texto 22 613]

Léxico: «fazer nené»

Estamos tramados


      «Foi talvez uma ilusão; mas pareceu-me que um sino, de boca tão vasta como o mesmo céu, badalava na escuridão, através do Universo, num tom temeroso que decerto foi acordar sóis que faziam nené e planetas pançudos ressonando sobre os seus eixos...», escreveu Eça na obra O Mandarim. Mas o que é isto? Dicionários brasileiros tentam (e quase acertam) explicar o que significa fazer nené e os nossos não acertam porque nem tentam?

[Texto 22 612]

Léxico: «e viva o velho»

Ajudemos os aprendentes da língua


      «Liam o folhetim do Comércio do Porto, nas horas vagas, e viva o velho» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 151).

[Texto 22 611]

Léxico: «cetótico»

Duas perguntas


      A primeira pergunta é — onde pára o adjectivo cetótico, Porto Editora? A segunda, mas não para ti, é: quando vamos jantar?

[Texto 22 610]

Léxico: «electroestado»

Lá chegaremos


      «Uma nova forma de bipolaridade energética dos países está a gerar tensão. De um lado da corrente, os petroestados (Estados Unidos, Rússia e Arábia Saudita) crescem na exploração, refinação e exportação de combustíveis fósseis. No campo eléctrico, os países em transição para electroestados (China, União Europeia, Brasil) estão a construir domínio por meio da electrificação, energias renováveis em larga escala e controlo sobre as cadeias de fornecimento de tecnologia verde» («A era da electricidade verde», Carlos Reis, Além-Mar, Março de 2026, p. 19). 

      Também achávamos estranho, lembro-me bem, «petroestado», e até «narcoestado», e ei-los aí por todo o lado, e desde logo nos dicionários. Mas é como se diz: primeiro estranha-se, e depois fechamos a matraca.

[Texto 22 609]

Como se pensa por aí

Cada cabeça, etc.


      «Foi na juventude que se iniciou no boxe de competição, actividade que acabaria por lhe dar a alcunha, dentro do partido, de boxeur — embora usada pejorativamente para descrever o seu carácter impetuoso e emotivo» («O grande estratega que teve “uma espécie de segunda vida”», Ana Sá Lopes, Público, 8.03.2026, p. 13). Pejorativo, hein? Converse aqui com o seu colega: «Nuno Morais Sarmento, advogado e dirigente histórico do PSD, morreu ontem aos 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, deixando uma marca de combatividade política que lhe valeu dentro do partido o nome carinhoso de “boxeur”» («Morais Sarmento não resistiu ao último combate», António José Gouveia, Jornal de Notícias, 8.03.2026, p. 30).

[Texto 22 608]

Arquivo do blogue