Como se pensa por aí

Cada cabeça, etc.


      «Foi na juventude que se iniciou no boxe de competição, actividade que acabaria por lhe dar a alcunha, dentro do partido, de boxeur — embora usada pejorativamente para descrever o seu carácter impetuoso e emotivo» («O grande estratega que teve “uma espécie de segunda vida”», Ana Sá Lopes, Público, 8.03.2026, p. 13). Pejorativo, hein? Converse aqui com o seu colega: «Nuno Morais Sarmento, advogado e dirigente histórico do PSD, morreu ontem aos 65 anos, vítima de cancro no pâncreas, deixando uma marca de combatividade política que lhe valeu dentro do partido o nome carinhoso de “boxeur”» («Morais Sarmento não resistiu ao último combate», António José Gouveia, Jornal de Notícias, 8.03.2026, p. 30).

[Texto 22 608]

Desempoeirar o léxico: «hígido»

Faz bem


      De quando em quando, Hélio Schwartsman usa termos que mais ninguém, nem no Brasil nem em Portugal, usa, e faz bem, é uma forma de os dar a conhecer: «Desde que o falante se faça compreender, ninguém perde nada. Idiomas são a prova de que a autogestão pode funcionar. Milênios antes de nascer o primeiro gramático prescricionista, grupos humanos já se organizavam para manter línguas, todas elas munidas de gramáticas completas, que lhes permitiam comunicar qualquer ideia concebível e algumas inconcebíveis. As regras inventadas por acadêmicos servem para marcar distinções sociais, mas não tornam o idioma melhor nem mais hígido» («O anarquismo que funciona», Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo, 21.02.2026, p. A3). No caso, por sorte, está nos nossos dicionários.

[Texto 22 607]

Léxico: «marialvice»

Fora dos dicionários!?


      «No filho dilecto espessava-se cada vez mais a loucura, no filho segundo a marialvice» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, pp. 147-48).
[Texto 22 606]

Léxico: «curva cega»

O mesmo direito, a mesma necessidade


       «De acordo com a GNR, a ‘Operação Roca e Guincho em Segurança’ teve “como principal objetivo prevenir comportamentos de risco associados à condução agressiva e ao excesso de velocidade”. A GNR alerta que o elevado volume de tráfego e as características destas vias (com retas e curvas cegas) “exigem especial atenção à segurança rodoviária e ao cumprimento das regras de circulação”» («Motards aceleram no cabo da Roca», Correio da Manhã, 11.03.2026, p. 16). 

      Curva cega. Devia estar nos dicionários, como lá está (no caso do dicionário da Porto Editora, até talvez tenha sido eu a sugeri-lo, mas isso é o que menos importa — o que importa é que se faça, não quem faz, como digo sempre) janela cega, por exemplo.

[Texto 22 605]

Léxico: «papel-tojal»

Vamos lá ajudar os leitores


      Lendo, relendo, revendo obras (entre as quais de Eça, onde se encontra) do século XIX, encontro várias ocorrências de «papel Tojal». Reparem na ausência de preposição. Dado que nas edições modernas dessas obras nunca vejo uma nota de rodapé a explicar o que é, podíamos presumir que todos os leitores sabem do que se trata — menos eu, justamente. Só saberão, palpita-me, enquanto não se lhes perguntar. Pois bem, esta inércia muito portuguesa e muito estúpida vai levar agora um abanão: não apenas vou passar a grafar «papel-tojal», sendo consequente com o início de lexicalização que a ausência de preposição pressupõe, como proporei a dicionarização do termo. Assim, já o leitor moderno passará a dispor de uma forma fácil e fiável de saber o que é ➔ papel-tojal papel de escrita fabricado na antiga Fábrica de Papel do Tojal (São Julião do Tojal, Loures), tradicionalmente produzido com trapos de linho ou algodão, usado em Portugal sobretudo no século XIX em correspondência e expediente administrativo do Estado.

[Texto 22 604]

Léxico: «subestabelecer | subestabelecimento»

Ah, as variantes


      Pois é, Porto Editora, acolhes «substabelecer» e «substabelecimento», mas também existem as variantes subestabelecer e subestabelecimento e não as registas. «Mas era razoável solicitar-lhe o subestabelecimento, tratando-se dum sacerdote zeloso na prática das suas obrigações e admirador do romancista?» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 248).

[Texto 22 603]

Extras! Extras! Extras!

Hoje são serviços


      «Perante três ofertas, onde deve o consumidor português investir o dinheiro? A resposta depende menos da música disponível — que é virtualmente a mesma em todos — e mais da qualidade do som, do preço mensal, dos serviços extras e do tipo de dispositivo que o utilizador traz no bolso» («Spotify, Tidal ou Apple Music? Qual a melhor escolha», Sérgio Magno, Público, 9.01.2026, p. 39).

[Texto 22 602]

Léxico: «corriola-do-espichel | arrabidense»

Mais dois tijolos


      «Há espécies vegetais que só existem na zona da Arrábida. É o caso da corriola-do-espichel (Convolvulus fernandesii), um arbusto com flores brancas que ocorre em afloramentos calcários que, segundo o Instituto para a Conservação da Natureza e da Floresta (ICNF), é um caso “notável” de endemismo arrabidense» («UNESCO considerou a Arrábida uma “jóia costeira», Andréia Azevedo Soares, Público, 28.09.2025, p. 17).

[Texto 22 601]

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