O nome dos principais mares

Estava aqui a pensar


      Já pensaram porque temos o mar Vermelho, o mar Amarelo, o mar Negro e o mar Branco? E é assim há muitos séculos e em várias línguas: Red Sea, mer Rouge, Mar Rosso, Schwarzes Meer, White Sea. A ideia de identificar certos mares por cores está dispersa por grande parte da tradição geográfica do mundo. Só há explicação segura, unívoca, para dois deles: o mar Amarelo e o mar Branco. O primeiro deve a cor aos enormes sedimentos, vemo-lo em reportagens na televisão, que o rio Huang He (o rio Amarelo) arrasta das planícies da China e que ficam em suspensão na água, dando-lhe um tom amarelo-acastanhado. O segundo fica no Noroeste da Rússia, ligado ao oceano Árctico, e passa longos meses do ano rodeado ou coberto de gelo e neve. Já os outros dois entram no território das hipóteses. O nome mar Vermelho tem sido explicado de várias maneiras. Uma delas aponta para florações de uma cianobactéria (Trichodesmium erythraeum) que por vezes tingem a água de tons avermelhados. Outra hipótese é simbólica: em certas tradições asiáticas antigas, as cores estavam associadas aos pontos cardeais, e o vermelho correspondia ao sul, direcção onde esse mar se encontra relativamente ao mundo mediterrânico. O mar Negro também tem explicações concorrentes. Pode dever o nome ao aspecto muito escuro das águas durante tempestades frequentes e violentas. Mas há quem pense que o nome segue o mesmo sistema simbólico: em várias culturas da Ásia Central e turcas antigas, o preto correspondia ao norte. No fim de contas, aquilo que parece uma explicação evidente, mares com nomes de cores, revela-se bastante menos claro quando se procura a origem dos nomes. Em dois casos a explicação é simples; nos outros, ficamos apenas com conjecturas. O que nos conduz a uma conclusão: muitos dos nomes mais familiares da geografia mundial são muito mais antigos do que as explicações que hoje tentamos dar-lhes. Os nomes ficaram, as razões perderam-se quase por completo.

[Texto 22 600]

Léxico: «dessoldagem»

O verbo já nós o temos


      «O problema dos resíduos electrónicos resulta da reciclagem no sector informal ou do depósito em aterros sanitários. A reciclagem informal recorre a técnicas grosseiras para recuperar metais com valor comercial, oferecendo enormes riscos para a saúde, tanto a dos recicladores como a das pessoas que vivem nas imediações. A reciclagem informal envolve processos como não só a dessoldagem de placas de circuitos, que liberta chumbo, cádmio e outros metais, mas também a queima do revestimento plástico de fios e cabos para a obtenção do cobre [afirma o investigador Peter Sly, em entrevista]» («“O lixo electrónico depositado em aterros pode lixiviar metais para o solo e a água”», Andréia Azevedo Soares, Público, 16.04.2025, p. 29).

[Texto 22 599]

Definição: «Casa Militar»

Assim é que é


      António José Seguro escolheu o tenente-general Maia Pereira para chefe da Casa Militar. Uma vez que anda mal definida nos nossos dicionários, proponho ➔ Casa Militar POLÍTICA estrutura da Presidência da República composta por oficiais das Forças Armadas, designadamente o chefe da Casa Militar e os ajudantes-de-campo do Presidente da República, que assistem o chefe de Estado no exercício das suas funções de comandante supremo das Forças Armadas, asseguram a ligação institucional com as autoridades militares e desempenham funções de representação e acompanhamento em actos oficiais.

[Texto 22 598]

Como se escreve por aí

Pois, mas saiu mal


      «A Casa Branca bem pode desejar a deposição do feroz regime teocrático iraniano, substituindo-o por um governo submisso aos seus ditames, mas os especialistas no Médio Oriente sustentam que esse cenário é pouco provável e que os dois cenários mais viáveis são bem diferentes: um será o reforço da teocracia, bem musculada com a sua Guarda Revolucionária, e o outro a eclosão da República Islâmica do Irão, mergulhando o país num caos» («Cenários de guerra», Carlos Fiolhais, Correio da Manhã, 10.03.2026, p. 2).

      Tenho a certeza, como não, de que o Prof. Carlos Fiolhais sabia muito bem o que queria escrever — mas errou na palavra que escolheu, que se devia reservar, por precaução mínima, para quando nos referimos aos pintainhos. Como seria de esperar, o temor reverencial do revisor impediu-o de corrigir a frase, que, assim, diz exactamente o contrário do que o autor pretendia. Já um pouco atrás o revisor, ou por ignorância ou por temor, deixara passar outro erro: «Os EUA iniciaram a ofensiva invocando a capacidade – não provada! – dos iranianos construírem ogivas nucleares.» Aqui foi a interposição dos parênteses que os obnubilou. Em suma, a língua está a revelar-se mais difícil do que a Física.

[Texto 22 597]

Como se escreve por aí

Observa bem


      «“Não há primeiras damas no nosso país”, disse Margarida Maldonado Freitas aos jornalistas, na noite em que o marido, António José Seguro, venceu as eleições Presidenciais, em fevereiro. “Portanto… eu acompanharei o meu marido, mas não há primeiras damas”, completou a mulher do Presidente agora empossado — e esta segunda-feira, 9 de março, dia da posse, assim o fez» («Os corações de Viana e o azul de Melania e Brigitte. As escolhas de Margarida Maldonado Freitas para a tomada de posse de Seguro», Sâmia Fiates, Observador, 9.03.2026, 18h41). 

      Muito bem, não há, não há. Não se fala mais nisso. Mas, ó Observador, hífen há ali naquela palavrinha: primeira-dama. Ainda queria que fosse no meu tempo termos um primeiro-cavalheiro. A Porto Editora tem tudo preparado, anda mais próvida, e assim primeira-dama é a «mulher ou companheira de chefe de Estado» e primeiro-cavalheiro o «marido ou companheiro de chefe de Estado».

[Texto 22 596]

Definição: «código QR»

Falta um elemento caracterizador


      Ao contrário dos códigos de barras tradicionais, que apenas permitem detectar erros de leitura através de um dígito de controlo e deixam de ser legíveis quando parte do código está danificada, os códigos QR incorporam mecanismos de correcção de erros que possibilitam a reconstrução dos dados mesmo quando o símbolo se encontra parcialmente deteriorado ou oculto. Além disso, por se tratar de um código bidimensional, organizado numa matriz de módulos, o código QR pode armazenar uma quantidade de informação significativamente maior do que os códigos de barras lineares. A actual definição do dicionário da Porto Editora não menciona estes aspectos técnicos, que constituem características distintivas deste tipo de código, e por isso proponho ➔ código QR código bidimensional de resposta rápida (do inglês Quick Response), constituído por uma matriz quadrada de módulos (quadrados) pretos e brancos que codificam dados legíveis por dispositivos de leitura óptica, como câmaras de smartphones; incorpora mecanismos de correcção de erros que permitem a leitura mesmo quando o código está parcialmente danificado.

[Texto 22 595]

Léxico: «agama-cabeça-de-sapo»

Toma este lagarto


      «No estudo, os investigadores salientam que “explorar a evolução das redes genéticas associadas à homeostase metabólica/energética pode fornecer informações importantes sobre os cenários adaptativos que regem a fisiologia das linhagens existentes” e dizem ter examinado genomas de 112 espécies que compreendem membros das ordens Squamata, Testudines, Crocodilia e Rhynchocephalia, fornecendo provas de que a grelina “foi perdida independentemente em serpentes (32 espécies), camaleões (quatro espécies) e agamas-cabeça-de-sapo (duas espécies)”» («Serpentes perderam “hormona da fome” e tornaram-se especialistas em jejum», Filipa Almeida Mendes, Público, 9.03.2026, p. 26).

[Texto 22 594]

Etimologia: «cepticismo»

Não se omita o que importa


      «La palabra escepticismo en nuestra lengua señala una actitud de crítica y cuestionamiento necesario para la contemplación y la comprensión del mundo: tanto a la hora de examinar la realidad o la veracidad de las cosas en la duda necesaria y razonable de los que filosofan. ¡Qué necesario es esto en tiempos de posverdad! Con tanta desinformación que nos atosiga desde todos los medios, digitales o analógicos, no está de más volver a la sana duda del escepticismo y su idea de serenidad e indiferencia. La palabra viene de una raíz griega (con verbos como “skopeo” y “skeptomai”) que hace referencia a la mirada y la observación, y de la que viene el adjetivo “skeptikós” como aquel que examina, mira o vigía. Hay que recordar que el nombre griego de Denia, por ejemplo, según quiere la tradición, fuera Hemeroskopion, una suerte de atalaya del día...» («El necesario escepticismo», David Hernández de la Fuente, La Razón, 9.03.2026, p. 50). 

      Como é que os nossos dicionários podem limitar-se a indicar que a etimologia é «de céptico+-ismo», e pronto, já está? Não pode ser, isso é desprezar muita informação relevante. Assim, proponho ➔ de céptico + -ismo, provavelmente por influência do fr. scepticisme (1715) ou do ingl. scepticism (1646); céptico vem do lat. scepticus, e este do gr. skeptikós, «que examina, que observa», derivado de sképtesthai, «examinar, considerar»; atestado em port. como scepticismo desde o séc. XVIII.

[Texto 22 593]

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