«Guarnecer de alimentos»?

Desguarnecido

      «O mercado municipal de Cascais permanece no vale da Ribeira das Vinhas e, quem quer que já se tenha deslocado pelo centro da vila – no sentido da baía ou no caminho para as praias do Guincho – passou-lhe ao lado. A circulação automóvel às quartas e sábados de manhã processa-se, necessariamente, com maior intensidade, perante o acrescido movimento de quantos se procuram guarnecer de alimentos» («Antes & Agora. Usos saudáveis do passado preservados em Cascais», Luís Filipe Sebastião, Público, 15.01.2012, p. 36).
      Talvez de frutos, legumes e flores, como Arcimboldo. Não passam a redacção a limpo, dá nisto. Só os exércitos é que guarnecem — mas apenas de gente e munições — as praças, os quartéis, as fronteiras. Os submarinos também são guarnecidos, isto é, providos de tripulantes. Como também podemos guarnecer de livros uma biblioteca. Guarnecer, nesta acepção, é prover do necessário. O jornalista deveria ter escrito, por exemplo, «abastecer de alimentos».
[Texto 958]

«Excepção de pessoas»?

Como é?

      Na edição da História Trágico-Marítima anotada e comentada por António Sérgio, publicada em 1956, lê-se: «Assim se punha tudo em um monte, trabalhando todos sem haver ai exceição de pessoas, todos igualmente; os que não sabiam nadar, trazendo às costas e tirando-o do mar, com a água que lhe dava pelo pescoço, o que achavam por esses recifes [...].» Anota António Sérgio: «EXCEIÇÃO DE PESSOAS. Ou, antes, acepção (preferência) de pessoas (do latim “acceptio”). Ao que nos parece, o autor confundiu “acepção” com “excepção”, de que se encontra a forma antiga e popular “exceição”.»
      António Pereira de Figueiredo na tradução do Novo Testamento: «Estes pois lhe fizerão huma pergunta, dizendo : Mestre, sabemos que fallas, e ensinas rectamente : e que não fazes excepção de pessoas, mas que ensinas o caminho de Deos em verdade.» Numa edição de 1856 das obras do P. António Vieira, também se lê: «E os mesmos castigos, sem haver excepção de pessoas, se dão ás mulheres donzellas e moças, e tão honestas, que em sua casa e de seus paes, não as via o sol, nem a lua [...].»

[Texto 957]

«Proeminência/preeminência»

É tudo alto

      Assim? «Governo de coligação PSD-CDS, desde que tomou posse, ofereceu, generosamente, à gente sua amiga uma dezena de lugares de proeminência, muitíssimo bem pagos» («Uma velha história», Vasco Pulido Valente, Público, 14.01.2012, p. 32).
      Ou assim? «O ruído das vozes cresceu: surdas discussões de presbíteros querelando sobre os lugares de preeminência» (O Trono do Altíssimo, João Aguiar. Lisboa: Perspectivas & Realidades, 1988, p. 310).

[Texto 956]

«Língua de Todos»

Salvo seja

      Eis o começo do programa Língua de Todos emitido no dia 6 do corrente: «Segundo o Dicionário Aurélio, “filologia”, do grego Φιλολογία, é o estudo da língua em toda a sua amplitude e dos documentos escritos que servem para documentá-la. Numa segunda asserção, inclui também a crítica textual.»
      E estes, caros leitores, são bisbórrias da glote ou outra raça de torcionários da língua? Não valia a pena sermos muito severos, se não se tratasse de um programa realizado pelo Ciberdúvidas. Como é que alguém — no caso, e como agravante, uma equipa — que se «dedica à língua portuguesa» pode confundir conceitos tão diferentes? É um erro crassíssimo.
      Asserção vem do latim assertio, de assero, «afirmar», «assegurar»; acepção vem do latim acceptio, de accipio, «receber», «aceitar». Têm, em latim como em português, sentidos bem estabelecidos e diferentes. Asserção significa «afirmação categórica», «alegação». Acepção é a designação que se dá em lexicografia a cada um dos vários sentidos que palavras ou expressões apresentam de acordo com cada contexto.
      Agora, um exemplo da literatura: «E para comprovar a sua asserção, explicou ao Visconde a acepção pejorativa, que tomava a palavra paca tôda vez que era empregada com relação ao homem» (Contos Reunidos, Gastão Cruls. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1951, p. 93).
[Texto 955]

«Três ovídeos»?

Muito me contam

      «A inauguração daquele que a Câmara de Lisboa garante ser “o primeiro jardim sustentável de Portugal” juntou o presidente da autarquia, três vereadores, a presidente da Assembleia Municipal, o executivo da Junta de Freguesia de Benfica e três ovídeos, vindos expressamente do Alentejo para a cerimónia» («Três ovelhas viajaram do Alentejo para Lisboa para participar na inauguração de um jardim», Inês Boaventura, Público, 13.01.2012, p. 22).
      Pode dizer-se desta maneira: três ovídeos, quatro camelídeos, cinco leporídeos, seis cervídeos?

[Texto 954]

Sobre «leitura»

Ainda não perceberam

      «Um carro caiu ontem de manhã numa arriba na Praia da Cresmina, no Guincho, concelho de Cascais, provocando a morte da única ocupante, uma jovem com cerca de 30 anos. Segundo o comandante da Polícia Marítima de Cascais, Dário Moreira, suspeita-se que o incidente não foi acidental. “Terá sido uma decisão deliberada e não um acidente, mas esta é uma leitura preliminar, por isso é que se irá proceder à autópsia do corpo para se apurar as causas”, afirmou. O corpo só foi removido ao final da tarde após peritagem da PJ» («Carro cai em arriba e ocupante morre», Público, 13.01.2012, p. 22).
      É acepção que se usa há algum tempo, mas vejam aí nos dicionários que têm em casa: talvez só um a registe.
[Texto 953]

Continuam a «replicar»

Pegou de estaca

      «O presidente da autarquia manifestou o desejo de que este jardim “diferente” seja replicado noutros locais da cidade. “Não estamos em tempo de fazer grandes obras, mas sim pequenas obras que mudem efectivamente a qualidade de vida das pessoas”, concluiu António Costa» («Três ovelhas viajaram do Alentejo para Lisboa para participar na inauguração de um jardim», Inês Boaventura, Público, 13.01.2012, p. 22).
[Texto 952]

Sobre «herdade»

Era no Alentejo


      «As informações mais recentes divulgadas pela imprensa britânica, citando fontes policiais, apontam cada vez mais para a possibilidade de o cadáver encontrado no primeiro dia deste ano, em terrenos da herdade de Sandrigham, Leste de Inglaterra, ser o de uma jovem imigrante letã, de 17 anos, desaparecida desde Agosto de 2011. [...] «Entre a descoberta das ossadas “debaixo da janela” de Buckingham e do cadáver na propriedade de Sandringham mediaram apenas alguns meses» («O mistério das mortes em terras de sua majestade, a rainha Isabel II», Luís Francisco, «P2»/Público, 13.01.2012, p. 10).
      São sinónimos, «herdade» e «propriedade»? Começando por Bluteau: «No Alentejo se dá este nome aos campos que constam de montados, sorvais e terras de pão, e por serem dilatadas e renderem muito, se chamam herdades.» Esta relação com a província transtagana ainda é estabelecida por muitos falantes: herdade é no Alentejo, como machamba* é em Moçambique. Em Morais, «herdade» já não é isso, mas antes o «prédio, casa, quinta ou terra de lavoura». Para o Diccionario da Lingua Brasileira (hã?!), de Luiz Maria da Silva Pinto, nem isso, que a etimologia manda mais: «Bens de raiz de toda a sorte, casa, quinta, etc.»
      Também os dicionários actuais não são consensuais: se todos afirmam que se trata de uma grande propriedade rústica, já nem todos incluem na definição ser composta de montados (que, para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, é a «região povoada de sobreiros ou azinheiras, onde pastam porcos, no Alentejo») e de terra de semeadura.

* E porque é que o vocábulo se deixou de escrever com x, maxamba?

[Texto 951]

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