Como se fala na televisão

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      Diminuíram os levantamentos por multibanco, disse o jornalista António Esteves ontem na 1.ª edição do Telejornal: «O período em análise é a semana de 28 de Novembro a 4 de Dezembro de 2011 e compara com o mesmo período do ano passado.» Já tínhamos visto este modismo, ou má tradução, ou lá o que é, aqui.
[Texto 779]

Ortografia: «brócolos»

Não tenho preferências

      «Anteontem a Maria João e eu fomos almoçar à praia. Comemos cantaris e bróculos. O dia e o mar estavam feios mas não poderiam ser mais bonitos. A minha paisagem favorita foi olhar para ela» («Voltou», Miguel Esteves Cardoso, Público, 7.12.2011, p. 33).
      Também a professora Teresa Álvares, do Ciberdúvidas, preferia que fosse «bróculos», com uma argumentação que não colhe: «Ora, pensando bem, o meu erro que era também o de J. C. B., apontado oportunamente por uma consulente do Ciberdúvidas, nem é assim tão disparatado: se em Italiano «broccolo» deriva de «brocco», a que se acrescentou o sufixo diminutivo -olo(a), e em Português o sufixo correspondente é -ulo(a) (montículo, espátula), porque é que um «pequeno dente saliente» dum certo tipo de couve não se há-de poder chamar bróculo?» A seguir-se este raciocínio, muito estaria errado na língua.

[Texto 778]

Aportuguesamento

Rocha e o tablete

      «Ontem, José Rocha (PTP), fazendo “concorrência” à RTP-M, que transmitiu em directo o discurso de Jardim, tentou gravar as intervenções com um tablete, mas Mendonça ameaçou expulsá-lo do hemiciclo. A sessão foi temporariamente suspensa, depois prosseguiu com José Manuel Coelho a gravar» («Sem transmissão. Parlamento offline há três anos», Público, 7.12.2011, p. 11).
      O texto não está assinado, mas há-de ser da autoria de Tolentino de Nóbrega, que assina o texto principal. Este não passou no famoso crivo que têm lá no Público para os estrangeirismos. Já tínhamos a tablete, que veio do francês, agora passámos a ter o tablete, que vem do inglês.
[Texto 777]

Sobre «no entanto»

Essencial e etimologicamente advérbios

      «Por isso, i.e., por serem essencial e etimologicamente advérbios, é que no entanto, entretanto, contudo e todavia vêm freqüentemente precedidos pela conjunção e: “Vive hoje na maior miséria e (,) no entanto (,) já possuiu uma das maiores fortunas do país.” A ser no entanto simples conjunção, simples utensílio gramatical (conectivo), torna-se difícil a classificação da oração: coordenada aditiva, em função do e, ou adversativa, em função do no entanto? É evidente que não poderá ser uma coisa e outra. A ortodoxia gramatical aconselharia a supressão do e, em virtude de, modernamente, se atribuir a no entanto valor de conjunção. Mas, se se aceita o agrupamento, a oração será aditiva, e no entanto, advérbio, caso em que costuma (ou deve) vir entre vírgulas. O que se diz para no entanto serve para entretanto, todavia, não obstante» (Comunicação em Prosa Moderna, Othon Moacyr Garcia. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006, 26.ª ed., p. 44).
      A função de conjunção daquelas partículas é relativamente recente na língua portuguesa, posterior ao século XVIII. Na 6.ª edição do dicionário de Morais, de 1856, ainda «porém» e «todavia» aparecem como advérbios.
[Texto 776]

«Quando muito»

Bons nas pequenas coisas

      «Tonto como sou, ando há várias semanas a perder tempo com o infeliz assunto da irresponsabilidade contumaz dos dirigentes que temos. Hoje, porém, voltou a ocorrer-me que esta teimosia é reveladora de uma enorme insensatez; que, apesar do esforço de reflexão, análise e crítica realizado por várias gerações de pessoas muito melhores do que eu, não consta que o país alguma vez tenha despendido algum esforço para tentar ser melhor do que é. Quanto muito, carrega na maquilhagem, faz uma plástica às mamas e vai abanar o traseiro para os salões, na esperança de engatar algum velho rico que o sustente» («O Sócrates bom», Jorge Marmelo, «P2»/Público, 6.12.2011, p. 3).
      No máximo, se tanto, que é o que o jornalista Jorge Marmelo queria dizer, escreve-se quando muito, e já o vimos no outro blogue mais de uma vez.
[Texto 775]

 

Conjunção «nem»

Mas repare

      «A disciplina do governo económico significará, para nós, uma dieta compulsiva e continuada. Queiramos ou não, acabará por vir à força. É por isso risível escutar aqueles, como António José Seguro, ou como outros socialistas do presente e do passado, que para exibirem o seu imaculado federalismo afirmam que sempre defenderam um governo económico como solução redentora. Como eles se convenceram de que este novo federalismo fiscal será indolor nem implicará austeridade, ninguém percebe» («A austeridade política», Pedro Lomba, Público, 6.12.2011, p. 40).
      Nem é, na frase, conjunção coordenativa aditiva? Então onde está, perguntar-se-á o leitor benévolo, a outra oração negativa? Tem, antes, o sentido de e não, mas, por não ser de uso comum e estar a ligar orações de natureza diferente, não será compreendido por todos os leitores.
[Texto 774]

Merkozy é/Merkozy são

Ser híbrido

      «Mesmo aceitando que é indispensável “reforçar e harmonizar” a integração fiscal e orçamental da zona euro, as exigências do par Merkozy fazem lembrar uma reparação de guerra», lê-se no editorial do Público de hoje. Ora, é incongruente falar-se em «par Merkozy». A graça de tudo isto é supor que é um ser híbrido, como afirmou há dias Freitas do Amaral, que condenou as «intervenções de Bruxelas» e de «um ser híbrido a que chamam “Merkozy”» nos orçamentos e na condução das políticas nacionais, afirmando que isso «não é federalismo, nem democrático». Mesmo as aspas e o itálico são dispensáveis.
[Texto 773]

Como se escreve nos jornais

Dantes eram só os prédios

      «Recorde-se que no último fim-de-semana de Outubro, Horta Osório colapsou e foi internado em Londres numa clínica de recuperação do sono. A 2 de Novembro, o banco anunciou que o seu CEO estaria fora durante oito semanas para recuperar de um esgotamento» («Lloyds negoceia regresso de Horta Osório com estatuto e remuneração diferente», Cristina Ferreira, Público, 6.12.2011, p. 17).
      Mal vai isto quando um jornalista não encontra melhor verbo do que «colapsar». Quanto a «CEO», apesar de tudo, parece estar menos na moda.
[Texto 772]

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