Tradução: «saucer»

Castiçal, palmatória?

      «A vela foi fixada no pires», lê-se na tradução. Era uma casa pobre, sim senhor, mas a base para uma vela tanto pode ser de materiais pobres como ricos. No original, inglês, lê-se saucer, que, além de «pires», significa qualquer disco ou prato — semelhante a um pires. Não dizemos nós castiçal? Ou, se tiver prato e asa, palmatória.
      «À cabeceira do leito estava um castiçal com vela de sebo, derramando nas faces arroxeadas do agonizante um clarão sinistro» (Coisas Espantosas, Camilo Castelo Branco, p. 13).
[Texto 672]

«Interceptar/intersectar»

São da mesma opinião?

      «Eram celas de tijolo interceptadas por vielas», escreve a autora. Interceptadas ou intersectadas? O étimo é o mesmo, parecem sinónimos puros, mas há alguma especialização de sentidos. O verbo interceptar é mais usado no sentido de apoderar-se do que vai dirigido a outrem — «interceptar uma carta», por exemplo. Intersectar, por sua vez, é mais usado no sentido de interromper o curso de algo — «caminhos que se intersectam», por exemplo.
[Texto 671]

Plural dos apelidos

Para não se esquecerem

      «Já vivia [o cão da raça spaniel] confortavelmente em palácios quando os Plantagenetas, os Tudors e os Stuarts ainda andavam a puxar uma charrua que não era deles nas terras lamacentas que também não eram deles» (Flush, uma Biografia, Virginia Woolf. Trad. de Maria de Lourdes Guimarães. Lisboa: Edições Afrontamento, 1987, p. 16).
      No final da década de 1980, ainda se sabia que devia ser assim. E em inglês: «He was taking his ease in palaces when the Plantagenets and the Tudors and the Stuarts were following other people’s ploughs through other people’s mud.»
[Texto 670]

«Bastante frequentemente»

Digam-me o que acham

      O consultor da consecutiva, Miguel Moiteiro Marques, voltou para nos assombrar. Uma consulente quis saber se a frase «Ele come peixe bastante frequentemente» era correcta. Sentença: «A sequência dos advérbios bastante e frequentemente soa agramatical, mas os dois termos podem ocorrer na mesma frase, ainda que noutras posições e assumindo outros valores gramaticais.» Mas, previne, já «podemos dizer, por exemplo, “Ele come bastante peixe frequentemente” – o que é uma alternativa à frase b) proposta pela consulente – mas neste caso bastante deixa de ser um advérbio e passa a ser adjetivo do nome peixe, indicando tratar-se de “peixe abundante, numeroso”.» E remata: «Por outro lado, a sequência “bastante frequentemente” é possível numa frase como “Ele come bastante frequentemente” –, havendo a opção por colocar, ou não, uma vírgula a separar o advérbio frequentemente do resto da frase – mas aqui bastante é um pronome indefinido e refere-se a uma quantidade indefinida que o sujeito da frase consome, não se sabendo se é peixe ou não.»
[Texto 669]

Como se escreve nos jornais

Pois escreveu

      «O caso – e a atitude dos responsáveis da Penn State – já foi comparado pela imprensa americana ao escândalo de pedofilia que abalou outra instituição insular e exclusivamente masculina, a Igreja Católica. “As semelhanças são demasiado notórias para serem ignoradas”, escrevia há dias o New York Times» («Caso de pedofilia afasta treinador de futebol universitário», Kathleen Gomes, Público, 11.11.2011, p. 18). 
      Pois escrevia, como também escrevia o que está antes das aspas: «A better comparison would be the sexual molestation scandals that rocked another insular, all-male institution, the Roman Catholic Church.»

[Texto 668]

Invencionice

Outro mestre da escrita criativa

      O primeiro-ministro lá alcançou a imortalidade com a criação de um termo: «malabarice»: «Nós não fazemos malabarices com as cativações [verba que no início do ano fica retida em cada ministério para ser usada apenas se for necessário].» Francisco Louçã sugere que «o conceito é certamente filho de malabarismo e de aldrabice».
[Texto 667]

O poder das palavras

Só na América (o post da Besta)

      «O co-responsável pelos Óscares de 2012 demitiu-se depois de, numa conferência de imprensa, ter usado o termo fags, que pode ser traduzido como “maricas”. Em carta aberta explicou: “Por muito doloroso que isto seja para mim, seria ainda pior se a minha associação ao espectáculo impedisse que as pessoas prestassem atenção à Academia e aos altos ideais que defende”. O termo surgiu quando, questionado sobre os seus métodos de trabalho, respondeu: “Ensaiar é para maricas”» («Bret Rattner disse “maricas” e demitiu-se», «P2»/Público, 10.11.2011, p. 15).
[Texto 666]

Como se escreve nos jornais

Isto nunca mais acaba

      «Como se põe um americano a pronunciar Aníbal Cavaco Silva? “Ah-nee-bal Ca-va-coo Seel-vuh”, escrevia ontem a agência Associated Press, uma onomatopeia para iniciados anglo-saxónicos» («Cavaco promete que Portugal cumprirá programa financeiro», Kathleen Gomes, Público, 10.11.2011, p. 8).
     Mas qual onomatopeia, valha-a Deus, Kathleen Gomes? Por quem é, reveja-me o conceito de onomatopeia.
[Texto 665]

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