Plural dos apelidos

Por pouco

      «Talvez por isso, o regime, contam outros refugiados, “que arrasou aldeias inteiras, casas, árvores, culturas” e eliminou muitos dos seus habitantes, começou a “entregar armas às famílias alauitas”, a comunidade religiosa a que pertencem os Assad» («Damasco arma alauitas e tropas avançam em Jisr al-Chughur», Lumena Raposo, Diário de Notícias, 13.06.2011, p. 24).
      Ao contrário do que vimos no Público, no Diário de Notícias sabem que o vocábulo alauita não precisa de acento. Claro que o texto de Lumena Raposo não é perfeito. O plural de Assad é Assads, «os Assads», e será a tropa e não as tropas que avançam em Jisr al-Chughur. Pormenores muito importantes — e descurados pela maioria.

[Texto 143]

«Sobre/sob»

Do lado contrário

      «E uma das formas de perpetuar as pequenas e grandes histórias surge quase sempre sobre o manto de uma lenda» (Histórias Assim Mesmo, Mafalda Lopes da Costa. Antena 1, 7.06.2011).
      Mais um erro lamentável e, para agravar, desses em que só os mais descuidados incorrem. Na rádio não se usará, mas Mafalda Lopes da Costa precisa de dar a ler a alguém — o ideal seria um revisor — os textos que escreve. Revelaria, porque decerto já por aqui passou e está ciente dos erros que dá, inteligência e respeito pelo ouvinte.
     «Duvide-se emb’ora da conveniência de facultar assim, a anónymos, a calúmnia, sob o manto da irresponsabilidade; de incutir no ânimo dos povos que o rei constitucional não depositasse plena fé na lealdade de ministros a quem taes investigações competiam: de lançar na mente régia indevidos germes de suspeitas» (Tributo á Memória de Sua Majestade Fidelissima o Senhor Dom Pedro Quinto, o Muito Amado, António e José Feliciano de Castilho. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert, 1862, p. 47).

[Texto 131]

Tradução: «Indian Summer»

Para quê?

      «Levaram-me», pode ler-se na tradução, «a X durante a noite amena e chuvosa como a de um Verão índio.» No original: «Indian Summer». A esmagadora maioria das vezes, a tradução que se vê é outra: Verão indiano. Ora, ao período de finais de Outubro a começos de Novembro damos nós o nome de Verão de S. Martinho. Passe-se a acção no Alentejo, em Nova Iorque ou no Brasil (onde é conhecido por veranico), não é igualmente preciso? Não exprime o mesmo conceito?
[Texto 119]

«Estereótipo» e «inêxito»

O interesse dos debates

      Maria Flor Pedroso acaba de usar, na Antena 1, a palavra «estereótipo», mas deslocou a tónica para a sílaba -ti-, e logo, talvez também escreva «estereotipo». Não demorará muito e todos os dicionários registarão, sem indicação de forma preferencial, as duas variantes.
      Estes debates das legislativas são também uma fonte de interesse linguístico. Ontem, Bagão Félix falava em «êxitos e inêxitos». «Inêxito» não é nada de novo, mas ouve-se muito poucas vezes. Poderá ter-nos chegado do Brasil na década de 1950. «Ser ou não ser, perseguindo com irremediável inêxito um critério de opção sem que, mau grado o inêxito, se possa desistir — é trágico: Antero» (Fernando Pessoa, Poeta da Hora Absurda, Mário Sacramento. Porto: Editorial Inova, 1970, p. 193).
[Texto 100]

Preposições e conjunções

By taxi

      «Sai à volta de dez euros por mês — o preço de uma ida-e-volta por táxi a um restaurante ou a uma praia, uma só vez por mês. […] Estou convencido que é a freguesia sublime de Colares que é responsável por estas economias» («Junho até agora», Miguel Esteves Cardoso, Público, 2.06.2011, p. 39).
      Cada língua tem as suas especificidades. Em espanhol, por exemplo, a preposição que se usa para indicar o meio de transporte é en: en autobús, en avión, en bici. (Mas diz-se a caballo e a pie.) Em português, não usamos a preposição por para indicar o meio de transporte, mas sim a preposição de: de comboio, de carro, de táxi.
      Na segunda frase, o problema é outro: há conjunções e verbos repetidos, sem ganhos de expressividade, antes pelo contrário. «Estou convencido que é a freguesia sublime de Colares a responsável por estas economias.»
      «Ida e volta» não precisa de hífenes, mas ultimamente Miguel Esteves Cardoso anda para aí virado: «As poucas pessoas que ficam à espera das campanhas para se decidirem em quem votam — e que são susceptíveis ao dinheiro que se gastou para convencê-los — são uns borra-botas e umas baratas-tontas, que se fazem caras, no sentido mais extravagante da palavra» («Poupem-nos», Miguel Esteves Cardoso, Público, 24.05.2011, p. 39).
[Texto 99]

«Frente-a-frente»: plural

Deixem assentar mais a poeira

      «O disparate, neste episódio, é que se a lei regula e impõe tempos de antena, não regula (nem pode fazê-lo), os frente-a-frentes, porque são iniciativas estritamente editoriais, tal como não regula notícias, reportagens ou entrevistas» («A democracia não é imposta por tribunais», Público, 2.06.2011, p. 38).
      Não sei se é doutrina se é gralha — o certo é que não falta quem pluralize este neologismo. A tendência da língua, já o escrevi mais de uma vez, é para fazer os plurais desta forma regular. Lembrem-se de um caso semelhante, «sem-abrigo». De vez em quando, lá nos escorrega a língua ou a tecla e sai o plural «sem-abrigos».
[Texto 98]

«Enfermeiro sénior»

Para eles, é fácil

      «Ao perceber que ninguém fez nada, Bryan, um enfermeiro sénior com três décadas e meia de experiência, decidiu recorrer à BBC» («Tortura de deficientes em hospital choca britânicos», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 2.06.2011, p. 33).
      Mr. Bryan... Digo, o Sr. Bryan é senior nurse — e nós, decerto por influência anglo-saxónica, agora também temos enfermeiros seniores (espero que estes saibam pronunciar correctamente a palavra). Os antigos enfermeiros especialistas, enfermeiros-chefes e enfermeiros supervisores passaram a ter a categoria de enfermeiros seniores.
      Apesar de a nossa língua dever muito mais ao latim do que o inglês (que, ainda assim, tem no latim mais de 50 % dos seus étimos), não podemos fechar sempre os olhos e, complacentes, reconhecermos que antes importarmos anglicismos de matriz latina do que de matriz germânica. Mas não é tão simples. Pense-se só no caso do vocábulo «media» para designar os meios de comunicação social. Para o inglês, que também tem plurais que não somente em s, é fácil integrar todos estes neologismos.

[Texto 97]

Tradução

Poesia e prosa

      Maria Leonor Nunes entrevistou José Bento para o JL («José Bento. Afición e poesia», JL, 1060, Maio de 2011). Quando o poeta e tradutor afirmou que «temos a impressão de que é mais difícil traduzir poesia», a entrevistadora não deixou passar a oportunidade: «E não é?» Respondeu o tradutor de D. Quixote: «Não. Por vezes, a prosa até pode ser mais difícil. Os valores que estão em jogo na poesia não são os mesmos da prosa. Posso dar um exemplo supremo, D. Quixote de la Mancha. Ainda hoje, não tenho a certeza do que Cervantes queria dizer com certas expressões. Por exemplo, palavras que caíram em desuso, cujo significado mudou ou que simplesmente não se sabe o que queriam dizer ou que num sítio têm um significado e a 40 quilómetros querem dizer uma coisa diferente.»
[Texto 96]

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