Sobre «presidenta»

Nem os Brasileiros acatam

      «Depois de assistir aos vídeos, a Presidenta decidiu travar a divulgação do kit preparado por uma ONG, por o considerar “inadequado” e “impróprio para [o] seu objectivo”» («‘Kit’ anti-homofobia vetado no Brasil», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 34).
      Dona Dilma Rousseff quer — e os jornalistas portugueses fazem-lhe a vontade. «Presidenta». São estes jornalistas que fazem andar a língua para a frente e a gramática para trás.
[Texto 79]

Sobre «sinalizar»

Não nos aborreçam

      «Dos 1808 alunos sinalizados (quase 10% do total) no ano passado — por faltas às aulas, mau aproveitamento escolar, violência física e verbal ou comportamentos agressivos —, 782 casos foram raparigas adolescentes e pré-adolescentes» («Escolas de risco com 43% de raparigas problemáticas», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 18).
      É vocábulo da gíria dos técnicos de serviço social, que caiu no goto dos jornalistas, que há meia dúzia de anos gostavam mais do verbo «referenciar». Só um conselho: diversifiquem (conselho que, no âmbito dos investimentos, também lhes dariam George Soros e Warren Buffett), usem outras palavras, outras construções.
[Texto 78]

Sobre «gorjeta»

É para beber

      «Na primeira noite, esses repórteres ficaram a saber que a família jantou bifes e saladas do restaurante Landmarc. A conta foi de cerca de 170 euros, tendo a filha dado uma gorjeta de 17,6 euros ao homem das entregas» («Uma ‘prisão’ de luxo para Strauss-Kahn», Susana Salvador, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 33).
      Foi do francês gorge que fizemos gorja (garganta, goela, ainda em uso, como pude comprovar recentemente na Beira Alta) e todos os derivados, entre eles «gorjeta» ou «mata-bicho» para molhar a garganta, que era a gratificação por qualquer trabalho que se fizesse. «Tome, é para beber qualquer coisa», ouve-se ainda. Em francês, é mais claro: pourboire, «gorjeta», é «para beber». De caminho, deve dizer-se que «gorjeta» é com j e não com g, como por vezes se lê, e é assim porque deriva de um vocábulo com j.
      Curioso também aquele «homem das entregas», que mal esconde o inglês deliveryman da fonte da notícia.
[Texto 77]

Sobre «stresse»

Não é para mim

      «A defesa tentou explorar um desmaio sofrido por Diego em Fevereiro de 2005 em plena escola, justificando os pais que o rapaz estaria em stresse por ter falsificado a assinatura num teste a que teve nota negativa» («Pais de escuteiro dizem que ele entrou em delírio antes de morrer», Roberto Dores, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
      Ninguém me apanhará a usar este aportuguesamento manhoso. Antes a forma como os Brasileiros aportuguesaram, estresse, por ser mais conforme à nossa língua. De qualquer modo, não se esqueçam os tradutores e os revisores que, e já o disse uma vez, a palavra «tensão» diz o mesmo.
[Texto 76]

 

Sobre «golpear»

Ainda bem que é usada

      «E se poderão “fazer harakiri”, ritual dos samurais no Japão, que consistia em golpear o ventre para, por exemplo, recuperar a honra ou evitar ser sequestrado» («Comunistas apelam contra o voto suicida dos jovens», Carla Soares, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 6). «Segundo fontes policiais, esta suspeita ainda não foi confirmada. Apenas que terá sido o animal a golpear, no mesmo dia, uma sobrinha da vítima mortal, perto do local onde o corpo foi encontrado» («Autoridades já têm carneiro suspeito», Paulo Julião, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 23).
     Reparem como o verbo «golpear» foi usado acima em dois sentidos diferentes. Actualmente, a segunda acepção — dar pancadas, como se lê no dicionário de Bluteau — anda arredada da linguagem do dia-a-dia e dos dicionários, pelo menos de forma tão explícita.
[Texto 75]

Ortografia: «anti-social»

Demasiado previsível

      «“Não estava doente. Era reclusa”, disse o jornalista Bill Deedman, da MSNBC, que fez uma reportagem de investigação sobre a vida da filha daquele que foi, no seu tempo, um dos homens mais ricos dos EUA, e a quem o The New York Times chamou “a socialite antissocial”» («A multimilionária que viveu e morreu longe do mundo», Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 43).
      Será assim de acordo com as novas regras ortográficas, mas, como o Diário de Notícias ainda segue a ortografia do AOLP45, está incorrecto. O jornalista deveria ter escrito «anti-social». Quando o jornal adoptar a nova ortografia, alguns jornalistas estarão anos seguidos a escrever em conformidade com as regras do AOLP45. Tudo demasiado previsível.
[Texto 74]

 

Léxico: «enteremorrágico»

Bastava pensar

      Ora vejam este caso: «A causa da propagação da bactéria Escherichia coli enterohemorrágica está ligada ao consumo de legumes crus, como pepino, tomate e salada, refere o Ministério da Agricultura alemão» («Bactéria em alimentos crus leva à morte», Ana Maia, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 20).
      Está-se mesmo a ver, senhora jornalista, um h interior sem ser num dígrafo. Estabelece o Acordo Ortográfico de 1945: «Se um h inicial passa a interior, por via de composição, e o elemento em que figura se aglutina ao precedente, suprime-se: anarmónico, biebdomadário, desarmonia, desumano, exaurir, inábil, lobisomem, reabilitar, reaver, transumar.» Assim, escrever-se-á enteremorrágico. Não foi apenas a informação que veio da Alemanha, mas também, e dispensávamos, o termo: enterohämorrhagische.
[Texto 73]

Prefixo «sub-»

O domínio do mundo

      «Um homem de 47 anos apontou, ontem de manhã, uma arma à cabeça do comandante da Esquadra da PSP de Benfica e clicou no gatilho. A arma encravou e o sub-comissário da PSP ainda levou uma coronhada na cabeça e vários murros antes de conseguir deter o agressor» («Arma apontada à cabeça encravou», Luís Fontes, Diário de Notícias, 27.05.2011, p. 26).
      «Clicou no gatilho»! A informática domina agora completamente o mundo. Já quase a escrevermos segundo as novas normas ortográficas, e alguns jornalistas ainda não dominam as regras do Acordo Ortográfico de 1945. O prefixo sub- só se liga por hífen ao elemento seguinte quando este começa por b, h ou r. Logo, subcomissário.
      «Turvado agora pelo medo, o Jerónimo mediu o adversário bem de frente e premiu o gatilho» (Os Homens e as Sombras, Alves Redol. Lisboa: Publicações Europa-América, 1981, p. 53).
[Texto 72] 

Arquivo do blogue