Sobre «savana»

Em maus lençóis

      E José Rodrigues dos Santos disse, no mesmo Telejornal, que o corpo de Bin Laden foi «despejado ao mar». É um grande escritor, conhecedor, como se vê, dos clássicos, que usaram a expressão despejar o inimigo para significar ir dando cabo deles. E também podia ter dito simplesmente que os Americanos se despejaram, o que significa desembaraçar-se de alguma coisa que estorva, incomoda. Mas isto agora não interessa.
      Para lá de Badajoz, os mais prudentes dão como incerta a etimologia do vocábulo «savana». Nós recebemo-lo do espanhol, sim, mas onde o foi buscar esta língua? Talvez, aventam alguns, a uma língua das Caraíbas. Há algo mais a dizer sobre «savana». Até falantes do espanhol confundem sabana, a nossa «savana», com sábana, o nosso «lençol» (proveniente do latim, e que no português antigo também se usava), pelo que não é muito surpreendente que Cândido de Figueiredo, no seu dicionário, tenha caído neste erro: «Assim se escreve e se lê geralmente, mas a pronúncia exacta é sávana.» E, em coerência com o aviso, dá-o como proveniente do espanhol sábana, «lençol». Mas isto foi no século XIX. Não afirmou Sá Nogueira que o Novo Dicionário, o melhor até então, era fraco nas etimologias?

 [Post 4740]

Como se fala na televisão

É da emoção

      Bin Laden lá pagou o tributo à Natureza, e a jornalista Márcia Rodrigues, em directo da zona de embate nas Torres Gémeas para o Telejornal, viu pessoas que «foram pagar um tributo às vítimas dos atentados de 11 de Setembro de 2001». Imagino que só os sobreviventes dos atentados tenham recebido o tributo... Cara Márcia Rodrigues, não confunda as coisas: pagar um tributo é pagar uma taxa ou imposto; prestar tributo é prestar homenagem.
[Post 4739]

«Livre-pensador»: plural

O autor de Os Burros ensina

      «Mais tarde, em França, passaram a ser designados por libertinos os chamados livre-pensadores, e sobretudo aqueles que defendiam o fim do regime monárquico e que ditaram o fim da monarquia com a Revolução Francesa» (Lugares Comuns, Mafalda Lopes da Costa, Antena 1, 2.05.2011).
      Vê-se e ouve-se muito por aí. Nome composto de adjectivo + substantivo: pluralizam ambos. Livres-pensadores. Oh, diabo!, ainda alguém virá dizer-me que «livre» é advérbio, e por isso não pluraliza. Livre-pensador é quem pensa livremente, logo será «livre-pensadores». Solto, sem hífen, ainda era mais fácil tirar esta conclusão: livre seria, sintacticamente, complemento circunstancial de modo. Há aqui, porém, pseudocircunstância, como afirma José R. Macambira (A Estrutura Morfo-Sintática do Português: Aplicação do Estruturalismo Lingüistico. Fortaleza: Imprensa Universitária da Universidade Federal do Ceará, 1974, p. 304). Mas não, é adjectivo. Livre porque, em matéria religiosa, tem o poder de decidir por si próprio, porque pensa apenas segundo a razão, sem subordinação dogmática. Porque é que os dicionários, mormente os disponíveis em linha, não registam o plural dos vocábulos? Sr.ª Eng.ª Helena Figueira, é o próximo passo?
      «O homem sisudo não pode olhar sem indignação para essa interminável coorte dos que neste século se dizem livres pensadores, quando contempla o soberbo, e ultrajante gesto, ou amargo sorriso com que eles olham para o homem de bem, que fiel a seus princípios, e consequente em sua crença, e conduta, respeita sua Religião, e a reconhece divina em sua fonte, e sua origem» (Sermão contra o Filosofismo do Século XIX, José Agostinho de Macedo, Lisboa: Impressão Régia, 1811, pp. 7-8 [actualização ortográfica minha]).
[Post 4738]

O feminino de «todo-poderoso»

Quem fez isto?

      Talvez F. V. Peixoto da Fonseca tivesse razão: o feminino (e o plural) oficial de «todo-poderoso» é um disparate. «Todo» é advérbio? Recuamos e o que se lê sempre é (esqueçamos agora o hífen) todo poderoso, todo poderosos, toda poderosa, todas poderosas. Temos de esperar que se legisle noutro sentido.

[Post 4737]

Como se escreve nos jornais

O do triunvirato

      «O anúncio do grupo francês surgiu a poucas horas do início da cimeira bilateral entre a Itália e a França, em Roma, que promete ficar ensombrada por esta jogada gaulesa nada desejada pelo Governo romano» («Lactalis lança OPA à Parmalat para reagir a lei de Berlusconi», Carla Aguiar, Diário de Notícias, 27.04.2011, p. 34).
      «Governo romano»: pensamos logo em Marco António, em Lépido e em Octávio, por exemplo. É uma figura de estilo, bem sei, mas vai a par do uso imoderado do termo «luso» na imprensa gratuita. «Jogada gaulesa» é outro produto do excesso de imaginação.
[Post 4736]

Léxico: «paparote»

Língua de sogra

      Está aí alguém que saiba — sem consultar nenhum dicionário — o que significa «paparote»? A minha sogra diz que dantes fazia muitos. Os dicionários mais antigos dão «piparote» e «paparote» como sinónimos. Contudo, actualmente, nem todos registam «paparote», como acontece com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Eu digo, eu digo: paparote é um caldo de castanhas piladas. Nenhum dicionário actual diz que «paparote» é a pancada com a cabeça do dedo médio ou indicador.
      (Quer rir-se, Fernando? O Flip 7 emendou repetidamente para «paparrote»; quando eliminei o sublinhado vermelho, apareceu a sublinha verde: «Regionalismo (sem sugestões).»)

[Post 4735]

«Seco/secado»

Não valia a pena

      Falava-se de uma semente, e depois dizia-se isto: «É salgada e secada ao sol.» Quatro cabeças, duas sentenças, com a maioria a afirmar que a frase citada está correcta. Que deva ser «salgada» não há dúvida, pois é verbo com um só particípio. Já o verbo «secar» tem dois particípios, secado e seco. Ora, como com os auxiliares ter e haver se utiliza a forma regular (em –ado ou –ido), e com os verbos ser e estar se usa, regra geral, a forma irregular, mais curta, correcto seria «seca», por se subentender ali a forma verbal «é»: «É salgada e [é] seca ao sol.» No dicionário de Morais lê-se, em abono desta interpretação: «Carvão, s. m. Matéria disposta para se acender, e conservar o fogo, ou sejam pedaços de madeira queimada, e apagada; ou a que se tira de minas sulfúreas, dita carvão de pedra; ou de uma espécie de terra pingue feita em talhadinhas, ou tijolinhos, e seca ao sol, a que os estrangeiros chamam turba, os Castelhanos; tourbe os Franceses.»
      A forma «secada» há-de estar ali por atracção: como o outro particípio tem a forma (única, como já vimos) regular, «salgada», este assume-a.

[Post 4734]

Ainda sobre «botar»

Botar discurso

      A propósito da obra de Antenor Nascentes Tesouro da Fraseologia Brasileira, já aqui referida, escreveu Vasco Botelho de Amaral: «Devo confessar que não gosto de tal chamadoiro. Tratando-se de frases e expressões da língua portuguesa, embora registadas algumas peculiares ao Brasil, o título exacto seria Tesouro da Fraseologia Luso-brasileira. A maior parte das dições desta fraseologia partiram um dia nas caravelas portuguesas para Vera Cruz» (Glossário Crítico de Dificuldades do Idioma Português, Vasco Botelho de Amaral. Porto: Editorial Domingos Barreira, 1947, pp. 212-13). Embora afirme que é obra meritória, também adverte que «elogios incondicionais não serei eu quem lhos dê». E escreve mais à frente: «No artigo de alma, ensina que — Botar a alma no inferno é “praticar pecado mortal”. Ora, há uma acepção muito importante que se devia mencionar, e de certo ocorre no Brasil.
      Qualquer pessoa arreliada com outra diz que essa outra lhe põe a alma no inferno, se ela a exaspera muito, fazendo-a irar-se a pontos de se perder, indo parar ao inferno» (idem, ibidem, p. 214). Sempre ouvi minha mãe usar a expressão «meter a alma no inferno». Pôr, meter... Botelho de Amaral prossegue: «Ainda outro dia, certa mãe, atarantada e zangada com o barulho dos filhos, lhes gritou que estivessem quietos, que lhe “metiam a alma no inferno”. O sentido não é o vago significado de “praticar pecado mortal”.» Aqui, Antenor não dormitou, asneou.

[Post 4733]

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