Pronúncia

Lisboetês vulgar

      «Trauliteiros. Era a designação dada aos acompanhantes de Paiva Couceiro durante as incursões monárquicas no Norte no início da I República. De tal forma que ao período político entre 19 de Janeiro e 13 de Fevereiro de 1919, presidido precisamente por Paiva Couceiro, e com sede no Porto, a chamada Monarquia do Norte, foi também apelidada de Traulitânia» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 3.03.2011).
      E como pronunciou o numeral 13? Ora, /treuze/, pois claro, com ditongação do e. E quem fala assim muitas vezes também diz /númaro/. Apre.
      «Razão tinha o Afonso Lopes Vieira. Lisboa corrompe a linguagem. Mas, se há duas Lisboas, a culta e a ignara, deve-se a esta última a corrupção, nódoa que alastra pelo País fora, porque nós, os provincianos, só conhecemos a Lisboa inculta» (A Língua Portuguesa, João de Araújo Correia. Lisboa: Editorial Verbo, p. 101).

[Post 4514]

Léxico: «ecossistémico»

Primeira vez

      Referente a ecossistema? Ecossistémico. Exemplo de uso: «Haverá aqui espaço para a criação de empresas ligadas não apenas à protecção da natureza, mas essencialmente ao aproveitamento dos serviços ecossistémicos que ela nos presta.» Estranho é que mesmo dicionários mais sôfregos como o... ahn, esqueci-me... não registem o adjectivo. Vejam se faz falta.

[Post 4513]

Lexicografia

Se

      Se Portugal fosse mesmo multicultural, como alguns juram que é (aqueles, professores, que vão agora, com o AO90, passar a admitir que os seus alunos escrevam «fenômeno» «bebê», «anistia»...), de fora dos dicionários da língua portuguesa não ficariam as acepções de termos como «gasosa», «refresco» e mesmo «propina», todas formas coloquiais de referir o suborno, a corrupção, respectivamente, em Angola, em Moçambique e no Brasil. As nossas luvas. Ah, mas dispensamos o cosmopolitismo de kickback, bustarella, bakchich e outras. (Talvez aqueles professores passem também a dizer e a escrever, como pouquíssimos brasileiros fazem, «corrução»...)

 [Post 4512]

Regência de «sobrepor»

Enfatuamentos

      A edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo, de Mafalda Lopes da Costa, foi dedicada à história da cortiçada da Lua de Proença-a-Nova. Um excerto: «Da escolha de Cortiçada [antiga designação de Proença-a-Nova] para designar a povoação, surge como óbvio que terá tido tudo a ver com a grande riqueza corticeira da região, mas o que por Proença-a-Nova se conta é toda uma outra história. Segundo a lenda, em tempos muito remotos, a população da vila ter-se-á enfatuado de tal forma com a Lua, que, querendo alcançá-la, construíram uma gigantesca torre, sobrepondo cortiço sobre cortiço.»
      Já aqui (e aqui) vimos a construção «todo um». E é claro que a regência do verbo sobrepor está errada: sobrepõe-se isto àquilo, não sobre aquilo.


[Post 4511]

Acordo Ortográfico: o trema

Isso é o que vamos ver

      Na edição de ontem do programa Histórias Assim Mesmo (isto é comigo?), dedicado à história do topónimo São Lourenço de Mamporcão, Mafalda Lopes da Costa usou o vocábulo «sanguinário» e pronunciou o u. E bem, como bem teria pronunciado se não tivesse lido o u. Com a eliminação do trema, no Brasil, é muito provável que a médio/longo prazo se percam estas duplas pronúncias.


[Post 4510]

«Miséria franciscana»

Com digresso

      «Perante uma situação de grande precariedade, de aflição financeira, de pobreza extrema, fala-se em “miséria franciscana”. A expressão é também hoje em dia usada para designar um salário baixo, um pagamento de pouco valor, uma soma de pouca monta. “Miséria franciscana” deriva obviamente de uma analogia com os Franciscanos e a Ordem Franciscana, fundada por São Francisco de Assis no século XIII. Ora, uma das particularidades desta congregação é o facto de esta ser uma ordem mendicante, ou seja, uma ordem religiosa cujos filiados faziam voto de pobreza, vivendo da caridade das doações» (Mafalda Lopes da Costa, Lugares Comuns, Antena 1, 1.03.2011).
      Sim, mas... Filiado é o «que ou o que está agregado, unido a corporação, agremiação, grupo social etc.; afiliado» (na definição do Dicionário Houaiss), mas o termo mais específico (agora nunca usado) é professo, que ou aquele que professa ou professou uma ordem religiosa. Tal como egresso é o indivíduo que largou o convento e confesso o monge que vivia em mosteiro.

[Post 4509]


Género de «Alhambra»

Mais vacilações

      «Uma sequência de três pátios e um espelho de água — será assim a nova entrada para os palácios do Alhambra, em Granada, Espanha, desenhada pelo arquitecto português Álvaro Siza e pelo espanhol Juan Domingo Santos, vencedores do concurso de ideias para o local que na época alta chega a receber oito mil visitantes por dia» («Álvaro Siza vai construir a Porta Nova de acesso aos palácios do Alhambra», Alexandra Prado Coelho, Público, «P2»/Público, 2.03.2011, p. 8).
      Aqui também há vacilações, mas se em espanhol é do género feminino e se Rebelo Gonçalves, no Vocabulário da Língua Portuguesa, regista apenas a forma Alambra e o género feminino, talvez devamos ir atrás.

[Post 4508]

«Carro eléctrico», de novo

Vacilações

      Isabel Gaspar Dias, na apresentação dos principais temas do Portugal em Directo: «Lisboa já tem mais de 50 postos de abastecimento de carros eléctricos, e por agora são à borla.» E na abertura do tema: «Por agora, já são mais de 50 postos de abastecimento de viaturas eléctricas em Lisboa. Depois do Parque das Nações, agora também o centro da cidade tem pontos de abastecimento de viaturas.» Já aqui tínhamos falado desta questão. E reparem na hesitação «pontos/postos de abastecimento».

[Post 4507]




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