Formação de palavras

De Berlim ou de Bruxelas

      Quer escrevamos «bola-de-berlim» ou «bola de Berlim», o processo de formação de palavras é o mesmo: por justaposição. A língua tem, como se sabe, vários processos de formação de palavras, mas os mais gerais são a aglutinação e a justaposição. Actualmente, com o Dicionário Terminológico (DT), fala-se em composição morfológica (processo de composição que associa um radical a outro(s) radical(is) ou a uma ou mais palavras», na definição do DT) e em composição morfossintáctica (processo de composição que associa duas ou mais palavras», também na definição do DT). Se consultarmos o DT, vemos que entre os escassos exemplos deste último processo de formação se encontra «via láctea». Sem hífen. A presença ou ausência de hífen não interfere na definição destes compostos como sendo por justaposição. Por outro lado, não é pela mera presença de um topónimo (qualquer que seja a grafia adoptada, «bola-de-berlim» ou «bola de Berlim», que podemos afirmar que estamos perante o processo de derivação imprópria, de que já aqui falei bastas vezes.


[Post 4506]

Acordo Ortográfico

Consagradas pelo uso


      Consultei o verbete «cor-de-rosa» no Dicionário da Língua Portuguesa 2011 da Porto Editora. Resumo: «cor-de-rosa aAO ⇒ cor de rosa dAO». Como? Contudo, a Base XV («Do hífen em compostos, locuções e encadeamentos vocabulares»), n.º 6, do AO90 estatui: «Nas locuções de qualquer tipo, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso (como é o caso de água-de-colónia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, pé-de-meia, ao deus-dará, à queima-roupa).» E seguem-se exemplos de locuções substantivas, adjectivas, pronominais, adverbiais e prepositivas, mas que não vêm ao caso, pois já estamos servidos: «cor-de-rosa» é uma excepção indicada pela própria norma, não há necessidade de interpretar o dúbio «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Experimentei (mais uma vez, lembram-se?) o corrector ortográfico da Porto Editora, tão apregoado junto dos professores. Escrevi a seguinte frase: «De facto, comprei uma mini-saia cor-de-rosa.» Resultado: «6 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Mas o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor. E depois estoutra: «De facto, comprei uma minissaia cor de rosa.» Resultado: «8 palavras analisadas, 0 modificadas — 0% alteradas». Só o vocábulo «facto» aparece assinalado de outra cor.
      Imaginem agora o que será quanto a todas as outras palavras que, não estando exemplificadas pelo texto do AO90, poderão estar abrangidas pelo conceito quase indeterminado «salvo algumas exceções já consagradas pelo uso». Temo o pior.
      Lia-se hoje no Diário de Notícias: «A Porto Editora adopta hoje o novo Acordo Ortográfico, passando a utilizar a nova grafia em todos os documentos e no sítio oficial, para lá de lançar um guia prático e reformular o conversor online. “Contém tudo o que é necessário saber sobre a nova grafia”, resumiu fonte da editora à Lusa» («Porto Editora vai adoptar nova grafia», Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 18). Espero é que não usem o conversor deles.

[Post 4505]

Sobre «chance»

Já lá vai

      «Os jornais contaram que [Annie Girardot] se apaixonou por Renato Salvatori, cara de homem, o boxeur irmão de Rocco. Tivesse ela escolhido Rocco (o bonitinho Alain Delon), eu ficava a saber que eu não teria chances. Há poucos anos, por um comovedor livro da sua filha Giulia Salvatori, A Memória da minha Mãe, eu soube que ela tinha Alzheimer» («A memória que não perco dela», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 1.03.2011, p. 56).
      Para mim, é um dos mais detestáveis galicismos que vieram conspurcar a nossa língua. Felizmente, tudo passa, e este barbarismo tem os dias contados (excepto, talvez, no Brasil). Alternativas: acaso, alternativa, boa sorte, dita, encontro, felicidade, fortuna, ocasião, oportunidade, probabilidade... A determinada altura, alguém veio propor o aportuguesamento em «chança», mas Vasco Botelho de Amaral fez ver que «chança» significa «mofa, zombaria, chalaça», e, como adaptação de «chance», seria inútil.


[Post 4504]

Regência verbal: «avocar»

Casos de polícia

      «O processo foi avocado ao Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) em 2003, tutelado pelo procurador Vítor Magalhães» («PJ não tem pistas novas para saber onde está Rui Pedro», Rute Coelho e Alfredo Teixeira, Diário de Notícias, 28.02.2011, p. 2).
      Creio que, desta vez, nem Francisco Fernandes, no seu Dicionário de Verbos e Regimes (São Paulo: Editora Globo), nos pode valer. A acepção não pede a preposição por neste caso? «O processo foi avocado pelo, etc.»?

[Post 4503]

«Polaroid»/polaróide

Muito bem, muito mal

      Ora digam-me o que pensam deste par polaróide/Polaroids. «Era uma fotografia polaróide que continha o padrão da projecção do sangue e que me levou a considerar que o arguido estaria a mentir. Há pessoas que perguntam por que razão ainda se usam as Polaroids
[Post 4502]

Tradução

Pequenos nadas

      «São raros os exemplos deste fenómeno regressivo, diz o geneticista Steve Jones, da [sic] Colégio Universitário de Londres. “A redução da fecundidade não está ainda bem demonstrada. O outro exemplo que me ocorre é o da ovelha Soay (espécie na Escócia que está a encolher). Os machos lutam furiosamente pelas fêmeas, mas após algumas semanas, os sexualmente mais activos ficam sem esperma”» («Mórmons poligâmicos tiveram menos filhos», Rita Carvalho, Diário de Notícias, 28.02.2011, p. 28).
      Se pode ter designação em português, que se traduza. Nove em cada dez vezes, lê-se University College London (UCL). Mas eis que, de vez em quando, um jornalista (ou um tradutor) tem um vislumbre. Colégio Universitário de Londres, pois claro.

[Post 4501]

Léxico: «genrear»

É uma espécie de parasita

      «Horas depois, em Londres, Kate acompanhou o noivo e o futuro genro, o príncipe Harry, na visita à Embaixada da Nova Zelândia, onde assinaram o livro de condolências em memória das vítimas do terramoto que assolou aquele país» («Kate Middleton já é a nova princesa do povo», Raquel Costa, Diário de Notícias, 28.02.2011, p. 49).
      A realeza sempre teve relações estranhas, mas aqui é um manifesto exagero... Foi um lapso, é claro: no meio de tantos in-laws, a jornalista atrapalhou-se. Oportunidade para dar a conhecer um verbo que só os Brasileiros usam: genrear — ser financeiramente dependente do(s) sogro(s). Ao indivíduo nestas circunstâncias dá-se o nome de genreador.
[Post 4500]

Aposentado/reformado/jubilado

É uma alegria

      Em conversa ontem com um amigo, professor recém-aposentado, surgiu a questão da etimologia da palavra e, era inevitável, a destrinça entre reformado, aposentado e jubilado. Se reformado é o que voltou à primeira forma, ao primeiro estado, está aqui uma grande mentira, pois nunca se volta ao primitivo estado. Mas reformado também significa desfigurado, o que já se aproxima da verdade, sobretudo ao fim de 36 anos de trabalho. Quanto a jubilado, a injustiça é óbvia: só os professores universitários e os juízes se jubilam. Jubilar(-se) é encher-se de júbilo, de intensa alegria ou contentamento, e nem todos têm motivos para isso. (No Brasil, também os estudantes universitários são jubilados, mas não me parece que fiquem cheios de júbilo...)
[Post 4499]


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