Como se escreve nos jornais

Mettre en poche

      «Não é à China, nem à Rússia, nem à Venezuela, nem ao Brasil; nem tanto, sequer, aos países da zona. É aos que historicamente culpam por todos os seus males e que forjaram cumplicidades com todos os ditadores em causa — mesmo os que, como Kadhafi, mandaram abater aviões civis europeus — em troca de petróleo, contenção da imigração e investimentos bilaterais, os que empocham sorridentes o dinheiro das oligarquias e fecham os olhos a todas as violações de direitos humanos que não apareçam em prime-time (só agora é que a Suíça percebeu que Mubarak e Kadhafi são facínoras, para decidir congelar-lhes as continhas?) que os líbios e os bahreinianos pedem apoio: a velha Europa e a velha América» («24.02.2011», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 25.02.2011, p. 9).
      No Diário de Notícias, não há jornalista tão propenso ao barbarismo. Experimente, Fernanda Câncio, perguntar aí aos seus colegas se sabem o que significa «empochar». Não sei se há algum dicionário da língua portuguesa que acolha o verbo, tirante José Pedro Machado no Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Lisboa: Amigos do Livro Editores, 1981, p. 375), que condena o seu uso: «Empochar, v. tr. Galicismo de uso condenável, pois só há vantagem em o substituir por embolsar.» «O empochar, por embolsar, já se vai vulgarizando, e não tardará que digamos poche em vez de bôlsa» (Paladinos da Linguagem, Agostinho de Campos. Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1922, p. 237). «Empochar. É galicismo inaceitável por embolsar» (Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, Vasco Botelho de Amaral. Lisboa: Editora Educação Nacional, p. 178).
      Para juntar o pior de outros e deste tempo, a jornalista também achou imprescindível o anglicismo prime-time. Tem receio de, se não escrever desta forma, não ser entendida...

[Post 4489]

Acordo Ortográfico

Ensandeceram

      Relativo a matéria? Matérico. Inopcidade (?). Linguagem de filósofo, mas não é disto que quero falar. No laboratório, vejo que alguns escrevem (e não são professores de Física disléxicos) «fição», outros escrevem (e não são cegos) «diotrias». É o novo acordo ortográfico e são professores que assim escrevem. Pês e cês é tudo para deitar abaixo a esmo e a eito. Vamos a ver se o que sobra é legível.

[Post 4488]

«Medicamento órfão»

Próximo!

      Paula Brito e Costa, da associação Raríssimas, no noticiário das 9 da manhã da Antena 1: «E depois não vão querer que a Paula Costa diga que os doentes estão a morrer. Estão a morrer! E, neste momento, dois doentes do São João estão muito prestes a morrer porque não têm acesso ao medicamento órfão.»
      Os jornalistas, tanto quanto ouvi, não explicaram o conceito, novo para mim, de «medicamento órfão». (Não são apenas alguns gestores hospitalares, como disse António Arnaut, que deveriam estar em fábricas de sabonetes...) Cheirou-me logo a bifecamone, como diria Montexto, mascarado de português. E é: vem de orphan drugs. São produtos médicos destinados à prevenção, diagnóstico ou tratamento de doenças raras muito graves ou que constituem um risco para a vida.

[Post 4487]

«Guichet/guichê/guiché»

Senha 27

      «Seriam umas dez horas quando estranhei a ausência de acção. “Mas este processo não é aqui!”, respondeu-me a menina do guichet, abanando a cabeça enquanto me apontava no papel: era na 2.ª Secção do 3.º Juízo e não a [sic] 3.ª Secção do 2.º Juízo» («A cafrealização de Vara e outras histórias», Jorge Fiel, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 7).
      Eu pensava que no Diário de Notícias se escrevia «guiché» (ou, cá está a dupla grafia, «guichê»). Isto para quem não quer usar um vocábulo bem português, como postigo ou portinhola. (Para certos falantes — no Alentejo? —, «portinhola» é sobretudo a braguilha.) No século XIX, abundavam na literatura as portinholas — das carruagens.

[Post 4486]


«Prof/profe», de novo

Não custa nada

      «Os dez passos dos profs para o bloqueio» (Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 2).
      Cá está: se se grafar profe no singular, o que é mais conforme à língua portuguesa, teremos um plural regular: profes. Tentem.
                                                          
[Post 4485]

«Taser/taser», de novo

Vacilações

      Na página 19, feminino: «As Taser passaram a ser utilizadas nas prisões portuguesas na sequência de um incidente no EP de Pinheiro da Cruz, em Novembro de 2006» («Motim levou prisões a usar ‘Tasers’», Luís Fontes, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 19). Na página 60, masculino: «No princípio deste mês, o Presidente Sarkozy, em visita a uma esquadra em Orleães, foi apresentado a um taser: “Experimentou-o em si próprio?”, perguntou ao polícia. Este respondeu: “É a regra. Isso permite saber as capacidades do material.”» («O vídeo-choque do choque ao preso», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 24.02.2011, p. 60). E não é só no género que há vacilações. Taser ou taser?aqui tínhamos visto a questão. Uma coisa é certa: a arma eléctrica usada agora na Prisão de Paços de Ferreira foi uma Taser X60. «Descarga eléctrica denominada de ondas-T altera o sistema nervoso central e a pessoa atingida cai», lê-se na infografia que acompanha o primeiro dos artigos citados.

[Post 4484]

Acordo Ortográfico

Últimas

      Já há pessoas, compatriotas nossos, gente à primeira vista normal, que dizem e escrevem afoitamente «assumpção», autorizadas, julgam elas, pelo Acordo Ortográfico de 1990. É só mais um delírio. Não veio Gonçalves Viana acabar, em 1911!, com esta grafia? Está a par da «dição».

[Post 4483]

Selecção vocabular

Ao calhas

      «No processo, segundo o DN apurou, consta que os três disparos ficaram registados na comunicação rádio da polícia antes da chamada para o 112. Nessa gravação audio [sic] ouve-se um primeiro disparo seguido de outros dois seguidos (o que corrobora o que o arguido contou agora em tribunal)» («“Não sou maluco para andar aos tiros ao calhas”», Rute Coelho, Diário de Notícias, 23.02.2011, p. 19).
      «Um primeiro disparo seguido de outros dois seguidos», escreveu o jornalista, como se não houvesse sinónimos nem paciência para escrever melhor. «Comunicação rádio» também é assaz estranho.


[Post 4482]

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