Pronúncia: «acerca de»

A cerca e as ovelhas

      José Sócrates estava hoje no Congresso das Exportações, em Santa Maria da Feira, e disse, fero e primo-ministerialmente patriótico: «Isto não é acerca de partidos, isto não é acerca de poder, isto é acerca do País.» E como pronunciou aquele triplo «acerca»? «A cerca». No Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pela Academia das Ciências de Lisboa em 1940, a locução prepositiva ainda aparecia com a grafia àcêrca. O Acordo Ortográfico de 1945, porém, suprimiu os acentos que distinguiam palavras homógrafas heterofónicas e referiu explicitamente aquela. Por isso, o Vocabulário Ortográfico Resumido da Língua Portuguesa, também da Academia das Ciências, datado de 1947, regista já, na página 8, «acerca», indicando, porém, a pronúncia: «(à...ê)». E o Acordo Ortográfico de 1990 continuou nesta via, mas deixou algumas excepções que estão a intrigar os professores (pelo menos os que frequentam qualquer curso sobre a nova norma ortográfica da língua portuguesa. E há cursos destes com uma carga horária de... 12 horas!), como por/pôr. Os falantes não se dão bem com acentos, mas a verdade é que a desambiguação de palavras homógrafas por meio dos acentos ajudava e muito. Pode/pôde, demos/dêmos, cantamos/cantámos, pelo/pêlo, pára/para... Entre excepções e usos opcionais, lá se vai a decantada unidade.

[Post 4411]

Como se escreve nos jornais

Então, distraímo-nos?

      «Wlad Godzich, professor de Literatura na Universidade de Genève, falou, num livro intitulado “The Culture of Literacy”, daquilo a que chama “novo vocacionalismo”, isto é, uma conceção utilitária da universidade, que é transformada num sítio de produção visando preferencialmente o contexto económico, o que requer fornecer aos alunos uma “literacia operativa”, com a qual eles devem ficar dotados das ferramentas para se moverem com eficácia no seu estrito campo» («O presente e o futuro das humanidades», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 32).
      Caro António Guerreiro: creio que é Université de Genève que se diz. Ou será Universidade de Genebra?


[Post 4410]

Léxico: «espartaquista»

Menos escravo

      «As palavras ‘revolta’ e ‘revolução’ têm sido usadas indistintamente para descrever o que se está a passar em alguns países árabes. Deve-se a um grande germanista e mitólogo italiano, Furi Jesi, ter definido com precisão, num livro sobre Rosa Luxemburgo e o movimento spartakista, o campo de referência de cada uma dessas palavras» («Sobre a diferença entre revolta e revolução, no momento em que as duas palavras encontram atualização», António Guerreiro, «Atual»/Expresso, 5.02.2011, p. 33).
      Se o nome faz alusão a Espártaco, então será o movimento espartaquista, ou não? Tal como ao movimento não chamaremos, armados em Alemães, Spartakusbund, mas Liga Espartaquista. Ou temos aqui outro Archilochos?

[Post 4409]


«Evocar/invocar», de novo

Sem formação?

      «Os tradutores estão sujeitos a normas estabelecidas nos códigos penais, prestam juramento, não podem faltar quando convocados, a não ser que evoquem motivos atendíveis. Isto é: não dominar suficientemente o Português ou não ter condições para o fazer, como, por exemplo, um outro trabalho que os impeça de prestar aquele serviço» («Tradutores e intérpretes sem receber desde Setembro», Clara Vasconcelos, Jornal de Notícias, 7.02.2011, p. 8).
      Cá está a confusão entre evocar e invocar. Os tradutores e intérpretes jurídicos, sei agora, ainda não têm uma associação, mas no próximo mês, com a criação da Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes Jurídicos (APIJUR), isso vai mudar. Acrescenta a jornalista: «Ninguém sabe quantos existem. Eles são nomeados pelos tribunais e recrutados através de empresas que os indicam ou mesmo através de “candidaturas” que enviam para os tribunais. Não precisam de qualquer tipo de formação.»

[Post 4408]

Sobre «profiler», de novo

É triste

      «“O que queres ser?” É daquelas clássicas de conversa com miúdos. Perguntamos mal percebemos que são capazes de entender a pergunta. Sabemos que vai sair qualquer coisa como bombeiro, polícia, cowboy, astronauta, condutor de automóveis ou tratador de animais, cientista ou veterinário, conforme a brincadeira que estiver no auge ou a série na berra (OK: isto se calhar era dantes, agora é mais top model, cantor, estilista, actor de novelas ou profiler)» («Ser o quê», Fernanda Câncio, Notícias Magazine, 6.02.2011, p. 24).
      Deve ser triste ter uma profissão para a qual só há designação inglesa. Não me conformo com profiler, mas eis que estou agora precisamente com uma obra, e o vocábulo campeia por ali. Perfilista?, pergunto de novo.

[Post 4407]

Sobre «destabilizar»

Não faz falta


      «A frustração de estar rodeado de crianças que não tinham os mesmos interesses, a ouvir matérias que já conhecia, aborrecia-o e levava-o a destabilizar a aula, por estar aborrecido de ali estar» («Há mais de 60 mil crianças e jovens sobredotados em Portugal», Raquel Tereso, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 18).
      Em rigor, não precisamos de destabilizar nem de desestabilizar, e quem use conscienciosamente a língua decerto que o sabe.

[Post 4406]

Como se escreve nos jornais

É chinês


      A Liga dos Chineses em Portugal (LCP) apoiou, lembram-se de o ter dito aqui?, Cavaco Silva. Pois agora, numa notícia sobre o agiota chinês que sequestrou uma mulher, lia-se isto na edição de ontem do Diário de Notícias: «Mas o presidente da Associação China Única, Y Pong Chow, desmentiu ao DN a existência de máfias chinesas a operar em Portugal» («Chinês já estava referenciado por agiotagem há 15 anos», Joaquim Gomes, Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 23). Não apenas o nome da associação não está certo, mas, pior ainda, o nome do próprio presidente da associação, e aparece três vezes no artigo. E era facílimo comprovar estes dados. Se isto não é escrever com os pés, o que é?

[Post 4405]

Sobre «overdose»

Ainda não


      «Um grupo de 13 pessoas pertencentes ao grupo 10:23 Portugal juntou-se ontem nos jardins do Príncipe Real, em Lisboa, para tomarem em simultâneo uma overdose de medicamentos homeopáticos (produtos feitos à base de plantas)» («‘Overdose’ de medicamentos sem efeitos registados», Diário de Notícias, 6.02.2011, p. 27).
      Eu até pensava que no Diário de Notícias não se usava o anglicismo «overdose». Quanto aos dicionários, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista apenas «sobredosagem» e o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa só regista «sobredose».

[Post 4404]

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