Redundância

Tenho ouvido

      «Nós tínhamos conseguido», disse o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, à Antena 1, «dentro do âmbito do orçamento do próprio ministério, uma quantia de 5 milhões de euros, que foi disponibilizada por um despacho das Finanças, de finais de Setembro, para adquirir material.» Sim, é verdade, é na oralidade, é um improviso, mas, mesmo assim, serve para mostrar como actualmente se abusa do advérbio dentro. Neste caso, avulta a redundância, mas nem sempre é esse o problema. Não é raro ouvir-se, na mesmíssima Antena 1, jornalistas dizerem algo como «dentro da União Europeia». Já não chegam as preposições.
[Post 4191]

Acordo Ortográfico

Assim não vale

      O jornal Público tem uma estranha forma de tratar os textos dos cronistas a quem permite que escrevam segundo as normas do novo acordo ortográfico. Pendente como uma bula, no fim da crónica («Privilégios regionais», Vital Moreira, Público, 7.12.2010, p. 37) de Vital Moreira pode ler-se: «a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico». Afirmação, decerto, com reserva mental, pois não dizem de que acordo ortográfico se trata. Ficamos logo esclarecidos quando lemos estes vocábulos no texto daquele eurodeputado: actual, efectuada, objecção, excepção, objectivamente, objectiva...
[Post 4190]

Toponímia oliventina

Imagem tirada daqui
Bom exemplo

      Tanto me surpreendem as ausências, de que já aqui dei dezenas de exemplos, de vocábulos dos dicionários como a sobrevivência de outros. É o caso. Os dicionários mais vulgares da língua portuguesa continuam a acolher o vocábulo esnoga. Já conheciam? Talvez soe familiar a quem leu uma notícia no Verão que dava conta de as autoridades espanholas terem permitido que 73 ruas de Olivença voltassem a ostentar os nomes originais. (Mas coincidiu com o Mundial da África no Sul, e andava tudo aluado...) Ora bem, um desses arruamentos é a Rua da Esnoga, justamente porque nela se situava a sinagoga, a judiaria quinhentista de Olivença. Esnoga é, a par de outras, uma variante de «sinagoga». Lia-se no Diário de Notícias: «A toponímia original das ruas, que nalguns casos remonta à Idade Média, é inspirada nos antigos grémios de artesãos (como as ruas dos Oleiros e dos Saboeiros), em pessoas notáveis da vila (becos de Rui Lobo e João da Gama, faceira de Afonso Mouro, rua de Maria da Cruz) ou em santos de devoção popular (entre os quais São Bartolomeu, São Bento e Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal) («Ruas de Olivença voltam a ter nomes portugueses», Luís Maneta, Diário de Notícias, 11.06.2010, p. 16). Atentem em faceira de Afonso Mouro. Poucos dicionários registam o termo «faceira». Faceira designa a terra de lavoura, fértil, perto de povoação.
[Post 4189]

«Exames extras»

Na senda

      E o Diário de Notícias continua a fazer o que mais de uma vez já aqui elogiei: «Os peritos do Instituto de Medicina Legal (IML) de Lisboa precisam de mais elementos para perceber se o chamado “violador de Telheiras” deve ser declarado imputável. Henrique Sotero terminou na quarta-feira o quarto exame em psiquiatria forense que lhe tinha sido marcado no IML, mas, ao contrário do que foi noticiado ontem por um jornal diário, este não será o seu último teste. “Foram agendados mais exames extras para este mês. Só não sei ao certo as datas porque não tenho de acompanhar o meu cliente nestas diligências”, afirmou ao DN o advogado de Henrique Sotero, Pereira da Silva» («Sotero vai fazer perícias extras», Rute Coelho, Diário de Notícias, 11.12.2010, p. 29).
[Post 4188]

Hífen

Sendo assim

      «Dois irmãos com mais de 80 anos e um operador de manobras que acorreu para os ajudar a atravessar a linha férrea na estação de Riachos, em Torres Novas, morreram ontem trucidados pelo Sud-Expresso. Mais um acidente para somar ao número de vítimas dos caminhos-de-ferro, que em 2009 totalizaram 49 acidentes e causaram 17 mortos. Este ano, já são seis as mortes» («Acidentes nas vias férreas causaram 17 mortes em 2009», João Baptista, Diário de Notícias, 10.06.2010, p. 6).
      Este é o excerto ideal para o que pretendo dizer, pois tem os vocábulos e locuções linha férrea, via férrea e caminho-de-ferro. Cada vez é mais comum ver as duas primeiras hifenizadas. Em relação a «caminho-de-ferro», desde sempre se viu metade das ocorrências sem hífen. Tudo junto, mostra bem a confusão das nossas regras em relação a esta matéria — e a ignorância dos falantes. Quanto aos dicionários, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista «via-férrea» e «caminho-de-ferro», exactamente como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Nenhum deles, contudo, regista «linha férrea», e, se o fizessem, supomos que grafariam com hífen, «linha-férrea», pois decerto que só por analogia chegaram — e erradamente — a «via-férrea». Erradamente porquê?, perguntará toda a gente (em que se incluem, apesar de tudo, os anónimos). Pois porque já o termo que originou a analogia, «caminho-de-ferro», tem uma grafia excepcional, uma vez que, de acordo com o Acordo Ortográfico de 1945, as locuções substantivas (alma de cântaro, cabeça de motim, cão de guarda, criado de quarto, moço de recados, sala de visitas) não são hifenizadas. Desde quando é que em linha férrea e via férrea o conjunto tem um sentido particular que transcende a soma dos seus elementos? Muito juízo no momento de usar da analogia. (Recomendação extensível aos que propugnam «presidenta».)
[Post 4187]

Ortografia: «Ilinóis»

Porque mais próximo de «urinóis»?


      Eu pensava que se podia contar para sempre que o Diário de Notícias escrevia Ilinóis e não Illinois. «Na altura, o então senador pelo Ilinóis encarregou vários membros da sua equipa de combater os rumores que se começavam a multiplicar» («Fé de Obama confunde americanos», C. R. F., Diário de Notícias, 20.08.2010, p. 28). Eis que na edição de ontem leio: «Antes da decisão de ontem, havia o plano para manter numa prisão de Illinois estes prisioneiros e os que acabassem por ser condenados. A lei de projecto de finanças de 2011, aprovada por 212 votos contra 206, afirma claramente que “nenhum fundo pode ser fornecido ao Departamento de Justiça para adquirir uma prisão com o objectivo de ali encarcerar os detidos da base naval de Guantánamo, Cuba”» («Barack Obama sem dinheiro para acabar com Guantánamo», Luís Naves, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 24).

[Post 4186]

Como se escreve nos jornais

Outra vez não!


      A Fundação José Saramago realizou ontem na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias uma sessão comemorativa dos 12 anos da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago. Até aqui, tudo normal. E quem esteve presente? O Diário de Notícias conta: «A iniciativa da Fundação José Saramago contará com a presença da mulher do escritor e presidenta da instituição, bem como de vários amigos que o autor convidou então para estarem presentes na entrega do Nobel em Estocolmo. A sessão terá início pelas 18.30, na Biblioteca Municipal do Palácio Galveias» («Fundação evoca prémio a Saramago», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 45).
      Um escritor quer que lhe escrevam o nome com minúsculas, e a imprensa escreve. O presidente de uma fundação, por acaso mulher, quer que a designem por «presidenta», e a imprensa, genuflecta, obedece. Aonde é que isto vai parar? Onde estão o discernimento, o critério, a independência?

[Post 4185]

Como se escreve nos jornais

Falta de sensibilidade


      As trufas voltaram ao Diário de Notícias. (São notícias repetidas, mas só para os leitores regulares...) Desta vez, a jornalista (não sabemos se a mesma, mas Nysse Arruda já a conhecemos de outros balanços) acertou no topónimo: «Apreciada desde os tempos dos sumérios, em torno de 1700-1600 a.C., a trufa branca tem sido considerada um fruto precioso e raro e motivado lendas e tendências em todas as épocas — para os gregos era um fruto tão valioso que os cozinheiros que inventassem novas receitas mereciam a cidadania; durante a Idade Média chegou a ser considerado um alimento do Diabo ou dos bruxos e feiticeiros, porque não se conseguia perceber se a trufa era um animal ou vegetal; mais tarde, os nobres e a realeza europeia consideravam-na como o melhor produto gourmet, especialmente na região do Piemonte, Norte de Itália» («Trufa-branca, a iguaria mais rara», Nysse Arruda, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 48). Mas depois, sai isto: «O requintado jantar começa com um quase etéreo prato de topinambour (uma espécie de alcachofra conhecida como alcachofra-de-Jerusalém) e girolles (um delicado cogumelo) com trufa-branca”, seguido por um ravioli de pecorino e parmesão com caldo de trufa-branca”» (idem, ibidem).
      Como brasileira que é, a jornalista devia estar alerta: há ali uma palavra do tupi disfarçada de francesa. Topinambour, exactamente. Em português diz-se topinambo, topinambor, tupinamba, tupinambo. Chega? Quero lá saber como dizem os chefes. Eu também não lhes digo como devem preparar as trufas. E mais: é alcachofra-de-jerusalém.

[Post 4184]

Arquivo do blogue