Tradução: «back-office»

Fala cristão


      «“Com um grande número de trabalhadores sazonais a trabalhar nas lojas, nos armazéns, em centros de distribuição e no back-office do retalho virtual, os gestores das lojas devem estar cientes do aumento do potencial de furto durante este período”, alerta o estudo, patrocinado pela empresa de gestão Checkpoint Systems» («Roubos no período de Natal valem 68 milhões», Rute Coelho, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 18).
      É um excerto de um estudo britânico chamado «Shoplifting for Christmas 2010». A dificuldade de traduzir o termo back-office (que eu só ouço aos empregados da Worten) não empancou o fluxo tradutológico da jornalista — ou não fosse jornalista. Vê-se que desconhece o exame Vieira (de Joaquim Vieira, ex-provedor do jornal Público): «Será que os meus pais vão perceber o que escrevi?» «Rute, fala cristão», recomendar-lhe-iam.

[Post 4183]

Cultura

Tem pilhas de graça


      «O candidato presidencial apoiado pelo PS e BE, Manuel Alegre, revelou ontem que está “muito mais bem preparado que Cavaco Silva”. Razões: “Conheço a História e sei há muito tempo, desde pequeno, quantos cantos têm Os Lusíadas”, destacou» («Alegre é melhor por “saber quantos cantos têm ‘Os Lusíadas’», Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 12).
      Este é um segredo mau de suster, por isso, lá vai: o revisor antibrasileiro julgava que se podia ser candidato a presidente da República com 18 anos. Ora, com adversários desta idade, Manuel Alegre não podia bazofiar, pois conhecem-se mesmo resumos do poema épico e nem é raro saber-se o número de estrofes. O estudante mais cerebrino nem ignora que as últimas duas palavras d’Os Lusíadas são «ter enveja».

[Post 4182]

Anglicismos

Para acabar


      «Facto é que, mesmo reduzindo o prize money, de 150 mil para 100 mil euros, a prova portuense bateu recordes em termos de pedidos de inscrição, tendo listas de espera em vários países» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Para terminar, o jornalista tinha de usar a expressão inglesa prize money. Deve ser na esperança de Athina Onassis ler o artigo... Se tivesse escrito prémio monetário, o marido dela, o cavaleiro Álvaro Miranda, que é brasileiro, traduzia para ela entender, e o jornalista não nos mandava para cima com mais inglesias desnecessárias. Vamos lá ver, agora mais a sério: se é mais ou menos compreensível que a organização use esses termos, mesmo em programas escritos em português, já não se passa o mesmo com o jornalista. São públicos diferentes.

[Post 4181]

Anglicismos

Olha, olha


      «Nos últimos dias, os pavilhões do salão de exposições nortenho ganharam a forma de um hipódromo em grande escala de modo a acolherem a maior prova hípica indoor que se realiza em Portugal: ao todo, foram transportados 60 camiões TIR de areia, 12 toneladas de palha e feno e 300 boxes para receberem os mais de 250 cavalos, avaliados em 18 milhões de euros, que vão participar na prova portuense, que este ano desceu um patamar em termos de prestígio competitivo como resultado da crise» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      Eu sei que se costuma dizer e escrever — mas usar o termo indoor parece-me subserviência no último grau, e até apetece dizer umas vernaculidades aliviadoras acerca disso. Então agora imaginem que eu traduzia «indoor training ring» por «picadeiro indoor». Qual é que era o homem sério que não deixaria escapar, pelo menos, um frouxo de riso? Boxes também já é um caso perdido. Os Ingleses, desimaginativos, têm caixas para os cavalos. Nós só cavalos de brincar enfiamos em caixas, quanto aos outros, é, e há muito tempo, em baias.

[Post 4180]

Léxico: «culote(s)»

Athina com os números


      «O equipamento para o cavalo, com sela, cabeçada e protecção dos cascos ronda um investimento na ordem dos dois mil euros. Já o equipamento do cavaleiro custará sensivelmente o mesmo e é composto por casaco, colete, culotte (calças), botas, capacete e chicote» («Dezoito milhões de euros em cavalos», Sérgio Pires, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 36).
      É como se escreve sempre — mas a palavra está aportuguesada há bastante tempo: culote(s). Claro que parece mais fino, sobretudo porque no artigo principal e num de apoio se refere a multimilionária Athina Onassis e os seus milhões. É «herdeira de uma fortuna estimada entre 750 milhões e 1,5 mil milhões de euros», lê-se no artigo. Pode ser e pode não ser: num artigo mais à frente, «Em lágrimas Oprah Winfrey nega ser lésbica» (p. 53), lê-se que a apresentadora «tem uma fortuna avaliada em cerca de dois milhões de euros». Bah.

[Post 4179]

Acordo Ortográfico

O acordo é um fato... roto


      «Paulo Feytor Pinto, presidente da Associação dos Professores de Português (APP), lembra que “estamos já numa fase de transição” e que a convivência com as duas grafias — a actual e a nova — levará muito tempo. Sobre o impacto que essa situação poderá ter na avaliação dos alunos, o responsável referiu que a APP sugeriu que “durante o período de transição as duas grafias sejam aceites”. Ou seja, escrever facto ou fato será aceite, sem ser considerado um erro. Medida que foi aplicada pelo Ministério da Educação nos exames nacionais» («Editoras prontas a aplicar o Acordo Ortográfico», Ana Maia, Diário de Notícias, 10.12.2010, p. 16).
      Se até uma jornalista, cujo trabalho anda todo à volta da língua, escreve este disparate, imagine-se o cidadão comum. Sabe Deus quem lhe disse que era assim...

[Post 4178]

Tradução: «resort»

Como a pessoa amada


      Outro anglicismo completamente desnecessário — e tão na moda que todo o bicho-careta procura desesperadamente ocasião de o usar — é resort. Muito se usa e abusa, hoje em dia, da palavrinha. Os jornalistas, esses grandes propinadores destes venenos de venda livre, começaram a usá-lo há não mais de meia dúzia de anos. Alguns tradutores também o acham necessário para exprimir um conceito que reputam completamente alheio. E estância, meus senhores, essa linda palavra? Acrescentem «balnear», «de Verão», «de Inverno».
      O mal dos estrangeirismos é que dão muito nas vistas. «A língua», como escreveu João de Araújo Correia na obra A Língua Portuguesa, «não deve mudar a olhos vistos. Deve ser como pessoa amada, que todos os dias se modifica sem que o notemos.»

[Post 4177]

Tradução: «panel»

Temos melhor


      Tinha de ser: o «panel of three veterinarians» transmutou-se em «painel de três veterinários», como se faltasse termo em português para traduzir aquele banal panel. Não usamos para conferência de médicos a locução junta médica? Então, «junta de três veterinários». E não é que o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora omite esta acepção de «junta»?! O mais próximo que regista é «grupo de pessoas com um dado fim, comissão».

[Post 4176]

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