Revisão

Não vale a pena?


      «A presidente-eleita do Brasil escreveu uma carta ao Papa em que afirma que deseja ter “uma relação fecunda” com a Igreja Católica. A missiva, escrita por Dilma mas analisada e revisada pelo chefe de gabinete de Lula, Gilberto Nascimento, é uma forma de mostra não ter ficado ressentida com Bento XVI, que antes da segunda volta pediu aos fiéis para não votarem em quem defendesse o aborto» («Aproximação a Bento XVI», Domingos G. Serrinha, Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 33).
      Então agora já não revêem o que um correspondente escreve, ainda por cima um correspondente que não redige segundo as normas do português europeu?

[Post 4104]

Tradução

Mal traduzido


      «Nas declarações conjuntas com Cavaco Silva e José Sócrates, [Obama] voltou a irradiar simpatia, lembrando em Belém que Cavaco Silva é “comandante-em-chefe” das Forças Armadas e elogiando em S. Bento a liderança de José Sócrates no combate à recessão económica» («’Big Show’ Obama com Cavaco Silva e José Sócrates», Correio da Manhã, 20.11.2010, p. 9).
      «Comandante Supremo das Forças Armadas», lê-se na Constituição. Em português, porém, diz-se comandante-chefe.

[Post 4103]

«Cocktail Molotov»

Novo mês, nova regra


      «A polícia entrou em confronto com centenas de manifestantes que respondiam com pedradas e cocktails molotov» («Percorrer o mundo para fazer a guerra à NATO», Hugo Filipe Coelho, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 7).
      Até nem me parece mal que se escreva com minúscula, mas reparem que um mês antes haviam grafado com maiúscula: «Petardos, pneus, gás lacrimogéneo ou cocktails Molotov são alguns dos artefactos usados por grupos activistas nas cimeiras da NATO e Portugal não deverá ser excepção, estando a PSP a treinar para os enfrentar» («PSP prepara-se para confrontos com activistas anti-Nato», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 25).

[Post 4102]

Aspas

Reflictam

      «Entre agentes da CIA e da segurança pessoal que já se deslocaram para Portugal há várias semanas, as equipas de análise de informações que têm estado a trabalhar com as “secretas” portuguesas e os elementos das equipas de guarda-costas que vão estar mais próximos de Barack Obama, chega às duas centenas o número de pessoas envolvidas na protecção do Presidente norte-americano» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Já aqui perguntei uma vez, mas, paciente, pergunto de novo: para quê as aspas em «secretas»? Trata-se de algum uso metalinguístico? E «presidente» merecerá inicial maiúscula?

[Post 4101]

Tradução: «jamming»

Procurem


      «Nas suas deslocações vai usar, pelo menos, quatro viaturas blindadas. Uma delas para seu transporte e as outras três de segurança. Um destes veículos está equipado com material de “empastelamento” de comunicações, ou jamming, e tem como missão exclusiva bloquear todas as comunicações telefónicas ou de rádio nas zonas por onde passe a comitiva» («Obama traz quase 200 seguranças na visita a Portugal», Patrícia Viegas e Valentina Marcelino, Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 2).
      Nem todos os dicionários registam o vocábulo «empastelamento». O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora acolhe-o: «MILITAR irradiar ou reflectir deliberadamente energia electromagnética com o fim de impedir a utilização, pelo inimigo, dos seus sistemas de telecomunicação».

[Post 4100]

Como se escreve nos jornais

Na Lua


      «[Allan Sandage, 1926―2010] Foi um dos astrónomos mais influentes da área da cosmologia, tendo escrito mais de 500 artigos e livros sobre o universo, a evolução e comportamento das estrelas, a descoberta do primeiro quasar, o nascimento da galáxia Milky Way» («O homem que dedicou a vida a medir a expansão do universo», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 45).
      Também eu gostava de escrever obituários, mas não ia trocar assim as línguas. Milky Way em inglês, em português é Via Láctea.

[Post 4099]

Itálico

É pena


      «Segundo a mitologia nórdica, Erik, o Vermelho, foi o primeiro a pisar a Gronelândia e o seu filho, Leif Eriksson, o primeiro a chegar à América, por volta do ano 1000 d.C. Teria sido ele, ou alguém próximo, a trazer a ameríndia, cujos genes se encontram hoje nas quatro famílias estudadas. Em 1960, foram encontrados na Terra Nova (Canadá) vestígios de um acampamento típico dos viquingues. Alguns acreditam tratar-se de Leifsbúoir, descrito na famosa Saga de Erik o Sanguinário» («Viquingues trouxeram uma ameríndia para a Europa há mil anos», Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 27). «As Três Graças, um pequeno quadro no qual três jovens nuas exibem a sua luminosidade jovial sobre um fundo sombrio, é da autoria do alemão Lucas Cranach, o Velho (1472-1553), cuja obra passou sobretudo pelo retrato e pela representação de temas religiosos» («Louvre pede um milhão para comprar quadro», J. E. M., Diário de Notícias, 18.11.2010, p. 50).
      Falta uma visão de conjunto, o olhar de alguém que vele pela aplicação uniforme das regras.

[Post 4098]

«Bem-sucedido»/«bem sucedido»

Critério


      «Estes regimentos, concebidos durante as reformas militares de 1870-1880, baseavam-se nos regimentos do exército alemão, na altura um dos mais bem-sucedidos do mundo» (Uma Introdução à Vida de Churchill, John Keegan. Tradução de Jorge Palinhos e revisão de Paulo Salgado Moreira. Lisboa: Tinta-da-China, 2007, p. 41). «Tinha agora toda a liberdade para escrever o que quisesse e, embora a sua experiência de campanha servisse de material para a sua segunda narrativa militar, The River War, que seria tão bem sucedida como a anterior, o seu interesse já estava virado para outras questões, nomeadamente a política e o amor» (idem, ibidem, pp. 53.-54). «Em Inglaterra, o seu quarto livro, London to Ladysmith via Pretoria, foi tão bem-sucedido como os três anteriores e permitiu-lhe tornar-se financeiramente independente, pelo menos por algum tempo, enquanto a sua lucrativa actividade jornalística lhe trouxe ama» (idem, ibidem, pp. 59-60).
      Nem sequer se trata do critério — arbitrário, previna-se o leitor — que se adivinha no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia de Ciências de Lisboa.

[Post 4097]

Arquivo do blogue