Léxico: «andorriano»

Mais cuidado


      «Os três baristas vencedores vão agora representar Portugal no Campeonato Ibérico frente aos campeões espanhóis e andorrianos, que se realiza em Barcelona no próximo dia 9 de Novembro» («Melhor café é tirado em Leiria», Diário de Notícias, 15.10.2010, p. 72). O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, para não irmos mais longe, ignora esta variante do gentílico, tal como desconhece a variante andorrense. Incompreensível. O Dicionário Houaiss só ignora a variante andorriano.

[Post 4057]

«Sobre avaliação»

Não, senhora ministra


      Ana Jorge, ministra da Saúde, na Antena 1: «Nós tínhamos encontrado uma série de irregularidades com o uso da portaria e a única maneira de parar com essas irregularidades, que algumas eram muitos graves, e que estão sobre avaliação neste momento […] e por isso foi preciso suspender [a portaria].» Até ministros confundem as preposições. Ah, sim, e escritores, e revisores, e professores, e jornalistas... Este erro já passou por aqui.
      No mesmo serviço noticioso, das 3 da tarde, Maria de São José falou em «doentes mentais graves»; a repórter Natércia Simões, por seu lado, falou em «doentes psiquiátricos»: esperemos que seja o mesmo.

[Post 4056]

Selecção vocabular

O Senhor do Bonfim nos valha


      Na Pública de hoje («“Made in China”», p. 71), Ricardo Garcia quis fazer um exercício de estilo à volta das famigeradas fitas do Bonfim. «Amarra-se a dita cuja ao pulso, ao tornozelo ou seja lá onde for e ela vai-se desfazendo aos poucos, lentamente, até se partir — instante em que o desejo professado no momento do nó supostamente se realiza.» Os desejos professam-se? «Na Internet, encontrei um sítio que vende qualquer coisa advinda do Oriente: de cabos coaxiais a enormes gruas, de sacos para compras a bidões para gasolina, de torneiras a computadores, de estátuas religiosas a moldes para plásticos.» As coisas advêm? «Além disso, no fundo, somos todos iguais. Se hoje vivemos refestelados no conforto ocidental, é porque antecessores nossos deram cabo das florestas, conspurcaram os rios, poluíram o ar, exploraram o trabalho infantil e praticaram outros comportamentos cívicos de semelhante nobreza, em prol da acumulação de riqueza.» Praticam-se comportamentos?

[Post 4055]

Como se escreve nos jornais

Non habemus correctores

      O cardeal protodiácono, perdão, o jornalista Miguel Gaspar quis escrever latim e saiu espanhol. Acontece. «Até que chegou a noite de sexta-feira, 29 de Novembro. Depois da ruptura, o acordo. Sabia-se que Teixeira dos Santos estava chez Catroga. E que o clima de serenidade doméstica fora mais propício ao fumo branco do que o bulício do Parlamento. Pouco depois das onze da noite, confirmou-se a notícia que já circulava pelas televisões. Habemos orçamento. E para o dia seguinte marcou-se a cerimónia solene da assinatura do dito cujo» («Os homens da luta», Miguel Gaspar, «Pública»/Público, 7.11.2010, p. 14). Os copidesques não deram por nada.
[Post 4054]

Ortografia: «mal-estar»

Vergonha


      «No primeiro jantar que teve este ano com Dilma Rousseff, a nova presidente do Brasil que assume funções no início de 2011, o número dois do novo Governo, Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), firmou um pacto com a pupila de Lula da Silva: “Teremos liberdade para dizer um ao outro o que queremos e o que não queremos, do que gostamos e do que não gostamos”, confidenciava, em Setembro, à revista Piauí. Os últimos acontecimentos dão-lhe, no entanto, motivos para um mau-estar logo no arranque» («Michel Temer: o trunfo de Dilma no Parlamento», Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 26).
      Pois se até professores falam e escrevem assim... Se a formação profissional não fosse a aldrabice que é, não aprendiam em pequenos, aprendiam na adultícia.

[Post 4053]

Léxico: «tuíte»

Más opções

      «“Entra o Governo com um tropeção de Mariano Gago”. A tuiteira Catarina Pereira começava assim, às 10 da manhã, com a hashtag (etiqueta que permite pesquisar os tuítes sobre um deterinado [sic] tema) #oe2011, o relato do debate do Orçamento de Estado» («Crispação no Parlamento, descontracção no Twitter», Fernanda Câncio, Diário de Notícias, 3.11.2010, p. 3). Entretanto, na edição de hoje do Público pode ler-se: «“Twittar”, “googlar”, “politólogo” ou “flexisegurança” são algumas das novas palavras que integram a edição actualizada do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora. A nova edição tem um total de 410 mil entradas, incluindo mais de seis mil estrangeirismos» (Público, 6.11.2010, p. 13).
[Post 4052]

«Desesma»?

Viva ou morta


      Procura-se: «Então porquê este cansaço, esta desesma até para falar, excepto para gritar de raiva?» (Solo Virgem, Turguiénev. Tradução de Manuel de Seabra. Lisboa: Editorial Futura, 1975, p. 159). Claro que pode ser gralha. Nem o recurso a um dicionário inverso nos deu qualquer pista.

[Post 4051]

Sobre «implementar»

Pretensões


      Quer ensinar-nos a ler um nome próprio estrangeiro — «Mas na hora da sua própria morte o camarada Ceausescu (ler “tcheauchescu”) não teve direito a honras de Estado nem a uma cerimónia familiar» (p. 8) —, mas depois escreve um português abastardado: «Cerca de 30 mil habitações serão removidas para implementar a mastodôntica Casa da República. Com o fim do regime é rebaptizada Palácio do Parlamento, mas a população de Bucareste no que respeita aos nomes oficiais é parecida com a lisboeta e toda a gente conhece o edifício como Casa Poporului (casa do povo)» («O marionetista e a marioneta», Rui Catalão, «Ípsilon»/Público, p. 11).

[Post 4050]

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