«Tenho certeza»?

Accra ataca de novo


      «Tenho certeza que dirão que sim» («I am quite sure they will say so.»), diz V, com a sua máscara de Guy Fawkes, a Evey Hammond, depois de a ter salvado das mãos dos acusadores num beco escuro de Londres durante o recolher obrigatório. O filme tem como título V de Vingança e passou ontem à noite na RTP1. Tradução e legendagem, lembram-se bem, de Accra B. Rockley. Lá está a omissão do artigo a denunciá-lo.

[Post 3545]

«Dar um quico»?

Fora de circulação


      «Um chefe de redacção que eu tive», escreveu Alice Vieira recentemente, «dizia muitas vezes: “Um jornal que se preza não circula com palavras fora de circulação.”» É claro que o conselho se aplica também a livros e a filmes, por exemplo. Num filme que anteontem passou na RTP1, Boiler Room (que também é conhecido por O Primeiro Milhão), o protagonista, Seth Davis, está num bar com uma colega, Abbie, e, a pedido dela, conta-lhe um episódio da sua infância. Tinha 10 anos e andava na rua de bicicleta, uma Mongoose prateada. «O meu pé escorregou e o pedal deu um quico e partiu-me a perna.» («And my foot slips and the pedal spins around hard enough to break my leg.»)
      Como substantivo dicionarizado, toda a gente saberá que quico é um chapéu pequeno e ridículo. Como substantivo deverbal, não dicionarizado, derivado de quicar, tenho sérias dúvidas da propriedade e de que a maioria dos falantes o conheça. Como não vi o filme até ao fim, não sei quem fez a tradução.

[Post 3544]

Verbo «haver»

Era só o que faltava


      À saída do debate quinzenal no Parlamento, o primeiro-ministro, José Sócrates, disse aos jornalistas: «Não, as únicas medidas que podem haver são aquelas medidas que são previstas no Plano de Estabilidade e Crescimento.»
      Por coincidência, já hoje aqui falámos da impessoalidade do verbo haver no sentido de existir. Há, é verdade, alguma tolerância (e é conveniente dizê-lo, pois em público, em vez de se congratularem com um blogue como este, há quem apele para a minha «complacência», como se eu fosse um monarca absoluto atreito a excessos...), dado que se trata da oralidade, mas ainda assim erro é erro, e este é grosseiro. Estão reunidas as condições para ser mais grave do que parece: é o primeiro-ministro e foi aos microfones da rádio.

[Post 3543]

Aiatola/foxetrote/sprinte

Uma lição


      Não é daqueles tradutores adeptos de aportuguesamentos descabelados, como já aqui vimos, mas ainda assim não deixa de surpreender os que vai adoptando: «Inspirava-o, no entanto, um espírito não menos implacável do que do aiatola e era reclamado em nome de ideais não menos exaltados» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 15). «Havia noites em que cada verso de cada canção assumia um significado tão estranhamente momentoso que ele acabava a dançar sozinho o foxetrote arrastado, leve, repetitivo, banal e, contudo, maravilhosamente útil para criar ambiente que costumava dançar com raparigas do liceu de East Orange, contra as quais comprimia, através das calças, as suas primeiras erecções significativas» (idem, ibidem, p. 27). «Pensar no Dr. Fensterman a entregar ao seu pai um grande saco de papel atafulhado com todo aquele dinheiro pô-lo de novo a correr, a saltar, de brincadeira, imaginárias barreiras baixas (era há vários anos o campeão liceal de provas de barreiras baixas de Essex County e o segundo nos duzentos metros sprinte) até à Evergreen e volta» (idem, ibidem, p. 102).
      De resto, as traduções de Fernanda Pinto Rodrigues deviam ser lidas com muita atenção por tradutores, revisores e editores. Escrever-se-iam menos disparates.

[Post 3542]

Haver/existir

É connosco


      «Dou frequentemente com o verbo “existir”», escreve-me o leitor Pedro Ribeiro, «a ser usado em frases onde o verbo “haver” servia perfeitamente.» Acrescentou alguns exemplos: «O responsável assinalou que existem em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas legais» (in Sol). «Existem 2,08 milhões de empréstimos à habitação» (in Diário de Notícias). «Porque não dizer que “há em Portugal cerca de 1,4 milhões de armas” ou que “há 2,08 milhões de empréstimos”?» E conclui: «Enfim, a minha sensação é que, como “haver” é um verbo irregular e que pode ser complicado de conjugar, muitos escritores acabam por se refugiar no “existir”. Mas não creio que as palavras sejam sinónimos.»
      São sinónimos, pelo menos actualmente e numa das acepções, mas a peculiaridade do verbo haver no sentido de existir é a sua impessoalidade, o que é ignorado por alguns alunos, professores, políticos, jornalistas, revisores... Nos casos que indica, contudo, também eu mudaria os verbos.

[Post 3541]

Léxico: «clickjacking»

Não é comigo


      «Centenas de milhares de utilizadores do Facebook estão a ser vítimas de ataques de “clickjacking”, segundo vários especialistas internacionais em segurança online. Clicando em links como “Campeonato do Mundo 2010 em HD”, que outras pessoas dizem ter “gostado”, os membros da rede social são reencaminhados para sites “maliciosos” controlados por terceiros. Os ataques infiltram-se no sistema do utilizador» («“Jacking” chegou ao Facebook», T. C. E., Metro, 4.6.2010, p. 12).
      Num tempo em que o Facebook parece ter tomado conta do mundo — e eu continuo fora do mundo, porque estou fora do Facebook —, mais um neologismo para decorar.

[Post 3540]

De mais/demais

É como quiser


      «Era por demais óbvio que, se eu estivesse minimamente consciente durante as últimas horas, teria tentado escapulir-me há imenso tempo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 154). «Durante o encontro, Coleman ouvira em silêncio, refreando os seus sentimentos, tentando manter o espírito aberto e ignorar a satisfação por de mais aparente com que Primus expunha e aconselhava, com pompa, as virtudes da prudência a um professor universitário quase quarenta nos mais velho do que ele» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 95).
      É mais uma das áreas pantanosas da nossa língua. Ninguém erra escrevendo de uma ou de outra forma. Só pode haver preferências, e eu prefiro por de mais.

[Post 3539]

«Quando muito»

Outra vez?


      «Com base nas dimensões da casa, o quarto trancado à chave não seria muito grande, quanto muito seria ligeiramente mais pequeno do que o meu quarto, e talvez não fosse mais do que um cubículo» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 59).
      No máximo, se tanto — escreve-se quando muito, e já o vimos aqui mais de uma vez. Só para demonstrar que é no mais simples que muitas vezes nos espalhamos ao comprido.

[Post 3538]

Actualização em 7.06.2010

      Parece ser um erro de todos os dias: «Mas não era como se, graças a algum freudismo de ocasião, Rema viesse substituir de modo obscuro a minha mãe; quanto muito, Rema fazia com que a minha mãe parecesse, em retrospectiva, uma sombra pálida de um amor original ainda por surgir» (Perturbações Atmosféricas, Rivka Galchen. Tradução de Manuel Cintra. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2010, p. 65).



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