Hífen

Piso escorregadio


      O uso do hífen merecia um estudo sério e uma reforma ortográfica. Entretanto, manda o capricho de cada escrevente e dicionarista. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não há dúvida: é com hífen. Meia-verdade. Se procurarmos «meia-verdade» no Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, o nosso olhar cai no espaço entre «meia-tinta» e «meia-volta». Recorremos ao VOLP da Academia Brasileira e também não o encontramos, mas entre «meia-tinta» e «meia-volta» encontramos «meia-vida» e «meia-vira».
      «Meia verdade. Menos de meia verdade. Boa sorte e lamento. O Primeiro Eric Sanderson» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 23).
      Mas ainda o capricho. «Há a cabeça de um sapo; uma flor; uma espécie estranha de alga; e um animal meio-ave meio-serpente» (O Que Faço Eu Aqui?, Bruce Chatwin. Tradução de José Luís Luna e revisão de Carlos Pinheiro. Lisboa: Quetzal Editores, 2009, p. 110) «Aos vinte e dois anos, sentindo-se asfixiado pela falsa euforia que reinava em Paris de pós-guerra, organizou uma expedição ao Camboja à procura das ruínas khmers, mas as autoridades coloniais prenderam-no por tentar escapar com esculturas que encontrara meio-perdidas na selva» (idem, ibidem, p. 130). «Um desses aventureiros, vestido num traje com plumas, pretendia ser apenas meio-mortal quando o desgraçado nem conseguia transformar o cinabre em ouro» (idem, ibidem, p. 218).
      Podemos continuar assim? Podemos, mas viveríamos muito melhor com certezas.

[Post 3533]

Tradução: «condition»

Sem condições


      «— Na maioria dos casos, a amnésia dissociativa aparece e desaparece relativamente depressa. Na generalidade, é o evento despoletador, o incidente traumático que provoca a condição, que é esquecido. Por vezes, a perda de memória pode ser... — a Dr.ª Randle desenhou um pequeno círculo com a cabeça — mais abrangente, mas isso é raro. Até uma única recorrência de qualquer género de amnésia dissociativa é muito, muito invulgar» (Memória de Tubarão, Steven Hall. Tradução de José Remelhe e Luís Santos. Queluz de Baixo: Editorial Presença, 2009, p. 20).
      Isto não está em condições: desde quando é que em português se usa o vocábulo condição para nos referirmos ao estado de saúde? Nem sempre a condition inglesa é a condição portuguesa. Nesta tradução, é erro que se repete demasiado.

[Post 3532]

Léxico: «advocacionalmente»

Tinha de ser


      «Se o objectivo fosse aconselhar de modo advocacionalmente persuasivo, uma dose muito pequena de troça teria sido mais eficaz» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 95).
      Não temos o adjectivo «advocacional» nem, naturalmente, o advérbio «advocacionalmente» — mas traduzir também é inventar. Haveria alternativa a este «advocacionalmente»? Não estou a ver.

[Post 3531]

Actualização em 2.06.2010

      Paulo Araujo encontrou uma abonação para o advérbio «advocacionalmente»: no tomo XXII do Boletim de Filologia e pela mão de, nada menos, Pedro Cunha Serra (1919–2002), o grande estudioso da toponímia portuguesa, que, numa recensão da obra Arabic, the source of all the language (Lahore, 1963), de Muhammad Ahmad Mazhar, escreveu: «O Autor do presente trabalho, investigador, poeta e advogado, mostra-se totalmente impreparado para estudos com carácter científico. […] E assim, muito advocacionalmente, se elimina aquela discutível tese da unidade de origem de línguas semíticas e indo-europeias que apenas verifica ou pretende verificar uma relação de parentesco, sem estabelecer qualquer hierarquia ou linhagem.»



Tradução: «destigmatized»

Desaprovado


      «É capaz de pensar como muitas mulheres têm pensado desde que o acto de gerar um bastardo foi destigmatizado por Jim Morrison e pelos Doors» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 92).
      Pois é, mas com o prefixo des-, teríamos desestigmatizado, ou não? Estabilizado/desestabilizado; estatizado/desestatizado; estruturado/desestruturado... A tradução de Fernanda Pinto Rodrigues está servil e desnecessariamente próxima do inglês destigmatized.

[Post 3530]

Tradução: «racoon»

Racum com espaguete


      «Os problemas com Les Farley começaram mais tarde, nessa noite, quando Coleman ouviu qualquer coisa mexer nos arbustos, no exterior, achou que não se tratava de um gamo ou de um racoon, levantou-se da mesa da cozinha onde ele e Faunia tinham acabado de comer o espaguete do jantar e, da porta da cozinha e à meia-luz estival do anoitecer, distinguiu um homem a correr pelo campo das traseiras da casa, na direcção da casa» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 65).
      Fernanda Pinto Rodrigues não é dessas tradutoras fundamentalistas que levam tudo a eito, sem concessões a estrangeirismos, mas, neste caso, não compreendo porque não traduziu racoon. Sempre o vi traduzido por «guaxinim» (Procyon lotor). O Dicionário Houaiss regista o aportuguesamento racum. O problema com a tradução de nomes de animais é muito simples: muitas vezes, por não se ter identificado bem o nome científico, a tradução está errada.
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista espaguete (único aportuguesamento, foneticamente mais próximo do étimo, usado pelos Brasileiros), que eu nunca usei nem usarei.

[Post 3529]

Dano-islandês

Eis um exemplo


      «Fosse o que fosse, seria visível para ela em virtude de ser uma loura dano-islandesa descendente de uma longa linhagem de islandeses e dinamarqueses louros, criada num meio escandinavo em casa, na escola, na igreja, toda a sua vida na companhia apenas de...» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 128).
      Já aqui tínhamos visto um leitor a perguntar qual se devia escrever dano-chinesa ou dinamarco-chinesa.

[Post 3528]

Léxico: «adrenalínico»

Pode dar jeito


      «O adrenalínico Aquiles, o mais altamente inflamável dos explosivos homens violentos que escritor algum jamais teve o prazer de retratar, sobretudo quando estão em causa o seu prestígio e o seu apetite; a máquina de matar mais hipersensível da história da guerra» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 17).
      É daqueles aportuguesamentos quase inevitáveis e que não descaracterizam a língua.

[Post 3527]

«Amassar fortuna»?

Falso amigo


      O secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, já passou aqui por este blogue e nunca por boas razões. Ontem vimo-lo na televisão a defender que «é preciso romper este círculo vicioso» de alternância PS-PSD. E mais: «Enquanto continuar este rotativismo entre PS e PSD, com a bengala do CDS, a banca e os heróis do PSI20 continuarão a encher os bolsos e a amassar fortunas à custa do povo e do país», lamentou o líder comunista.
      Já o tinha ouvido mais de uma vez falar dos que «amassam fortunas», mas distraí-me sempre e não disse aqui nada. De hoje não passa: amassar fortunas não é português, e só estranho que ninguém tenha advertido o líder. (Caro Ruben de Carvalho, dê uma palavrinha a Jerónimo de Sousa.) Amasar fortuna (ou bienes) é espanhol e significa reunir, acumular fortuna (ou bens).

[Post 3526]

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