Léxico: «asa»

Monomania


      «Desde a manhã, quando se inicia o julgamento em que está acusado de homicídio qualificado e de profanação de cadáver, o arguido ia ouvindo os depoimentos sempre com a mesma postura. E quando a magistrada que preside ao colectivo (Maria João Roxo Velez, que tem como “asas” os magistrados Nélson Fernandes e Ana Raquel Pinheiro) lhe pergunta se quer dizer algo no fim das alegações Abel Ribeiro quase sussurra: “Não quero acrescentar mais nada.”» («Filho que matou e congelou a mãe pode ter pena atenuada», Paula Carmo, Diário de Notícias, 7.4.2010, p. 19).
      Não estará na hora de os dicionários registarem esta acepção de asa? As aspas são monomania dos jornalistas. Temem que os pobres leitores pensem que eles se estão a referir ao apêndice membranoso do coleóptero conhecido por magistrado. Os tribunais colectivos, como se sabe, são compostos por três juízes, dois juízes de círculo, um dos quais presidirá ao colectivo, e o juiz do processo. Assim, a definição poderia ter a seguinte redacção: cada um dos dois juízes dos tribunais colectivos que auxiliam o juiz-presidente.

[Post 3321]

Como se escreve nos jornais

Quem borrou a pintura?


      Nunca saberemos quem foi lá mais vezes, se eu se Domingos Amaral. O director da GQ, porém, num artigo publicado ontem, em que celebra o anúncio da reabertura, agora pela mão da Leya, desta livraria, escreveu onze vezes (conto também a ocorrência do destaque) mal o nome, acrescentando-lhe um t e suprimindo-lhe um h: Bucholtz. Como é que alguém se fia na memória para escrever um nome assim? Eduardo Pitta, no Da Literatura, pergunta se o Correio da Manhã deixou de ter revisores.

[Post 3320]

Sobre «mupi»

Não inventem


      «“Reserva o teu lugar entre os melhores do mundo” é o mote da campanha de comunicações das Escolas do Turismo de Portugal, que decorre de Abril a Dezembro, na Internet, mupies e outdoors, imprensa, cinema e acções específicas em todo o país» («Turismo de Portugal lança maior campanha», Diário de Notícias, 5.4.2010, p. 46).
      De todos, é o meu texto mais visto. Nele explico que mupi é um acrónimo. Senhores jornalistas, não inventem, pesquisem.

[Post 3319]

«Acelera», duas acepções

Mas não estão a ver?


      «As aceleras, com menos de 50cc têm sido penalizadas» («Venda de ‘aceleras’ a cair», D. R., Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 25).
      Vejam bem: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista só uma acepção, que é a de pessoa que gosta de conduzir a alta velocidade. Pois é, mas no texto é usada outra acepção: veículo de duas rodas accionado por um pequeno motor de explosão. Esta acepção está registada no Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, que só regista esta acepção. Agora já sabem: têm de passar a registar ambas as acepções. Troquem verbetes.

[Post 3318]

Como se escreve nos jornais

Mau exemplo


      Antropónimos com dupla grafia? Hum... «Depois de Terreblanche ter sido assassinado no passado sábado por dois trabalhadores negros, os responsáveis do Movimento de Resistência Afrikaner (AWB) juraram vingança, mas ontem vieram serenar os ânimos. “O AWB não se vai envolver em nenhuma forma de retaliação violenta para vingar a morte de Terreblanche”, disse Pieter Steyn, um dos responsáveis pelo movimento» («Racismo põe FPF em alerta», Filipe António Ferreira, Correio da Manhã, 6.4.2010, p. 34).
      Eu sei: mesmo na imprensa internacional ora se lê Terreblanche ora Terre’Blanche — mas com os erros dos outros damo-nos nós bem. No sítio do Afrikaner Weerstandsbeweging (AWB) usa-se apenas Terre’Blanche, e é de supor que conheçam bem o nome do líder. E quanto à tradução do nome do movimento? Por sugestão da leitora S. C., vou dizer algumas palavras sobre a questão. Sem qualquer hesitação, traduziria por Movimento de Resistência Africâner. Palavra que, comprovo com estupefacção, não está registada no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. Ambos registam, contudo, africânder — facto suficiente para tecer o comentário que pretendo. Como é que no Correio da Manhã não usam um dos vários vocábulos (há mais variantes), mais afeiçoados à nossa língua, para traduzir afrikaner?

[Post 3317]

Epicenos

Nada de novo


      Recentemente, abordei aqui a questão dos substantivos epicenos, tendo então recomendado que se não usasse o hífen a ligar o epiceno ao lexema «macho» ou «fêmea». Afinal, não se trata de um facto linguístico novo, e em gramáticas publicadas há décadas é assim que vemos grafado: mosquito fêmea, mosquito macho... Hoje, um consulente do Ciberdúvidas quis confirmar se «esquilo» era um substantivo epiceno. O consultor respondeu: «De fa{c}to, a palavra esquilo é um substantivo epiceno. Por esse motivo, a diferença deve ser feita usando: esquilo-macho e esquilo-fêmea.» Com o Ciberdúvidas, porém, dependendo do consultor que nos calha, pode ter hífen, ou não ter, ou ter, ou não ter...

[Post 3316]

Traduzir «bullying»

Vale a intenção?


      Há invenções, tanto técnicas como linguísticas, condenadas desde logo ao fracasso. Hoje, um consulente do Ciberdúvidas, A. Gonçalves, tradutor, propôs que se use o termo «intimilhação» (inti-, de «intimidar» + -milhação, de «humilhação») para nos referirmos ao bullying. Não se sabe o que leva a que certos vocábulos, neologismos, sejam aceites pelos falantes e outros não. No início de Janeiro, o jornalista Fernando Madaíl, num artigo sobre Malaca Casteleiro, propunha que se substituísse carjacking por carro-assalto. «Uma política de vernáculo, além das áreas da informática, biotecnologia e medicina, poderia já ter substituído e-mail por correio-e ou carjacking por carro-assalto» («O linguista que explica porque há facto e fato», Fernando Madaíl, Diário de Notícias/DN Gente, 9.1.2010, p. 5). O que me parece é que não passa por propostas — passa pelo uso. Que o jornalista use carro-assalto e o tradutor, intimilhação, e depois logo se vê. Como também acontece com as pessoas, mais vale cair em graça do que ser engraçado.

[Post 3315]

«Mass media»

Nada de trapalhadas


      «Gostaria de saber a sua opinião», escreve-me um leitor, «sobre a eterna questão que paira sobre a palavra media/média/mídia e, mais propriamente, sobre a expressão mass media. Como muita gente, sempre fui ensinado a acentuar o e, /média/, dado que é uma palavra latina e que a nossa língua daí descende (embora, pessoalmente, tenha por hábito grafá-la “media”). Entretanto, li também o seu artigo de 2006, onde clarifica esta questão da grafia. No entanto, a minha dúvida prende-se com a expressão inglesa mass media, não querendo embirrar com pessoas que serão, certamente, mais eruditas que eu mas sim perceber a lógica por detrás da coisa. […] É certo que, em inglês, seja por que razão for, a palavra é proferida /mídia/. É, também, certo que, em português, a palavra deve ler-se /média/. No entanto, visto estar a utilizar uma expressão inglesa, não deverei dizê-la (e não escrevê-la) como os seus falantes o fazem, “mass /mídia/”?»
      Não vale a pena estarmos com rodeios: se é altamente recomendável que se diga e escreva meios de comunicação social ou média, quando tivermos de usar a locução inglesa mass media, temos de a ler como tal — à inglesa. Nesse caso, não distinguiremos que media vem do latim e (particularidades à parte) pode ser aportuguesado para média.

[Post 3314]

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