Sobre «okupa»

Vem de Espanha


      «Os okupas não tardaram em descobrir o novo refúgio, começando a pernoitar nos imóveis — propriedade privada — e nem o facto de a autarquia ter recentemente mandado emparedar os pisos térreos os impediu de treparem a parede de tijolo para aceder ao interior dos blocos» («‘Okupas’ transformam bairro de sonho em pesadelo», Roberto Dores, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 24).
      O movimento e a palavra, que tiveram o seu auge na década de 1980, quando ainda nem sequer existia uma norma legal que proibisse a ocupação de imóveis e terrenos vagos, vieram de Espanha. Deriva da palavra espanhola ocupación. A letra k servirá para marcar a diferença. Tem equivalente no inglês squat. Os squatters são os ocupantes de casas, os okupas.

[Post 3289]

Léxico: «corta-vento» II

Está aqui


      De vez em quando, é conveniente revisitar textos antigos e descortinar qualquer evolução. Em relação a corta-vento, por exemplo, alguma coisa mudou: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora passou entretanto a registá-lo: «blusão fabricado com tecido ou material resistente à chuva e ao vento, usado sobretudo em desportos de montanha». Claro que me lêem. E agora só falta o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registá-lo. «Chumbaram uns calções por terem cordões na cintura e na bainha; duas blusas e uma camisola com fitas no pescoço, um corta-vento com cordão deslizante no capuz e um biquíni com várias fitas para atar» («Um em oito conjuntos para criança não cumpre regras», Céu Neves, Diário de Notícias, 24.3.2010, p. 17).

[Post 3288]

Verbo «dar»

«O verbo deiamos não foi encontrado.»


      Um leitor acaba de me escrever: «No programa Um Certo Olhar, da Antena 2, de hoje, comentava-se a eleição do novo presidente do PSD quando o professor, escritor, dramaturgo, crítico literário, comentador e não sei que mais Miguel Real disse: “Pronto, deiamos oportunidade.”»
      Na Beira Interior é que se conjuga comummente desta forma o verbo dar. Mas Luís Martins, pseudónimo de Miguel Real, é lisboeta, segundo umas fontes, ou sintrense, segundo outras. Pode ser as duas coisas, exactamente: natural de Lisboa e residente em Sintra. Mas quanto ao verbo: Dê/dês/dê/dêmos/deis/dêem.

[Post 3287]

«Replicar», anglicismo

Replico, refuto, contesto


      «A nova ferramenta deverá estar a funcionar na região de Lisboa e Vale do Tejo até ao final do ano, mas poderá estender-se ao resto do País. Segundo a mesma fonte, houve médicos de saúde pública de várias regiões que já demonstraram vontade de replicar o projecto e deverão fazer as propostas às respectivas Administrações Regionais de Saúde» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      Poucos dicionários acolhem a acepção do verbo replicar usada no artigo. E a explicação é simples: nesta acepção é anglicismo. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, por exemplo, não a regista. Dos que a registam, prefiro a definição do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: «Repetir ou repetir-se por reprodução ou multiplicação. = REPRODUZIR.» Para concluir: a jornalista não devia ter usado o vocábulo.

[Post 3286]

«Centro de saúde»

Também não percebo


      «Os médicos dos hospitais e centros de saúde vão passar a registar todos os casos de intoxicações alimentares ou por monoxódio [sic] de carbono num sistema informático» («Intoxicações alimentares vão ser registadas nos hospitais», Filipa Ambrósio de Sousa, Diário de Notícias, 22.3.2010, p. 17).
      É muito comum os jornalistas grafarem com maiúsculas iniciais a locução centro de saúde, no plural ou no singular. Mesmo no singular, a não ser que se refira a um centro de saúde específico, é claro que se deverá grafar com minúsculas iniciais.
      A propósito da mesma notícia, pôde ler-se no Correio da Manhã: «Um sistema informático de saúde pública vai permitir que, até ao final do ano, seja possível ter uma ideia do número de toxicoinfecções alimentares causas [sic] pelo consumo de bivalves da região de Lisboa e Vale do Tejo» («Amêijoa ilegal pode provocar intoxicações», Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 18). Nenhum dicionário acolhe o vocábulo toxicoinfecção.

[Post 3285]

«Directivo» como substantivo?

Não percebo


      «Ontem, aplaudiam; hoje, assobiam e insultam, criam, enfim, aquilo que foi pedido para Alvalade por um directivo imprudente: um “ambiente extremamente difícil”» («Não ponham mão nisto, não», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 19.3.2010, p. 64).
      Como estou a leste destas questões do futebol, fui pesquisar que «directivo» era aquele. Vi que o «directivo» era Salema Garção e se referia ao jogo Sporting-At. Madrid, mas este conhecimento não contribuiu em nada para compreender porque é que o jornalista usara o vocábulo. A minha suspeita era a de que Ferreira Fernandes lançara mão de um castelhanismo, directivo, «miembro de una junta de dirección: es directivo de un equipo de fútbol». Só como adjectivo vejo o vocábulo registado. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista em relação a directivo: «Que dirige. = DIRECTOR». Na expressão plano director municipal, «director» é, é óbvio, adjectivo, e podia substituir-se por «directivo».

[Post 3284]

Ordem dos elementos na frase

Faltou o revisor


      Um leitor chamou-me a atenção e fui ver: José Rodrigues dos Santos, pivô mas também romancista premiado, disse no Telejornal de hoje: «Cavaco Silva inaugurou uma exposição dedicada a si próprio em Loulé, concelho onde nasceu.» Já viram a deselegância da frase? Atentem.

[Post 3283]

Sobre «predador sexual»

Apanhar ou matar uma presa


      «Advogado garante que predador e família têm noção da gravidade dos crimes praticados» («Namorada dá apoio a violador na prisão», Helder Almeida, Correio da Manhã, 22.3.2010, p. 8).
      A expressão, traduzida do inglês (sexual predator), é predador sexual, mas nos jornais vão prescindindo do adjectivo. Nenhum dicionário que eu conheça regista a expressão ou a acepção no verbete correspondente. A propósito: o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista, ao contrário do Houaiss e do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, o verbo predar.

[Post 3282]


Actualização em 1.06.2010

      Mas lê-se, sobretudo nas traduções: «É a sua vingança por você predar os indefesos» (A Mancha Humana, Philip Roth. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues e revisão de Fernanda Abreu. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2004, p. 55).



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